
Entrega especial 

Danielle Steel




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      Ttulo original:
      Special delivery


      Traduo:
      Renata Paladino


      1998, 1997 by Danielle Steel





      RESUmO DA CAPA

      Jack Watson, de 59 anos, possui uma das boutiques mais sofisticadas de Beverly Hills. Depois de duas experincias amorosas fracassadas, converteu-se no solteiro
perfeito. Para Amanda, Jack no  mais do que o sogro de sua filha e playboy incorrigvel. Porm, quando fica viva de modo inesperado, encontra-se num terreno desconhecido
e, para seu assombro, comea a se sentir atrada por Jack.
      E, ainda pior, isso a agrada:  um homem com mais valores do que ela imaginava. A relao entre eles escandalizar ambas as famlias. De imediato, tudo ser
obstculo e incompreenso. No entanto, um facto excepcional dar um rumo inesperado  difcil situao.






      Para Tom,
      pelos momentos felizes, com todo o
      meu amor
      d.s.




     Captulo Um

      A Ferrari vermelha cantou os pneus ao fazer a curva e entrar com estilo na vaga onde Jack Watson costumava estacion-la, em sua loja em Beverly Hills: a Julie's.
H exactos vinte anos, ele batizou a loja em homenagem  filha de nove anos. Tudo comeou como um hobby, algo a que ele iria se dedicar por puro prazer depois que
parou de produzir filmes.
      Jack produziu sete ou oito filmes de baixo oramento, nenhum dos quais dignos de nota, tendo passado os seis anos posteriores  formatura na faculdade trabalhando 
aqui e ali como ator. Sua carreira cinematogrfica durou pouco e foi permeada por esperanas e promessas que nunca se concretizavam como planejado, acabando sempre 
em decepo. Mas sua sorte mudou quando resolveu entrar para o mundo do varejo, depois que recebeu a ajuda inesperada da herana de um tio. Aparentemente sem muito 
esforo, ele inaugurou a loja pela qual todas as mulheres de Los Angeles matariam para ser clientes. No incio, sua mulher o ajudou na aquisio das mercadorias, 
mas em menos de dois anos percebeu que tinha muito mais inclinao para o negcio. E, para desgosto da esposa, tinha inclinao tambm para as mulheres que vestiam 
sua marca. Cada mulher na cidade, de atrizes, socialites e modelos, a donas de casa com dinheiro no bolso, desejava ir  Julie's... e conhecer Jack Watson. Ele era 
o tipo de homem que no precisava fazer qualquer esforo para se fazer notar. As mulheres eram atradas para ele como abelhas por mel. E ele amava isso. E a elas.
      
      Dois anos aps a abertura da loja, para surpresa sua e demais ningum, a mulher o deixou. E, nos ltimos dezoito anos, tinha de admitir, nunca sentira sua 
falta. Ele a conheceu no set de um de seus filmes quando ela foi fazer um teste e acabou passando as duas semanas seguintes perdida de paixo na casa de veraneio 
de Jack, em Malibu. De incio, ele ficara loucamente apaixonado e acabaram se casando seis meses depois. Esta foi a primeira e nica incurso de Jack ao casamento. 
Durou quinze anos e dois filhos, mas acabou em amargura e rancor, o que, em sua opinio, era inevitvel a qualquer casamento. A nica vez em que se sentiu tentado 
a casar novamente aconteceu anos mais tarde, com uma mulher que acabou se mostrando esperta demais para aceitar o pedido. Ela foi a nica mulher que o fez querer 
ser fiel, e de facto o foi, pelo menos daquela vez. Ele estava com quarenta e poucos anos e ela, uma actriz francesa de sucesso, de 39. Viveram juntos por dois anos, 
e quando ela morreu num acidente de carro, indo ao seu encontro em Palm Springs, ele pensou que jamais superaria a perda. Pela primeira vez na vida, Jack Watson 
soube o que era de facto sentir dor. Ela era tudo com que ele sempre sonhara, e, em raros momentos de seriedade, at mesmo agora, admitia ter sido ela a nica mulher 
que amara na vida, e falava a srio. Dorianne Matthieu era alegre e irreverente, sexy e bonita, e,  sua maneira, absolutamente original. Ela no planejava nada 
com ele, e dizia que s uma tola se casaria com um homem assim, mas em nenhum momento sequer Jack duvidara do quanto ela o amava. E a adorava. Ela o levou a Paris 
para conhecer seus amigos e viajaram para todos os lugares juntos: Europa, sia, frica, Amrica do Sul. Para ele, os momentos passados ao seu lado pareciam ter 
um toque de mgica. At que ela morreu e o deixou com um vazio enorme e com uma sensao to esmagadora de perda que chegou a pensar que iria morrer de dor.
      Houve mulheres desde ento, muitas delas, preenchendo suas noites e dias. Nos doze anos que se seguiram  tragdia, ele mal conseguiu ficar sozinho por alguns 
instantes, pelo menos fisicamente, mas nunca mais amou outra mulher daquela maneira. Na verdade no queria mais amar. At onde sabia, amar era doloroso demais. Aos 
59 anos, Jack Watson tinha tudo o que sempre quisera ter: um negcio que parecia nunca parar de crescer e de fazer dinheiro.
      Ele abrira uma loja em Palm Springs, antes da morte de Dori, e outra em Nova York, cinco anos depois. E, nos ltimos dois anos, vinha pensando em abrir uma 
em San Francisco. Mas, com sua idade, no tinha mais certeza de querer as dores de cabea inevitveis a mais uma expanso. Talvez se seu filho, Paul, viesse trabalhar 
com ele... Mas at agora no fora muito feliz na tentativa de tirar Paul de sua prpria carreira como cineasta. Aos 32 anos, Paul j era um jovem produtor de sucesso. 
Era muito mais bem-sucedido do que o pai o fora em sua poca, e gostava sinceramente do que fazia. Mas Jack tinha um profundo ressentimento quanto s inseguranas 
geradas pela indstria cinematogrfica, e s desiluses que inevitavelmente trazia consigo. Ele teria dado tudo para atrair Paul para os seus negcios. Talvez um 
dia. Mas, certamente, no agora. Paul no Lhe dava ouvidos. 
      Paul amava seu trabalho, e sua mulher. Estava casado h dois anos, e a nica coisa que parecia estar faltando em sua vida, pelo menos assim o dizia, era um 
filho. Jack no tinha certeza se Paul se importava muito com filhos, mas Jan sim, Com certeza. Ela trabalhava em uma galeria de arte e Jack tinha a impresso de 
que ela ansiava ter filhos. Na sua opinio, ela parecia ser um pouco frgil, mas era uma boa garota e obviamente fazia Paul muito feliz. Era tambm muito bonita. 
Sua me era a actriz Amanda Robbins, h muito aposentada, mas de aparncia espetacular. Amanda era alta, magra e loura, um colrio para os olhos mesmo aos cinquenta 
anos. Ela desistira de uma carreira cinematogrfica extraordinria h vinte e seis anos para se casar com um banqueiro muito srio, respeitvel e, na opinio de 
Jack, extremamente enfadonho chamado Matthew Kingston. Eles tinham duas filhas lindas, uma manso em Bel Air e frequentavam os crculos mais respeitveis da sociedade. 
      Amanda era uma das poucas mulheres em Los Angeles que nunca fizera compras na loja de Jack, e, nas raras ocasies em que seus caminhos se cruzavam, ele sempre 
se divertia com a idia de ela no o suportar de modo algum. Ela parecia odiar tudo o que ele era e o que representava. No o surpreenderia em nada se viesse a descobrir 
que Amanda fizera tudo ao seu alcance para dissuadir a filha de casar com Paul Watson. Ela e seu marido pareciam no confiar no show business, e tinham certeza de 
que, mais cedo ou mais tarde, Paul se tornaria to promscuo quanto o pai. Mas isso no era verdade. Paul era um jovem adulto srio e j havia provado ser um marido 
estvel e digno de confiana. Eles acabaram aceitando-o no seio de sua famlia, ainda que jamais tenham sido cordiais com seu pai. A reputao de Jack era bastante 
conhecida em Los Angeles. Ele era boa-pinta e podia ser visto em todos os lugares. Era famoso por circular pelas camas de cada estrela em incio de carreira e modelo 
que cruzasse seu caminho, e isso sem precisar se justificar para ningum. Era sempre gentil com as mulheres com quem saa; na verdade, era gentil at demais. Era 
generoso e inteligente. Sua presena e companhia eram sempre agradveis. As mulheres que namorava o adoravam e, vez por outra, uma delas demonstrava ser tola o bastante 
ao achar que poderia "prend-lo" por algo mais do que um caso fugaz Mas Jack Watson era muito esperto para se deixar agarrar. Ele fazia com que entrassem e sassem 
de sua vida antes de criar razes, ou de ter tempo de comear a deixar as roupas em seu armrio. E fazia questo de ser dolorosamente honesto com elas. No fazia 
promessas, nem criava falsas iluses. Proporcionava-lhes bons momentos, levava-as a todos os lugares sobre os quais liam e com os quais sonhavam, bebia e jantava 
com elas nos melhores restaurantes e, antes que percebessem, ele j tinha ido embora, para a prxima. E elas eram abandonadas com a lembrana agradvel, ainda que 
breve, de um caso com um homem sexy e charmoso, que as deixou ansiando por mais e desejando ter sido capazes de segur-lo mais um pouquinho.
      Era impossvel ter raiva de Jack, ou mesmo guardar mgoas por muito tempo. Tudo nele era irresistivelmente charmoso, at o modo como as abandonava. Ele saa 
com mulheres casadas de vez em quando, e s tinha coisas maravilhosas a dizer a respeito de seus maridos. Jack Watson era um cara divertido, ptimo de cama e um 
playboy incurvel, e nunca pretendeu, por um milsimo de segundo sequer, ser nada diferente. E, aos 59 anos, mantinha uma aparncia muitos anos mais nova. Fazia 
ginstica quando tinha tempo, nadava na praia quase sempre, frequentava sua casa em Malibu e amava suas mulheres quase tanto quanto sua Ferrari vermelha. As nicas 
coisas com as quais ele realmente se importava, e tratava com seriedade, eram seus filhos. Julie e Paul eram e sempre seriam a luz de seu viver. A me deles era 
apenas uma lembrana sombria, e s havia um facto que o deixava feliz ao se lembrar dela: o bom senso que ela tivera em deix-lo. Nos ltimos dezoito anos, ele fizera 
exactamente o que queria, at mesmo quando estava com Dori. Era mimado, tinha dinheiro, seus negcios eram um verdadeiro sucesso e era irresistvel junto s mulheres. 
E, o que  pior, tinha conscincia disso. Por mais estranho que possa parecer, isso no o tornava nem um pouco arrogante. Apenas sexy, divertido e quase sempre feliz. 
Ele adorava aproveitar a vida. "Adorvel" era uma palavra que as mulheres sempre usavam para descrev-lo. Elas gostavam dele, que correspondia.
      - Bom dia, Jack. - A gerente da Julie's sorriu para Jack, enquanto ele corria pela loja na direco do elevador privativo que o levaria directo a seu escritrio. 
Este ficava no quarto andar e era inteiramente prateado e decorado com couro preto. Fora projectado por uma famosa arquitecta de interiores italiana, outra mulher 
com a qual se envolveu.
      Ela quis deixar o marido arquitecto e os trs filhos para ficar Com Jack, mas ele lhe assegurou que a vida a seu lado poderia lev-la completamente  loucura. 
E, na poca em que o caso terminou, ele conseguira convenc-la quase por completo. Observar Jack em Seu pequeno mundo privado era ao mesmo tempo excitante e de certa 
forma alarmante. 
      Ele sabia que haveria caf  sua espera l em cima, e at mesmo um almoo leve. Deu uma olhada no relgio. Decidira chegar meia hora atrasado no trabalho para 
poder nadar, mesmo sendo janeiro. O clima estava quente, ainda que a gua no. Ele adorava nadar no mar, adorava sua casa na praia e tudo o mais no seu mundo de 
negcios E, apesar de seu passatempo com as mulheres, era inflexivelmente disciplinado no trabalho. No era por acaso que a Julie's era Uma das pequenas cadeias 
de maior sucesso no mercado varejista. Vrias pessoas O abordaram durante anos para que abrisse sociedade, mas Jack no estava preparado, Ele gostava de manter o 
controle e ser o nico dono. No precisava consultar mais ningum ao tomar as decises, nem responder a nada, ou dar explicaes, nem se aborrecer com algum. A 
Julie's era cem por cento sua. 
      Ao chegar ao escritrio, havia uma pilha de mensagens organizadamente dispostas em sua mesa, uma lista de compromissos para aquela tarde e algumas amostras 
de tecido que ele vinha esperando de Paris. Eram esplndidas. Foi Dori quem apresentara o milagre dos tecidos franceses a ele.. e a comida francesa... e o vinho 
francs... e as mulheres francesas. Ele ainda tinha uma queda por coisas francesas, e muitas das mercadorias que trazia para a Julie's eram importadas. O melhor 
do que h de melhor, era o que prometia, e cumpria. 
      O telefone tocou quase ao mesmo tempo em que Jack se sentou. Era o ramal interno. Ele apertou o boto enquanto continuava a olhar para os tecidos franceses. 
      - Oi -, falou casualmente para a mquina, com o tipo de voz que levava as mulheres  loucura, mas no sua secretria, Gladdie. Ela o conhecia bem demais para 
se deixar afetar. Trabalhava para ele h cinco anos e sabia tudo o que havia para saber sobre seu chefe. 
      O nico grupo de mulheres sagradas para Jack, com as quais nunca mexia, eram as que trabalhavam em seu escritrio. Esta era uma das poucas regras que a respeito 
das mulheres que ele nunca desrespeitara. 
      - Quem !
      - Paul est na linha. Voc quer falar com ele, ou digo que est ocupado? A pessoa marcada para as dez e quinze deve chegar a qualquer momento. 
      - Essa pessoa pode esperar. - Marcara um encontro com um fabricante de bolsas de Milo que trabalhava principalmente com couro de jacar e de lagarto. - Distraia 
o cara por alguns minutos. Quero falar com Paul primeiro. - Sempre que possvel, ele tentava no deixar suas crianas para depois. J tinha um sorriso nos lbios 
quando pegou o fone. Paul era um grande garoto, sempre fora, e Jack era louco por ele. - E a, filho, o que h?
      - Pensei em ligar para ver se voc gostaria que eu o apanhasse. Ou prefere encontrar com a gente l? - Ainda que Paul tivesse um temperamento tranquilo por 
natureza, ao contrrio de Jack, hoje ele soava estranhamente melanclico. 
      - Encontrar onde? - A oferta de Paul de apanh-lo no fazia sentido algum. No tinha qualquer lembrana de terem marcado um encontro. Geralmente, pelo menos 
no tocante a seus filhos, ele se lembraria, mas no desta vez. 
      - Pare com isso, pai. - Paul soou levemente exasperado e um tanto estressado. Certamente no gostou do que o pai disse. - Isto  srio! No brinque. 
      - No estou brincando - disse Jack, colocando a amostra de tecidos franceses na mesa e olhando para os papis que estavam por ali,  procura de alguma pista 
para entender o que o filho estava dizendo. - Aonde vamos! - E ento, com sbita sensao de constrangimento, ele se lembrou. - Oh, Deus, eu... - O funeral do sogro 
de Paul. Como ele pode ter esquecido? Deixara de anotar na agenda e no devia ter dito nada a Gladdie, do contrrio ela o teria alertado tanto na noite anterior 
quanto pela manh. 
      - Esqueceu, no  pai! - O tom de voz de Paul se tornou repentinamente acusador.  bvio que ele no estava para brincadeiras. - No posso acreditar. 
      - No esqueci, apenas no estava pensando nisso. 
      - Conversa. Voc esqueceu. A cerimnia comea ao meio-dia e haver um almoo em seguida na casa deles. Voc no precisa ir, mas acho que seria bom que desse 
pelo menos uma passada. - Sua irm, Julie, prometera ir tambm.
      - Quantas pessoas voc acha que vo receber? - perguntou Jack, tentando encontrar rapidamente uma soluo para vrios dos seus compromissos daquela tarde. 
No seria nada fcil, mas se significava alguma coisa para Paul, ento tentaria comparecer. 
      - No almoo? No sei... eles conhecem um monte de gente, provavelmente umas duzentas ou trezentas pessoas. - Jack ficara impressionado ao ver mais de quinhentas 
pessoas no casamento do filho. - Veio gente de todo canto por causa dos Kingstons. 
       - Bom, assim eles no sentiro minha falta no almoo - disse Jack, sendo lacnico -, e obrigado por oferecer a carona. Encontro vocs l.  melhor que fique 
ao lado de Jan e da me dela. Estarei em algum lugar  distncia. 
      - Faa com que Amanda saiba que voc apareceu - instruiu Paul. - Jan ficaria muito chateada se a me pensasse que voc no esteve no funeral. 
      - Acho que ela ficaria muito mais feliz se eu no fosse. - Jack riu, sem fazer mistrio a respeito da leve animosidade que existia entre eles. Danaram juntos 
no casamento dos filhos, e Amanda Kingston deixou claro, sem precisar dizer uma palavra, que no gostava mesmo dele. Assim como todos na cidade, ela lia notcias 
a seu respeito o tempo todo nos jornais. E a partir do momento em que desistiu da carreira de atriz, adotara a opinio bastante moderada do marido de que uma pessoa 
s deve aparecer nos jornais ao nascer, morrer ou casar. Jack virava notcia por ter sido visto com atrizes relativamente conhecidas, com estrelas em ascenso, ou 
por ter dado alguma festa de arromba na Julie's. 
      A loja era famosa, tanto quanto ele, por suas maravilhosas festas s para estilistas e clientes. As pessoas imploravam por convites. Todos menos os Kingstons. 
E, j sabendo que no compareceriam, Jack nunca se deu ao trabalho de convid-los. 
      - Bom, de qualquer maneira, chegue na hora, pai. Voc se atrasaria para seu prprio enterro, se pudesse. 
      - O que, espero, no acontecer to cedo, muito obrigado - disse Jack, pensando no infarto que matara Matthew Kingston. Ele morrera h quatro dias, na quadra 
de tnis, e era dois anos mais novo que Jack. Amanda acabara de fazer cinquenta. Os homens que estavam jogando tnis com ele fizeram todo o possvel para reanim-lo, 
mas foram infelizes em sua tentativa. Aos 57 anos, sua morte estava sendo lamentada pela famlia, por toda a comunidade banqueira, e por todos aqueles que o conheciam. 
Mas Jack jamais gostara dele. Achava-o pomposo, enfadonho e tedioso. 
      - Vejo voc l, pai. Tenho que pegar Jan na casa da me. Ela passou a noite l. 
      - Ser que ela precisa de alguma coisa? Um chapu? Um vestido? Posso fazer com que uma das meninas separe algumas pesas para que voc apanhe quando estiver 
a caminho de l, se precisar. 
      - Obrigado, pai. - Paul sorriu por causa do tom de voz do pai. Ele era um p no saco s vezes, mas no fundo era um cara decente e Paul o amava. - Acho que 
Amanda j providenciou tudo de que elas precisam. Ela est arrasada por causa de Matt, mas nem assim deixa de ser incrivelmente organizada.  uma mulher e tanto. 
      - A Rainha de Gelo - disse Jack, e se arrependeu no mesmo instante, mas as palavras saram antes que pudesse impedir. 
      - Que coisa horrvel de se dizer de uma mulher que acabou de perder o marido! 
      - Desculpe. No foi por mal. - Mas ele no estava muito longe da verdade. Ela parecia estar sempre sob controle, e era absolutamente perfeita em tudo. S de 
olhar para ela, Jack sentia uma vontade quase irresistvel de desarrumar seu cabelo e de tirar sua roupa. Esse simples pensamento o fez rir ao desligar o telefone. 
E o levou a pensar nela, o que raramente acontecia. 
      Ele sentia muito por sua perda - ainda podia se lembrar claramente do que sentira quando Dori morrera - mas havia algo to frio e distante na sogra de Paul 
que ficava difcil sentir pena de verdade. Ela era insuportavelmente perfeita. 
      E era impressionante como ainda possua a mesma aparncia da Amanda Robbins que abandonou as telas aos 24 anos para se casar com Matthew Kingston. Fora um 
casamento badalado, recheado de convidados da alta sociedade e de Hollywood, e por muito tempo as pessoas fizeram apostas ou tentaram adivinhar se ela ficaria entediada 
e se voltaria ao trabalho. Mas isso no aconteceu. Ela manteve a ptima aparncia e a beleza gelada, mas sua carreira terminara para sempre. Era fcil prever que 
Matthew Kingston no permitiria que isto acontecesse. Ele agia como se fosse seu dono. 
      Jack abriu o armrio em seu closet e ficou feliz por ter deixado um terno escuro ali dentro. No era um de seus melhores, mas ao menos era apropriado para 
a ocasio, ainda que todas as gravatas da pequena coleco que mantinha ali para emergncias fossem vermelhas, azuis ou amarelas. Ento teve que sair rapidamente 
do escritrio  procura de Gladdie. 
      - Por que voc no me lembrou do funeral? - reclamou, sem estar exactamente zangado, e ela sabia disso. Ele era uma daquelas poucas pessoas que sempre se responsabilizava 
por seus prprios erros, e esta era uma das principais razes pelas quais adorava trabalhar para ele. E a despeito de sua reputao de irreverente e irresponsvel, 
ela o conhecia a fundo e melhor do que ningum. Como chefe, era interessado, generoso, confivel, sendo um verdadeiro prazer trabalhar com ele. 
      - Achei que no esqueceria. Esqueceu? - perguntou, com um riso contido, e ele fez que sim com a cabea, meio constrangido. 
      - Acto falho, acho. Odeio ir a enterros de homens mais novos do que eu. Faa-me um favor, Glad. V at a Herms e me traga uma gravata preta. Nada simples 
demais, mas srio o suficiente para que eu no envergonhe Paul. Nada com mulheres peladas. - Ela riu dele, e pegou sua carteira na hora em que o fabricante de bolsas 
e seu assistente entraram. Ia ser uma reunio extremamente rpida. 
      Jack j tinha encomendado uma centena de bolsas s Onze horas, quando Gladdie voltou da Herms com uma gravata cinza-azulada com pequenas figuras geomtricas. 
Era perfeita. 
      - Bom trabalho - disse ele, agradecido, colocando-a em volta do pescoo e dando um n impecvel, sem olhar no espelho. Ele usava um terno cinza-escuro com 
uma camisa branca, e um par de oxfords franceses feitos  mo. Estava maravilhoso em seu traje, combinando com os cabelos loiros, os olhos castanhos e as feies 
bem-delineadas. - Estou respeitvel?
      - No tenho certeza se esta  a palavra certa para descrev-lo... talvez lindo seja mais apropriado. - Ela sorriu, j acostumada a seu charme, o que Jack achava 
bom nela. Estar com Gladdie era sempre muito agradvel. Ela no dava a mnima para sua aparncia, reputao, ou para o facto de ser mulherengo; s o que lhe interessava 
era seu trabalho. - Voc est ptimo, juro. Paul ficar orgulhoso. 
      - Espero que sim. Talvez aquela senhora charmosa que ele tem como sogra desista de chamar a polcia quando me vir esta manh. Deus, odeio enterros. - Ele j 
podia sentir uma nuvem pairando sobre sua cabea, ainda se lembrando de Dori. Cristo, aquilo fora horrvel... o choque, e aquela dor insuportvel. A angstia absoluta 
de tentar entender que ela se fora para sempre. Passaram-se anos at que conseguisse superar a perda, apesar de ter tentado preencher o vazio com milhares de mulheres. 
Mas nunca mais houve uma mulher como Dori. Ela era to calorosa, to bonita, to sexy, maliciosa e atraente. Era uma mulher sensacional, e esse simples pensamento, 
que cruzou sua mente enquanto pegava o elevador quando j era quase meio-dia, vestido naquele terno sbrio, conseguiu deprimi-lo profundamente. Fazia doze anos desde 
sua morte, e Jack ainda sentia muito a sua falta. 
      Estava to distrado que nem notou a mulher que olhava para ele admirada, enquanto saa da loja, e deslizava por trs do volante de sua Ferrari. Ele arrancou 
da calada j em velocidade, com o poderoso motor roncando, e cinco minutos mais tarde estava no Santa Mnica Boulevard, indo em direco  igreja episcopal All 
Saints, onde estava acontecendo a cerimnia. J tinham se passado dez minutos do meio-dia e o trfego estava pior do que esperara. O tempo estava quente para uma 
tarde de janeiro em Los Angeles, e todas as pessoas do mundo pareciam estar em seus carros indo para algum lugar. Chegou vinte minutos atrasado na All Saints e sentou 
silenciosamente na parte de trs da igreja. Era impossvel calcular quantas pessoas estavam naquele lugar. De onde estava sentado, parecia que havia umas setecentas 
ou oitocentas, mas no era possvel que este nmero fosse verdadeiro. 
      Procurou a filha com os olhos, mas ela devia estar perdida no meio da multido em algum lugar. S conseguiu ver a silhueta de Paul na parte da frente da igreja, 
sentado entre a mulher e a irm dela. E a figura da viva estava completamente encoberta. Tudo o que Jack conseguia ver era a inevitabilidade inexorvel do caixo, 
to rgido e severo, de mogno macio com alas de bronze, coberto por uma camada de rosas e pequenas orqudeas brancas. Elas possuam uma certa beleza, ainda que 
carregada de pesar, assim como todas as outras flores na igreja. Havia orqudeas por toda a parte e, de alguma forma, mesmo sem pensar muito, Jack sabia que Amanda 
cuidara de tudo. Havia ali o mesmo tipo de ateno impecvel aos detalhes, mesmo numa hora como essa, que ela demonstrara no casamento dos filhos. 
      Mas Jack rapidamente parou de pensar nela e perdeu-se em seus prprios pensamentos, lembrando de sua prpria mortalidade durante o servio episcopal. Um amigo 
discursou, assim como os dois genros. As palavras de Paul foram breves e directas, mas bastante comoventes, e, sem querer, lgrimas brotaram dos olhos de Jack quando 
foi elogiar o filho depois de terminada a cerimnia. 
      - Aquilo foi muito bonito, filho - disse, perdendo a voz por um momento. - Voc j pode discursar no meu enterro, quando chegar a hora. - Ele tentou fazer 
uma gracinha, mas Paul balanou a cabea em desaprovao e colocou o brao no ombro dele. 
      - Deixe de ser convencido. Eu no saberia dizer nem uma palavra decente sobre voc. Acho que ningum saberia, ento no precisa se preocupar. 
      - Obrigado, vou me lembrar disto. Talvez eu deva parar de jogar tnis. 
      - Pai... - Paul o repreendeu, dando-lhe um rpido olhar de advertncia. Amanda se aproximava, lentamente se movimentando por entre a multido at o lugar em 
que deveria ficar para cumprimentar algumas pessoas. E, antes que Jack pudesse fazer qualquer movimento, percebeu que estava olhando directamente para ela. Amanda 
estava impressionantemente bonita e, mesmo depois de tantos anos, ainda parecia uma estrela de cinema. Ela usava um chapu preto de abas largas com um vu, e um 
tailleur preto muito distinto, que Jack suspeitou imediatamente ter sido confeccionado por um estilista francs. 
      - Ol, Jack - disse ela, calmamente. Parecia estar bastante controlada, mas seus expressivos olhos azuis carregavam tanta dor que ele ficou sinceramente penalizado. 
      - Sinto muito, Amanda. - Mesmo no sendo muito chegado a ela, era fcil ver como estava devastada pela perda do marido. No pde dizer mais muita coisa ao 
v-la olhando ao longe por alguns instantes, com a cabea inclinada. Ento saiu dali. Paul foi  procura de Jan, que estava ao lado da irm. 
      Jack ficou por mais um ou dois minutos, no encontrou ningum conhecido, e ento decidiu sair de mansinho sem incomodar o filho. Paul estava obviamente ocupado 
demais. 
      Meia hora depois, Jack estava de volta ao escritrio, mas permaneceu quieto por toda a tarde, pensando neles, na famlia que perdera, o homem que os mantinha 
unidos. Ainda que no gostasse dele, o homem merecia respeito,  fcil sentir pena dos que o amavam e que foram privados de sua presena to repentinamente. Durante 
a tarde inteira, no importa o que estivesse fazendo, Jack era assombrado pela lembrana de Dori. At que pegou uma fotografia dela, algo que raramente fazia. A 
foto ficava escondida em sua mesa justamente para esses momentos. E quando viu aquela expresso Sorridente na praia em Saint-Tropez, sentiu-se mais desolado do que 
nunca. 
      Gladdie foi ver se ele precisava de alguma coisa, uma ou duas vezes, e sentiu que Jack queria mesmo era ficar sozinho. At mandou que ela cancelasse os dois 
ltimos compromissos do dia. Mas, mesmo deprimido, Jack continuava lindo naquele traje escuro com a gravata nova que Gladdie comprara. E mal sabia ele que, naquele 
exacto momento, em sua casa em Bel Air, Amanda Kingston estava falando a seu respeito. 
      - Seu pai foi muito gentil em ter vindo - disse ela a Paul, assim que o ltimo convidado se retirou. Todos tiveram a impresso de que aquela tarde no acabaria 
nunca, e, apesar de sua postura inabalvel, at Amanda parecia exausta. 
      - Ele ficou muito triste com o que aconteceu a Matthew - disse Paul, tocando em seu brao com carinho. 
      Amanda balanou a cabea com uma expresso de pesar e Olhou para as filhas. 
      As duas estavam arrasadas com a perda do pai, o que as fez at parar de brigar, pelo menos uma vez na vida. Entre Jan e a irm, Louise, havia uma diferena 
de pouco mais de Um ano, mas elas eram completamente diferentes, em todos os aspectos. As duas brigavam, dia e noite, desde a infncia. Mas, dadas as circunstncias, 
tiveram que fazer as pazes para poder consolar a me. Paul saiu calmamente, deixando-as a ss. Foi at a cozinha para tomar uma xcara de caf. O pessoal do buf 
ainda estava l, lavando os pratos e os copos que serviram s mais de trezentas pessoas que foram prestar condolncias aos Kingstons. 
      - No consigo acreditar que ele se foi - disse Amanda, num sussurro, parada de costas para as filhas e olhando para o seu jardim to bem-cuidado. 
      - Nem eu - acrescentou Jan, enquanto as lgrimas rolavam em seu rosto mais uma vez. Neste momento, Louise deu um suspiro. Ela o amava, mas nunca se dera muito 
bem com ele. Sempre teve certeza de que era mais rgido com ela do que com Jan, e de que exigia muito mais dela. O pai ficara furioso quando Louise decidiu no entrar 
para a faculdade de direito e, em vez disso, resolveu se caar logo aps ter terminado o segundo grau. Mas seu casamento era slido e, nos primeiros cinco anos, 
dera  luz trs filhos. 
      Matthew achava que estava tendo filhos demais. Mas no o incomodava de modo algum o facto de Jan nunca ter tido uma carreira de verdade, nem sequer a vontade 
de escolher uma, e ter se casado com um homem do show business, filho de um simples comerciante da Rodeo Drive. Louise no gostava de Paul, e no fazia muita questo 
de esconder isto. Seu marido era um dos advogados da firma Loeb & Loeb, ou seja, um candidato mais apropriado para se casar com uma Kingston. 
      Enquanto Jan chorava, naquela tarde do funeral, tudo em que Louise podia pensar era o quanto seu pai a criticara, em como tinha sido difcil lidar com ele 
e em quantas vezes chegara a duvidar do amor paterno. Ela se sentiria melhor se pudesse desabafar com algum, mas sabia que nem a me nem a irm teriam entendido. 
Sua me sempre odiava quando fazia algum comentrio crtico sobre o pai. 
      E, na opinio de Amanda, Matt j tinha virado santo a uma hora dessas. 
      - Quero que vocs duas se lembrem do homem maravilhoso que seu pai foi - disse Amanda, virando na direco delas, o queixo trmulo e os olhos cheios de lgrimas. 
      O cabelo loiro estava preso em um coque, e as filhas tinham plena conscincia de que sua me era muito mais bonita do que elas. Sempre o fora. Ela era de uma 
beleza extraordinria, e Louise a odiava por isto. Era impossvel, comparar com a me. E, para piorar, ela sempre tivera a expectativa de que as filhas fossem igualmente 
perfeitas. 
      Louise nunca chegou a conhecer o lado mais humano da me, sua vulnerabilidade, as inseguranas que a acompanharam no decorrer da vida e que se esconderam por 
trs de uma fachada de requinte e beleza. Jan era mais chegada a Amanda, o que aumentava ainda mais o ressentimento eterno entre as irms. Louise sempre acusara 
Jan de ser a favorita dos pais, e Jan sempre se sentira acusada injustamente sem entender o motivo. 
      - Quero que saibam que ele as amava muito, muito mesmo - continuou Amanda, mas no pde mais prosseguir porque comeou a soluar baixinho. Ela ainda no conseguia 
acreditar que ele se fora, que nunca mais poderia aconchegar-se em seus braos novamente. Seu pior pesadelo se tornara realidade. Ela sempre dependera completamente 
dele, e era quase impossvel imaginar a vida sem Matt a seu lado. 
      - Me... - Jan aninhou a me em seus braos como uma criana, enquanto ela soluava. Louise saiu sorrateiramente do ambiente e encontrou Paul na cozinha. Ele 
estava sentado  mesa, bebendo uma xcara de caf. 
      - Como ela est? - perguntou Paul, com um ar de preocupao. Louise deu de ombros. Sua dor era extremamente visvel, mas, como sempre, vinha misturada com 
muita raiva. Seus filhos tinham ido para casa com a bab e o marido voltara para o escritrio. E, gostasse ela ou no, no havia ningum mais com quem conversar 
a no ser Paul. 
      - Pssima. Ela dependia dele para tudo. Papai determinava a que horas ela deveria acordar ou dormir, dizia o que fazer, o que no fazer, e at escolhia suas 
amizades. No sei por que o deixava fazer isso. Chegava a ser repugnante. 
      - Talvez fosse disso que ela precisava - disse Paul, olhando com interesse para a irm de sua mulher. Ela estava sempre to carregada de raivas e ressentimentos 
que Paul se perguntava em silncio se era realmente feliz com o marido. Como em todas as famlias, elas tinham suas agendas individuais e vidas particulares. Sempre 
o intrigava o modo como as duas falavam da me. Cada uma delas a via de uma maneira diferente, mas a mulher que conheciam era muito diferente do que deixava transparecer 
para o resto do mundo: uma pessoa de aparncia tranquila e serena. Elas viam na me um ser completamente dominado e assustado. Paul ficou imaginando se esta teria 
sido a razo verdadeira pela qual Amanda nunca mais voltara a fazer cinema. Talvez, alm de Matthew no querer que voltasse, ela tivesse um medo muito grande que 
a impedia de retomar a carreira. - Ela ficar bem - ele consolou Louise, no sabendo mais o que dizer. Ela colocou um pouco de vinho para si, deixando transparecer 
alguns sinais de uma mulher infeliz. - Jan vai tomar conta dela - acrescentou ele com a inteno de acalmar a cunhada, mas o comentrio apenas a deixou com mais 
raiva ainda. 
      - , aposto que vai. Ela est sempre puxando o saco da mame. A vida inteira foi assim, mesmo quando ramos crianas. Estou surpresa que vocs no tenham se 
oferecido para vir morar aqui com ela. Isto iria causar uma ptima impresso. Voc sabe, ela vai precisar de muita ajuda para tocar o inventrio. Tenho certeza de 
que voc e Jan ficariam muito felizes em ajud-la. 
      - Por que voc no relaxa, Lou? - perguntou ele, usando o apelido com que Jan costumava chamar a irm. Ela olhou-o com uma expresso contida, surpreendentemente 
parecida com o tipo de olhar da me, mas, no fundo, ela era igual ao pai. Apenas bonita; e nada mais. Entre as duas, Jan tinha uma aparncia melhor. - Ningum est 
tentando mago-la. 
      - Tarde demais - disse ela, enchendo mais uma vez a taa de vinho, imediatamente aps ter terminado a primeira. - Eles fazem isto comigo h anos. Talvez mame 
consiga finalmente amadurecer sem papai por perto. E mais provvel que todas possamos amadurecer a partir de agora. - Dito isto, Louise colocou a taa na mesa e 
saiu na direco do jardim. Paul no fez meno de segui-la. 
      Jan e Amanda puderam ver Louise atravs da janela. 
      - Ela est com raiva de mim de novo - disse Jan. - Ela est sempre zangada comigo por algum motivo. 
      - Eu gostaria que vocs parassem de brigar - disse Amanda, olhando com tristeza para a filha mais nova. - Sempre achei que tudo seria diferente quando vocs 
crescessem, que seriam grandes amigas, especialmente depois que ambas estivessem casadas e com filhos. - Isso era tudo o que ela desejara para as filhas desde o 
seu nascimento. Nesse momento, Jan exibiu um olhar de pesar ao ouvir as palavras da me. 
      - Bem, eu no... eu... 
      - O qu? - A me ficou confusa por um momento, e parecia to triste que, ao olhar para ela, Jan ficou com o corao partido. 
      - Ter filhos. - Algo na entonao de Jan prendeu a ateno da me. 
      - Voc no quer ter filhos? - Amanda pareceu surpresa. A simples idia de que a filha no quisesse ter filhos j seria considerado uma traio. 
      - Quero - respondeu Jan e olhou para a irm atravs da janela. Lou tivera trs filhos em cinco anos, to logo decidiu que queria ter. E agora era Jan quem 
tinha cimes dela. - Claro que quero. Estamos tentando h um ano, e nada acontece. 
      - Isso no significa nada - afirmou Amanda, mostrando um sorriso para a filha. - s vezes leva algum tempo. Seja paciente. 
      - No levou algum tempo com voc. Voc e papai nos tiveram nos dois primeiros anos de casamento. - Ela suspirou, enquanto Amanda acariciava suas mos. A seguir, 
olhou fundo nos olhos da me. E o que Amanda viu naqueles olhos partiu seu corao. No era apenas pesar, mas medo e decepo. - Quero que Paul v a um mdico comigo, 
mas ele se recusa. Ele acha que no tenho motivos para ficar preocupada. 
      - J falou com seu mdico? Ele acha que h algum problema? - Amanda comeava a ficar seriamente preocupada. 
      - Ele no sabe, mas acha que vale a pena investigar. Ele me deu o nome de um especialista, mas Paul ficou furioso s de eu falar nisso. Ele disse que sua irm 
tem filhos, assim como Lou, e que no haveria motivos para que justamente ns tivssemos algum tipo de problema. Mas no  to simples assim. - De repente, Amanda 
ficou imaginando se existiria alguma coisa da qual no tinha conhecimento, alguma doena terrvel na juventude da filha, alguma atitude inconsequente, um aborto, 
mas no ousou perguntar. Era melhor deixar tudo com o mdico. 
      - Bom, talvez voc devesse dar ouvidos a Paul, pelo menos durante algum tempo, e tentar no ficar preocupada. 
      - Isso  tudo em que penso, me - confessou, com lgrimas rolando pelo rosto e caindo no vestido, enquanto a me observava sua angstia. - Eu quero tanto um 
beb... e tenho tanto medo de nunca conseguir. 
      -  claro que voc vai conseguir... - Ela no suportava ver sua filha to infeliz, especialmente agora, tendo acabado de perder o pai. - Mas existe sempre 
a possibilidade de adoo, se as coisas continuarem deste jeito. 
      - Paul diz que jamais adotar uma criana. Ele quer seus prprios filhos. - Amanda teve de conter a lngua para no dizer que Paul parecia no s estar dificultando 
as coisas, como sendo extremamente dogmtico e egosta. 
      - Voc pode faz-lo mudar de idia. Mas por que no relaxa agora? Aposto que voc ficar grvida antes do que imagina. - Jan aceitou, fazendo um gesto afirmativo 
com a cabea, mas era claro, pelo seu olhar, que no estava convencida. Ela vinha se preocupando com isto h um ano, e esta preocupao j estava se transformando 
em pnico. Mas, se algo de bom pudesse ser extrado desta situao, seria o canal que se abrira entre me e filha. 
      - E quanto a voc, me? Ficar bem sem o papai? - Esta pergunta fora dolorosa demais. Tanto que os olhos de Amanda se encheram de lgrimas mais uma vez. Ela 
fez que no com a cabea e comes ou a chorar abertamente. 
      - No posso nem imaginar a vida sem ele. Nunca mais haver outra pessoa, Jan. Nunca. Eu no conseguiria. ramos casados h vinte e seis anos. Mais do que a 
metade da minha vida inteira. No consigo nem comear a pensar sobre o que farei agora... como vou acordar todas as manhs... - Jan abraou a me e deixou-a chorar, 
desejando poder prometer que tudo ficaria bem, mas ela mesma tambm no podia imaginar sua me vivendo sem ele. Matt era a fora vital da famlia. Ele protegia Amanda 
do mundo, dizia a ela o que fazer em todas as circunstncias e, mesmo sendo apenas sete anos mais velho, de alguma forma fora como um pai para ela. - No vou conseguir 
viver sem ele - completou, e Jan sabia que esse sentimento era verdadeiro. Me e filha continuaram sentadas conversando sobre Matt por mais uma hora, quando finalmente 
Paul voltou para onde elas estavam. Lou fora embora sem se despedir, depois de comear a chorar ao ver as duas atravs da janela. Paul tinha coisas a fazer em casa. 
Eram quase seis horas e, mais cedo ou mais tarde, teriam que deixar Amanda, mesmo que isso fosse doloroso para ela. Tinha de comear a aprender a enfrentar a vida 
sozinha. 
      A figura de sua me, parada nos degraus da entrada da casa de Bel Air, vestida com aquele tailleur preto e acenando para eles enquanto se despediam, era to 
digna de pena que Jan irrompeu em lgrimas no instante em que dobravam a esquina. 
      - Meu Deus, Paul, ela vai morrer sem o papai. - Jan no conseguia parar de chorar ao pensar no pai que se fora, na irm que a odiava, na me que estava sofrendo 
tanto e no beb que temia nunca viria a nascer. A sensao era esmagadora. Paul segurou sua mo, enquanto se dirigiam para casa, e tentou consol-la. 
      - Logo ela estar bem. Voc vai ver. Olhe para ela. Ainda  jovem e bonita. Diabos, em seis meses, toda Los Angeles estar em sua porta, convidando-a para 
sair. Talvez at consiga voltar para o cinema. Ela ainda  jovem o suficiente para isto. 
      - Ela nunca o faria, mesmo que quisesse, porque sabe que era contra a vontade de papai. Ele a queria para si, e mame se submeteu  vontade dele porque o amava. 
- Paul no ousou dizer que, se isto fosse mesmo verdade, ento Matthew Kingston fora o cara mais egosta que j existiu na face da terra. Mas Paul no falou nada 
porque sabia que Jan o mataria. - Como  que se atreve a simplesmente sugerir que minha me sairia com algum? Isso  ultrajante. 
      - No  ultrajante, no - disse, calmamente. -  a verdade. Ela tem cinquenta anos, Jan. E foi seu pai quem morreu, no ela. Voc no pode estar esperando 
que ela fique sozinha pelo resto da vida - completou Paul com um sorriso no rosto, o que fez Jan olhar furiosa para ele. 
      -  claro que ela no vai sair com ningum. Pelo amor de Deus, ela no  como seu pai. Mame teve o casamento perfeito e amava papai. 
      - Ento  possvel que ela queira se casar de novo. Seria um crime se no o fizesse. 
      - No consigo acreditar no que acaba de dizer - falou Jan, quase perdendo o flego. Afastou a mo da dele e o encarou. - Voc realmente pensa que minha me 
vai sair com um homem? Voc  doente, e no tem respeito por nada. E, alm do mais, no conhece minha me. 
      - . Acho que no, amor - disse, delicadamente. - Mas conheo as pessoas. - Jan no disse mais uma palavra, e olhou pela janela do seu lado, furiosa com o 
que o marido dissera, enquanto continuavam a caminho de casa, em silncio. Jan teria jurado numa pilha de bblias que sua me seria fiel  memria do marido pelo 
resto da vida. 
      

      
      
     Captulo Dois
      
      Amanda Kingston levou as filhas para o Hotel Biltmore, em Santa Barbara, em junho. Paul estava em Nova York, trabalhando nos ltimos detalhes da negociao 
de um filme, e o marido de Louise, Jerry, estava numa conferncia que reunia alguns advogados em Denver. Aquela pareceu a oportunidade perfeita para passarem um 
tempo juntas. Mas assim que chegaram ao hotel e conseguiram finalmente sentar e conversar, as mais jovens perceberam o quanto a me estava mal. Ela ainda vestia 
preto constantemente, os cabelos ficavam presos para trs e no usava qualquer maquiagem, o que lhe dava uma aparncia ainda mais sria. E, quando Jan perguntou 
como estava indo, ela irrompeu em lgrimas e no conseguiu mais parar de chorar.
      Esta era uma daquelas raras ocasies em que as garotas colocavam de lado sua animosidade e se uniam na preocupao com a me. Enquanto Amanda ainda dormia, 
as duas desceram para o restaurante para tomar o caf da manh Juntas naquele domingo.
      - Ela deveria ir a um mdico. Est deprimida demais - disse Louise, que usava um pancake lils. - Ela me assusta. Talvez devesse estar tomando comprimidos 
de Prozac... ou Valium, ou algum outro desses.
      - Isso s iria piorar a situao. Ela precisa sair e encontrar os amigos. Estive com a Sra. Auberman na semana passada, que disse no ver mame desde o enterro. 
J faz cinco meses. Ela no pode simplesmente ficar sentada em casa chorando para sempre.
      - Talvez possa - disse Louise, olhando nos olhos da irm, tentando imaginar, como sempre fazia, se elas teriam qualquer coisa em comum. - Voc sabe,  o que 
papai gostaria que ela fizesse. Se ele tivesse tido tempo de deixar instrues para depois de sua morte, teria deixado ordens para que enterrssemos mame junto 
com ele.
      - Isto  um absurdo. - Jan olhou para a irm mais velha com uma expresso de fria. - Voc sabe como ele odiava ver mame triste!
      - E voc sabe como papai odiava quando ela tinha algum tipo de divertimento alm de assistir  nossa aula de bale ou de jogar bridge com as mulheres de seus 
amigos. Eu acho que, no fundo, ela pensa que isso era o que ele teria desejado. Que ficasse to arrasada quanto est. Acho que mame deveria ir a um psiquiatra - 
completou Louise, bruscamente.
      - Por que no a levamos numa viagem de frias? - Esta pareceu uma boa idia para Jan, que poderia facilmente tirar uns dias de folga l na galeria, mas Louise 
no via como deixar as crianas. - Talvez em setembro, quando as aulas recomearem. Ns poderamos lev-la a Paris.
      - Acho que ia ser uma boa - disse Louise, mas quando deram a idia a Amanda no almoo, esta negou de imediato com um movimento de cabea, dizendo que no podia.
      - No h qualquer possibilidade de eu viajar para longe agora - disse, com firmeza. - Ainda tenho muita coisa a organizar com relao ao inventrio de seu 
pai. No quero deixar que isto vire uma pendncia eterna em minha vida.
      - Mas todas ali sabiam que era apenas uma desculpa. Ela no queria mesmo voltar a frequentar o mundo dos vivos, no sem Matthew.
      - Deixe que os advogados cuidem disto, me - disse Lou, tentando ser prtica. - Isso  funo deles. Mudar um pouco de ares vai fazer bem a voc.
      Amanda hesitou por um longo momento, e ento balanou a cabea enquanto as lgrimas enchiam seus olhos mais uma vez, e foi honesta com elas.
      - No quero. Eu me sentiria culpada.
      - Culpada pelo qu? Por gastar algum dinheiro? Voc certamente pode pagar uma viagem a Paris. - Alis, muitas e muitas delas, como todas sabiam. Essa no era 
a questo. O problema verdadeiro era muito mais profundo.
      - Eu simplesmente no, eu no... eu sinto como se no tivesse o direito de fazer algo assim sem o Matthew... Que motivo eu teria para sair e pular de alegria? 
Para que devo aproveitar a vida? - Ela comeou a soluar, mas era preciso falar, e as meninas continuaram prestando ateno. - Por que ainda estou viva e ele no? 
 to injusto. Por que isto tinha de acontecer? - Ela sofria da sndrome da culpa dos sobreviventes, mas no deixara transparecer este sentimento para as filhas 
at hoje.
      - Aconteceu, me - disse Jan, com delicadeza. - Simplesmente aconteceu. No foi culpa sua, ou dele, ou de ningum. Foi apenas um terrvel azar, mas voc deve 
continuar vivendo... por si mesma... por ns... pense nisso. Se no quer ir a Paris, podemos ir a Nova York por alguns dias, ou a San Francisco. Mas voc tem de 
fazer alguma coisa. No pode simplesmente desistir da vida, me. Papai no gostaria que voc fizesse isto. - Mas era bvio, como puderam ver na conversa que tiveram 
a caminho de casa, que ela no estava Preparada para aquilo. Ainda se sentia to presa ao luto do marido que era difcil querer continuar vivendo, quanto mais Pensar 
em fazer qualquer coisa construtiva ou divertida.
      - Como est ela? - perguntou Paul ao voltar de Nova York, no domingo  noite. Jan foi busc-lo no aeroporto.
      - Completamente desinteressada da vida e muito deprimida. Lou acha que ela deveria tomar Prozac. No sei o que eu acho.  como se ela tivesse se enterrado 
junto com papai.
      - Talvez esta fosse a vontade dele. E acho que ela sabe disto.
      - Voc parece minha irm falando - disse Jan, olhando pela janela, e depois olhando de volta para ele. - H uma pergunta que quero lhe fazer. - Jan falou to 
solenemente que ele at sorriu. Estava feliz em v-la depois da viagem para Nova York. Sentira sua falta de verdade.
      - Claro. Voc quer que eu resolva o problema aproximando-a de papai? Sem problemas. Pode deixar comigo. Ele vai adorar. - Essa idia era to ultrajante que 
Jan at riu, mas, um minuto depois, seus olhos voltaram a ficar srios. O que quer que fosse, Paul podia sentir que devia ser algo importante para ela.
      - Estou pensando em outra coisa - disse ela, meio nervosa, sem ter muita certeza de como trazer o assunto  tona, mas desesperada para convenc-lo.
      - Fale logo, Jan. Estou esperando.
      - Quero ir ao mdico junto com voc. Ao especialista. J faz seis meses desde a ltima vez em que tocamos no assunto, e nada aconteceu. - Ela falava com certo 
cuidado e ao mesmo tempo com um ar aterrorizado, mas Paul foi tudo menos compreensivo.
      - Cristo! Isso de novo! Voc no desiste? Venho trabalhando no melhor contrato de um filme que j apareceu nos ltimos seis meses, e tudo em que voc pensa 
 engravidar. No me espanta que nada tenha acontecido, Jan. Passei mais tempo voando do que em casa. Como pode afirmar que temos algum problema fsico? - Para Jan, 
Paul estava apenas se esquivando. Dava sempre as mesmas desculpas, colocava a culpa em coisas at plausveis, mas a verdade  que eles haviam tentado mais vezes 
do que ele poderia admitir e ela no engravidara.
      - Eu s quero saber se h algo errado. Talvez ns dois sejamos saudveis, ou talvez o problema seja comigo. Quero saber, para que possamos lidar com isso. 
 s. Voc acha que  pedir demais? - Seus olhos se encheram de lgrimas, e ele suspirou, olhando para ela.
      - Por que voc no marca uma consulta com este especialista? E quando chegar l, provavelmente j estar grvida. - Mas ela j no tinha mais tanta certeza 
disso. J fazia mais de um ano e meio desde que comearam a tentar. At seu ginecologista comeou a ficar preocupado, e a fez prometer que iria explorar a fundo 
o problema. Ela no contou a Paul que tinha ido ao especialista sozinha h trs semanas, e que at agora ele no encontrara nada de errado com ela, o que significava 
que era a vez de Paul.
      - Voc ir tambm, depois que eu for?
      "Talvez" foi a nica palavra de compromisso que ele pde emitir. Depois disso, Paul ligou o rdio nas alturas, e Jan olhou tristemente pela janela. No parecia 
haver muitas esperanas para aquela situao, especialmente por causa da atitude dele.
      Em agosto, o especialista confirmara que no havia nada errado com ela, e que ou o esperma dele era incompatvel com os vulos dela de alguma forma, ou talvez 
o problema, se  que havia um, estava em seu marido. Quando Jan tocou novamente no assunto, Paul ficou furioso. Ele no gostava de se sentir pressionado. Aquele 
estava sendo um perodo ruim. Seu grande contrato ia por gua abaixo, e ele estava cansado de ter que marcar hora para fazer sexo e depois ter de aguentar a histeria 
de Jan duas semanas depois, quando ela descobria que no estava grvida.
      - Esquea isto por um tempo! - gritou ele, certa noite, quando Jan tentou convenc-lo a fazer amor porque estava no perodo frtil.
      Foi ento que decidiu sair para tomar um drinque com o pai. Jack estava namorando algum, uma actriz conhecida, o que o levava de volta s pginas dos jornais.
      Mais do que nunca, Jack desejava que o filho viesse trabalhar com ele, o que parecia estar absolutamente fora de questo. Paul sentia como se todas as pessoas 
em sua vida estivessem exigindo algo dele.
      Em setembro, Louise e Jan tentaram novamente falar com Amanda sobre a viagem, mas no obtiveram sucesso. Ela perdera sete quilos, estava magra demais, continuava 
deprimida e sem rumo na vida. Em dezembro, ambas as filhas entraram em pnico.
      - Temos que fazer alguma coisa - disse Jan ao telefone para Louise, certa tarde, duas semanas aps o Dia de Ao de Graas, que foi um desastre. Sua me chorara 
durante toda a refeio, e estava com uma aparncia to desoladora que aquilo comeava at a irritar as filhas. - No consigo mais aguentar esta situao.
      - Talvez devssemos deix-la sozinha - disse Louise, filosofando. - Talvez prefira viver desta maneira pelo resto da vida. Quem somos ns para decidir o contrrio?
      - Somos suas filhas, no podemos simplesmente deix-la vivendo deste jeito. Eu no deixarei.
      - Ento pense em alguma coisa. Ela no quer ouvir nada de mim. Nunca quis. Voc  a preferida. Vai todos os dias  casa dela e dissolve comprimidos em seu 
suco de laranja. Acho que ela tem o direito de viver do jeito que quiser.
      - Louise, pelo amor de Deus! Ela est morrendo - disse Jan, comeando a entrar em desespero. - Voc no consegue ver o que est acontecendo? Ela desistiu completamente 
da vida. Ela pode ter morrido junto com papai.
      - Eu no tenho todas as respostas, Jan. Ela  adulta, e no sou psiquiatra. E, francamente, j estou farta de v-la sentindo pena de si mesma. Odeio olhar 
para ela, odeio ouvir sua voz. Sua vida  pattica, mas ela adora. Est nadando em culpa porque est viva, e papai, no. Ento vamos deix-la de lado. Talvez, de 
alguma forma mrbida, ela esteja feliz.
      - No deixarei que afunde desta maneira - insistiu Jan.
      -  impossvel traz-la de volta  vida, Jan.  preciso ela querer, e no  o caso. Admita. Pelo menos uma vez na vida, ela est no controle, e talvez queira 
continuar vivendo assim. Pelo menos papai no est mais dizendo a ela o que fazer.
      - Voc fala como se ele fosse um monstro - reclamou Jan. 
      - s vezes era. Pelo menos comigo.
      Como sempre, as irms no concordavam em nada.
      Na semana anterior ao Natal, Paul e Jan receberam um convite de Jack para ir  festa de fim de ano na Julie's, mas Jan no andava muito animada para este tipo 
de coisa, pelo menos este ano. Paul ainda se recusava a ir ao especialista, o que fazia com que ela ficasse deprimida. Alm de cada vez mais preocupada com a me. 
Mas Paul argumentou que seu pai ficaria magoado se eles no fizessem um esforo de pelo menos dar uma passada na festa.
      - Por que voc no vai sem mim? - perguntou Jan, na manh do dia da festa. Ela no estava com a mnima vontade de ir. - Eu prometi a mame que iria visit-la 
esta tarde, e provavelmente me sentirei ainda pior depois de v-la. - Amanda estava escorregando directo para o fundo do poo, e isso estava levando Jan  loucura. 
Ela se sentia impotente por no conseguir tir-la deste estado.
      - Por que no convida sua me para ir com voc? - sugeriu Paul, de improviso, enquanto se arrumava para sair Para o trabalho. Jan olhou para ele profundamente 
irritada.
      - Voc no ouviu nada do que eu disse este ano inteiro? Ela est deprimida, perdendo peso, e no est saindo com ningum. Sua posio  sentada, esperando 
a hora da morte, ser que no entende? Voc acha realmente que ela iria a uma das festas de arromba do seu pai? Deve estar sonhando.
      - Talvez essa ida acabasse fazendo bem a ela. Pelo menos, convide-a. - Ele disse isto com um sorriso maroto, e Jan quis atirar alguma coisa em cima dele. Paul 
no conseguia entender.
      - Voc no conhece minha me.
      - S d a idia.
      - Eu poderia tambm pedir a ela que tirasse toda a roupa e sasse correndo nua pelas ruas de Bel Air.
      - Pelo menos os vizinhos iam adorar. - Mesmo deprimida, Amanda ainda continuava com uma aparncia espetacular. Paul tivera at a idia maluca de convid-la 
para participar de seu prximo filme, mas teve medo de pedir a opinio de Jan. Ele j sabia o que ela iria dizer. - Bom, diga que meu pai ficaria feliz se ela fosse. 
A presena dela traria um ar de respeitabilidade  loja - provocou Paul, dando um beijo de despedida em Jan, que, mesmo sem querer, deixou-se beijar. Ela estava 
extremamente chateada com o marido porque ele insistia em no querer marcar a consulta com o mdico, numa tentativa de descobrir o que os impedia de ter filhos. 
Jan j estava comeando a acreditar que jamais haveria uma criana em suas vidas. De certa forma, andava quase to deprimida quanto a me, apenas no demonstrava. 
Sentia-se to mal quanto ela na maior parte do dia.
      Mas, quando viu Amanda naquela tarde, seu corao se partiu em mil pedaos de tanta pena que sentiu. Ela estava mais magra, cansada e plida e parecia que 
no tinha mais qualquer motivo para continuar vivendo. Aos cinquenta, Amanda sentia como se sua vida tivesse acabado. Jan tentou de tudo, sugeriu de tudo um pouco, 
tentou persuadi-la, implorou, ameaou-a, disse que se ela no comeasse logo a juntar os pedaos e voltasse a agir como uma pessoa normal, ela e Louise viriam e 
ficariam com ela ou a arrastariam para fora de casa se fosse preciso.
      - Vocs duas tm coisas melhores para fazer com seu tempo do que ficar se preocupando comigo. Como est indo o novo filme de Paul? - Ela sempre mudava de assunto 
para outro completamente diferente. No fim da tarde, Jan estava to chateada que comeava a sentir raiva da me.
      - Sabe? Voc est conseguindo me deixar realmente com raiva. Voc tem tanto a agradecer... Uma boa vida, uma linda casa, duas filhas que a amam... E tudo o 
que faz  ficar sentada aqui, sentindo pena de si mesma e chorando por causa de papai. Voc no nos ama, me? Ser que no consegue parar de pensar em si mesma pelo 
menos por um momento? Ser que no est vendo o quanto estamos preocupadas? Cristo, isto  tudo em que venho pensando ultimamente. Nisto e no fato de que nunca terei 
filhos. - E, sem querer, Jan comeou a chorar. Sua me abraou-a e pediu desculpas pela dor e pela preocupao que estava causando a elas. As duas estavam chorando, 
mas pelo menos desta vez as coisas que Jan disse serviram como catarse, e Amanda pareceu recobrar ligeiramente as foras. - Voc nem usa mais maquiagem, me. No 
se veste bem. Seu cabelo est horrvel. - Aquele modo honesto de falar fez bem a Jan, e pela primeira vez Amanda riu por entre as lgrimas e olhou-se no espelho 
com olhar crtico. E o que viu no a agradou. O que ambas viam no espelho era uma mulher bonita, triste, plida e desarrumada. E, de repente, Jan decidiu tentar 
a ttica de Paul. Falou para a me sobre a festa de Jack na Julie's aquela noite.
      - Ir aonde?  loja? - Como Jan previra, Amanda ficou horrorizada com a sugesto. Isto  loucura.
      - Loucura  o que voc tem feito consigo mesma nesse ultimo ano. Vamos, me, faa isso por mim. Ponha um vestido qualquer e alguma maquiagem e iremos juntas. 
Isto deixaria Paul muito feliz.
      - Eu saio para jantar com vocs dois um dia desses. Ele vai gostar. Levo vocs ao Spago's.
      - Quero que voc saia comigo agora. Voc no precisa ficar muito tempo. Cinco minutos. Faa um esforo. Por mim... por Lou... por papai... ele no gostaria 
de ver voc assim, me. De verdade. - Ela quase prendeu a respirao ao olhar para a me. Estava absolutamente certa de que no haveria qualquer possibilidade de 
a me sair com ela, mas Amanda ficou pensativa, observando-a por alguns instantes, incerta.
      - Voc realmente acha que seu pai desejaria que eu fizesse isto? - perguntou ela e Jan fez que sim com a cabea. Era impressionante o quanto aquilo ainda significava 
para ela.
      - Acho, me. - Era mentira, mas ela quis que a me acreditasse naquilo. E ento, concordando lentamente com a cabea, Amanda deu meia-volta e foi em direco 
ao quarto, enquanto Jan a seguia, espantada. Nem ousou perguntar  me o que estava fazendo. Mas Amanda caminhara at o closet, e Jan pde ouvi-la mexendo nos vestidos 
e afastando os cabides. Foram necessrios cinco minutos para que ela reaparecesse, carregando um vestido preto.
      - O que voc acha deste? - perguntou, ao que Jan abriu os olhos, esbugalhados, no conseguindo acreditar que tinha conseguido. Finalmente conseguira desarmar 
a me e, de alguma forma, conseguira for-la a sair de casa e do luto do marido. Era mais do que surpreendente.
      - Acho um pouco fechado demais, voc no acha? - Ela seguiu a me de volta ao closet, temendo desencoraj-la de vez, mas o vestido era realmente deprimente. 
- O que acha deste? - Apontou para um vestido prpura que sabia que a me adorava, mas isso a fez lembrar de que o marido tambm o adorava, o que a fez dizer que 
no para Jan na mesma hora em que apontou para ele. Em vez disso, escolheu um vestido de l azul-marinho que sempre ficara apertado, mas que agora lhe caa perfeitamente 
bem, e ainda era mais jovial do que o primeiro. Era, de certa maneira, to distinto quanto ela. E, quando experimentou o vestido e se olhou no espelho, percebeu 
que estava com a mesma aparncia da estrela de cinema que um dia fora. Calou um par de sandlias de salto alto azul-marinho, colocou um par de brincos de safira 
e escovou o cabelo para trs, enrolando-o no coque fofo que fora sua marca em muitas das fotografias que tirou. Colocou to pouca maquiagem que Jan nem conseguia 
v-la. - E se voc colocasse um pouco mais de maquiagem? O que acha? - Amanda olhou para si mesma, se analisando, e concordou.
      - . Talvez um pouquinho mais. Tambm no quero ficar parecendo uma prostituta.
      - Acho que para isso seria preciso muito mais produo do que esta aqui, e acho que no teramos tempo suficiente para isso. - Jan sorriu satisfeita ao olhar 
para a me. Ela estava lindssima. Agora sim parecia a mulher que ela conhecera e amara por toda a vida, no o espantalho que se tornara neste ltimo ano, enquanto 
chorava pelo marido.
      - O que voc acha? - perguntou Amanda, meio nervosa. - Esta sou eu mesma ou a trapalhona que vinha tomando conta de mim? - Algumas lgrimas brilharam em seus 
olhos.
      -  voc mesma, me - respondeu Jan, tambm com lgrimas nos olhos, grata aos deuses que finalmente a convenceram. - Oh, Deus, eu amo voc - disse ao abra-la. 
Amanda assoou delicadamente o nariz num leno, retocou o batom mais uma vez com mos experientes, e ento colocou algumas coisas de que iria precisar em uma bolsa 
de mo azul-marinho. Ento olhou para a filha com admirao. Jan estava usando um vestido de l vermelho que amava e que usava todo Natal. Paradas lado a lado de 
vermelho e azul, as duas pareciam quase irms.
      - Voc  uma ptima garota, Jan, e eu amo voc - suspirou ela e as duas partiram em direco  porta da frente. Amanda ainda no podia acreditar que Jan conseguira 
convenc-la a fazer isto, mas agora estava determinada a ir. - Ns no vamos ficar muito tempo, vamos? - perguntou, ainda nervosa, ao pegar um casaco de pele que 
estava pendurado no closet perto da porta. Ela no o usava desde o funeral do marido, mas evitou pensar nisso agora. Estava fazendo aquilo pela filha. - No quero 
ficar mais do que cinco minutos.
      - Trago voc em casa a hora que quiser, me. Prometo.
      - Ento, tudo bem - disse, parecendo surpreendentemente jovem e vulnervel ao seguir Jan at a porta. Como se estivesse dizendo adeus a algum que no se encontrava 
ali, deu uma olhada por cima dos ombros durante alguns instantes, fez uma pausa, e ento fechou a porta calmamente atrs dela.
      

      
      
     Captulo Trs
      
      Os preparativos para a festa na Julie's comearam de manh bem cedo. Havia arranjos com flores nas portas e enfeites nas janelas. A loja foi fechada s quatro 
em ponto. Havia l dentro uma linda rvore de Natal, toda decorada em prata. Jack ficou encantado ao v-la.
      - Sei que elas no so mais politicamente corretas. Mas adorei. Esta em particular est uma beleza. - Jack deu uma olhada em volta e viu que a loja estava 
toda brilhando. Havia trs bares espalhados pelo local e muito champanhe francs gelando na cozinha. Ele contratara quatro msicos para tocar e manter o clima de 
festa, no necessariamente para danar. Estavam aguardando umas duzentas pessoas. Esta era uma de suas festas mais exclusivas, apenas para os clientes mais especiais 
e uma lista de celebridades que ele sabia que iriam; uns tipos que no costumavam participar em muitos acontecimentos assim, mas que sempre iam s festas de Jack. 
Todos o amavam, e tambm as festas na Julie's.
      - E a, Gladdie, o que voc est achando de tudo? - Perguntou Jack, dando mais uma olhada na loja pela ltima vez antes de ir se arrumar. Ele comprara um novo 
terno Armani para a ocasio.
      - Para mim, est tudo ptimo, Jack. Muito bom - disse ela, admirando todos os detalhes. Gladdie adorava as festas dele. Eram sempre o mximo.
      - Fique de olho em tudo por a. Vou subir e me trocar - disse e desapareceu elevador adentro. Quando voltou, vinte minutos depois, mais parecia um modelo de 
capa de revista. O terno era azul-escuro, nada formal, e o modo como o vestia fazia parecer um modelo masculino.
      - Muito bonito - disse Gladdie, num tom de voz abaixo do seu, quando ele voltou para o trreo. - Voc est maravilhoso. Tem alguma companhia para hoje  noite? 
- perguntou, com interesse. A ltima estrela passara em suas mos vrias semanas atrs, e ela sabia que atualmente ele estava cercando uma modelo muito conhecida.
      - Pelo menos uma dzia delas - riu. - Infelizmente, Starr foi a Paris hoje de manh. Mas fez com que eu convidasse sua irm.
      - Uma atitude muito generosa da parte dela... ou muito estpida... - comentou Gladdie, com um sorriso irnico.
      - Acho que ela tem um amigo em Paris - sorriu, sentindo-se de bem com a vida, e livre. Era assim que ele gostava que as coisas fossem.
      - As crianas vm  festa hoje? - perguntou Gladdie e pegou uma taa de champanhe assim que os primeiros convidados comearam a entrar pela porta. Elizabeth 
Taylor acabara de chegar, acompanhada por Michael Jackson. Barbara Streisand e um amigo vinham logo atrs.
      - Eles disseram que tentariam vir - respondeu Jack, de maneira casual, enquanto ia cumprimentar seus convidados. Meia hora depois, o lugar fervilhava. A msica 
gerava um ambiente festivo, as celebridades circulavam livremente, e do lado de fora os fotgrafos tentavam registrar alguma cena com suas cmeras. Jack jamais deixaria 
que entrassem no prdio. Ele queria que todos relaxassem e aproveitassem a festa, sem medo da imprensa, dos tablides ou das cmeras.
      Eram quase sete horas quando Jan e Amanda chegaram  Julie's. Jan entregou o carro para o manobrista e se encaminhou com a me para a porta de entrada. Ela 
ficara preocupada no caminho com a possibilidade de Amanda entrar em pnico de repente e mudar de idia. E os fotgrafos que voaram em cima delas em sua chegada 
quase conseguiram que isso acontecesse. Mas Jan empurrou-a para dentro da loja o mais rpido que pde. Assim que entrou, Amanda se sentiu sufocada e um pouco sobressaltada. 
Era tudo to deslumbrante, to festivo e to cheio. Havia rostos que podia reconhecer por toda parte. Duas das atrizes com as quais trabalhara anos atrs repentinamente 
correram at ela e a abraaram com fervor. Estavam obviamente encantadas em v-la e queriam saber tudo o que vinha fazendo. Ela conseguiu contar sobre Matt sem se 
abalar, e acrescentou que aquela era a primeira vez que saa desde a morte dele. E de uma distncia pequena, enquanto se dirigia at Julie, sua cunhada, Jan observava 
a me com orgulho.
      Do outro lado da sala, de onde conversava com um grande amigo, Jack olhou para elas, surpreso.
      - No acredito... - sussurrou, prendendo a respirao, e pediu licena para ir cumprimentar Jan. - Seria rude de minha parte dizer que eu estou impressionado? 
- murmurou para ela, olhando para Amanda. Jan riu ao responder.
      - No to impressionado quanto eu. Eu venho tentando tir-la de casa o ano todo. Esta  a primeira vez que mame sai desde a morte de papai, e provavelmente 
a primeira vez que ela vai a uma festa dessas desde que abandonou o cinema.
      - Sinto-me honrado - disse Jack, e parecia estar sendo sincero. Esperou pacientemente Amanda acabar sua conversa, e ento foi at ela e agradeceu sua vinda. 
- A Julie's nunca mais ser a mesma depois disso - sorriu para ela. - Voc finalmente nos deu a distino que sempre achei que merecamos, mas que jamais conseguiramos 
alcanar sem a sua presena. - Ele a estava provocando, mas s um pouquinho.
      - Duvido, Jack.  bom ver voc. A festa est linda. J encontrei velhos amigos por aqui.
      - Garanto que esto todos felizes em ver voc.  preciso que volte mais vezes. Faremos uma festa toda vez que quiser vir fazer compras. - Ele parecia estar 
de bom humor, e Amanda aceitou uma taa de champanhe de um garom que passava. Ao fazer esse movimento, Jack reparou que a mo dela tremia um pouco. Mas no havia 
qualquer outra indicao de que estivesse nervosa. Ela era extremamente bem-educada, e, ao contrrio de algumas de suas colegas de cinema, conseguia ser ao mesmo 
tempo bonita e distinta. - Voc est linda, Amanda - disse ele, torcendo para no ter soado muito ousado, mas era impossvel no admirar sua aparncia em qualquer 
lugar, mesmo num lugar repleto como esse. E no meio de vestidos de lantejoulas e cetim, sua roupa bem-cortada de l azul-marinho e seus brincos de safira faziam-na 
ficar ainda mais espetacular do que as outras. - Voc est indo bem? - perguntou ele, educadamente.
      Ela hesitou por um instante.
      - Mais ou menos - disse honestamente, com um sorriso triste. - Este ano tem sido bastante difcil. Olhando para trs, acho que tenho sorte em ter sobrevivido. 
- E ela estava sendo sincera.
      - J passei por isso uma vez - disse ele, pensativo, lembrando-se repentinamente de Dori. Era a segunda vez que Amanda o fazia se lembrar dela, mais devido 
s circunstncias do que qualquer semelhana fsica. Talvez a semelhana estivesse nos sentimentos.
      - Pensei que voc fosse divorciado - disse Amanda, confusa. Neste momento, as pessoas em todo o salo a reconheciam e apontavam discretamente para ela... olhe... 
ali...  Amanda Robbins... ser que ela est em algum filme?... no a vejo h anos... ela est fabulosa... voc acha que ela fez plstica?... a mesma ptima aparncia... 
A sala comeava a ecoar um burburinho, o qual Amanda ignorava solenemente. Ela era dona de uma presena e pose incrveis.
      - Eu sou divorciado - disse Jack, calmamente, explicando por que dissera aquilo. Em seu terno escuro, parado junto a ela, mais parecia seu acompanhante. - 
Mas uma amiga minha ntima morreu h treze anos. No foi o mesmo pelo que voc passou, mas foi muito ruim. Ela era uma pessoa muito especial.
      - Sinto muito - disse Amanda, gentilmente, com um olhar que o atingiu como uma flecha em chamas, acendendo algo que assustou-o assim que comeou a sentir. 
Por trs da fachada de gelo havia uma mulher poderosa, com um magnetismo fora do comum. Por incrvel que parea, depois de um ano agonizante, ela parecia mais viva 
aos seus olhos do que quando estava com Matthew. Mas antes que pudesse dizer qualquer outra coisa para ela, Jack foi chamado para resolver um problema de menor importncia 
com a lista de convidados. Duas estrelas de grande magnitude apareceram na porta, sem ter sido convidadas. Jack disse aos seguranas para deixar que elas entrassem, 
mas logo depois foi levado por algum outro motivo por Gladdie. Neste momento, Jan foi checar se estava tudo bem com a me.
      - Como vo as coisas, me? Tudo bem? - Ela rezava para que Amanda no quisesse ir embora logo. Jan achava uma boa que ela ficasse mais um pouco, e, alm do 
mais, a festa estava perfeita.
      - Estou ptima, querida. Obrigada por ter me trazido. No via algumas dessas pessoas h anos, e Jack est sendo muito gentil. - Esse comentrio era quase uma 
desculpa pelas coisas que dissera a seu respeito nos ltimos trs anos. Mas  que ele estava muito mais respeitvel agora do que antes, e bastante  vontade em seu 
prprio ambiente. Ela teria odiado admitir, mas estava quase comeando a gostar dele. - A que horas Paul vai chegar?
      - A qualquer momento, espero. Ele estava numa reunio.
      Pouco tempo depois, Gladdie avisou que havia uma chamada ao telefone para Jan. Era Paul. A reunio parecia que nunca mais ia acabar, mas ele prometeu que estaria 
l assim que terminasse.
      - Voc no vai adivinhar quem est aqui - disse ela, com a voz animada e maliciosa. Paul riu na mesma hora. Jan estava com um humor muito melhor do que vinha 
tendo h semanas e ele ficou feliz em ouvi-la. A tenso entre eles estava se tornando muito estressante.
      - Conhecendo meu pai como conheo, poderia ser qualquer um. Tom Cruise... Madonna...
      - Melhor do que isso - ela sorriu ao segurar o fone. - Amanda Robbins.
      - Voc conseguiu lev-la at a? Bom trabalho, garota. Estou orgulhoso de voc. Como est se saindo?
      - Ela conhece praticamente todos os que esto aqui, e est linda. Ela ajeitou o cabelo, colocou um pouco de maquiagem e, num passe de mgica, a estrela de 
cinema estava de volta. Eu queria ter a aparncia dela.
      - Voc tem os genes dela, amor. Nunca se esquea.
      - Eu amo voc - disse, sensibilizada pelo modo como Paul dissera aquilo, mesmo que estivesse apenas sendo gentil.
      - S no deixe meu pai se aproximar dela, j que est to maravilhosa. Esta  uma dor de cabea que no precisamos arrumar. Ela nunca mais falaria comigo, 
nem voc.
      - No acho que ela corra perigo - Jan riu do que Paul acabara de dizer. - Mas ele est sendo ptimo com ela. O lugar est lotado e seu pai anda bastante ocupado. 
Algumas celebridades chegam a todo momento querendo penetrar na festa.
      - Aposto que todas mulheres. Pobre papai. Elas provavelmente iro com-lo vivo e arrancar seu terno fora... a vida  dura com alguns de ns. Este  meu pai. 
Bom, querida estarei a o mais rpido que eu puder. Aguente firme. Ligarei ao sair do escritrio.
      - At logo, ento. - Esta fora a conversa mais tranquila e amigvel que os dois tiveram em semanas. Quando Jan procurou sua me novamente, viu que ela estava 
conversando com Jack mais uma vez, e decidiu deix-los sozinhos. No seria to ruim assim se eles fossem amigos, no final das contas, e parassem de reclamar um do 
outro.  distncia, enquanto conversavam, Jan pde ver que sua me estava rindo, e Jack parecia bastante interessado.
      Ele estava contando suas viagens  Europa para comprar tecidos. Disse o quanto detestava Milo e que preferia Paris. E os dois trocaram experincias vividas 
na Claridge's, em Londres. Eles pareciam grandes amigos.
      Jan saiu de onde estava e foi bater papo com algum conhecido, e mais uma hora se passou quando Paul ligou de novo, mas desta vez ele estava exausto. A reunio 
no sara como o esperado, e quando ele desceu para ir embora, descobriu que seu carro fora rebocado, e que no tinha como ir para a festa seno chamando um txi. 
Queria que Jan fosse busc-lo, e, em troca, prometeu que a levaria para jantar fora. Era realmente muito tarde para que tentasse chegar na festa.
      - Mas e quanto a mame? No posso simplesmente deix-la aqui - disse, preocupada.
      - Por que voc no pede a papai para coloc-la em um txi? Ele deve at ter uma limusine ou duas a seu servio a fora. Geralmente faz isso para grandes estrelas 
que precisam de uma carona para algum lugar. Pea a ele.
      - Est bem. Vou tentar. Mas se ela der um ataque, ligo para voc. Talvez tenha que lev-la em casa. Do contrrio, estarei a em dez minutos.
      - Venha logo - disse ele, com firmeza. - Tive uma tarde horrvel e quero ver voc. - Um jantar em algum restaurante tranquilo e fino pareceu uma boa idia 
para ela tambm. Jan comeou a torcer para que a me aceitasse a idia de Jack a colocar num txi ou numa limusine.
      Quando os encontrou novamente, ainda juntos num canto da sala, Jan explicou a situao e, por um instante, a me pareceu entrar em pnico. Mas Jack tomou a 
frente antes que Amanda pudesse dizer qualquer coisa  filha.
      - Paul est certo. Tenho dois carros  minha disposio a fora. Na hora em que sua me quiser ir, peo que um deles a leve. O que voc acha? - perguntou, 
virando-se para Amanda, que ainda estava assustada pelo facto de Jan a estar abandonando, mas ao mesmo tempo no querendo ser um estorvo para a filha.
      - Eu... est bem... Voc nem precisa se preocupar, Jack. Posso pegar um txi. Estou a um pulo de casa. Chamarei um txi.
      - No - disse ele, tranquilo, mas firme. - Voc vai de limusine. No  bom ficar rodando a esta hora de txi. - Amanda riu diante de tanta deciso e da demonstrao 
de cuidado, e concordou em ir de limusine. Na verdade, ela comeou a manifestar o desejo de ir embora, mas Jack ficou to desapontado que Amanda se constrangeu e 
concordou em ficar mais um pouco. Ela estava se divertindo de verdade. Matthew sempre odiara festas, e eles raramente iam a uma.
      Jan deu um beijo de despedida na me e foi pegar o carro para buscar Paul. Jack no deixou que nada faltasse para Amanda, providenciando para que ela estivesse 
sempre bebendo algo, que um prato de hors d'oeuvres estivesse sempre  sua disposio, que fosse apresentada a seus amigos e que se sentisse completamente  vontade 
na festa. Ela ficou chocada ao perceber que era uma das ltimas a sair, e j eram quase oito e meia.
      - Que vergonha... voc vai ter que me chutar porta afora para se ver livre de mim - disse ela, se desculpando, e estendeu a mo para cumpriment-lo, mas ele 
insistiu em lev-la pessoalmente at em casa na limusine.
      - No seja boba, Amanda. No  trabalho algum. Ns somos uma famlia. Alm disso,  ptimo ter a chance de jogar conversa fora depois de todos esses anos. 
Isso me dar um enorme prazer.
      No havia como convencer Jack a deixar Amanda ir sozinha para casa e, ao sair, ele passou todas as instrues necessrias para Gladdie. A festa tinha acabado 
e os amigos com os quais combinara sair para jantar j tinham ido embora sem ele. Jack se desculpara, dizendo que provavelmente iria encontr-los mais tarde, ou 
no, mas que no ficassem esperando porque poderia surgir algum outro programa. E ele no tinha nenhuma outra obrigao com ningum. Quando estavam dentro do carro, 
j na Rodeo Drive, ele perguntou casualmente se ela no gostaria de parar em algum lugar para comer alguma coisa, nem que fosse apenas um hambrguer ou uma salada. 
Seria uma ptima oportunidade de conversarem a respeito dos filhos. Ela hesitou, argumentando que devia realmente ir para casa, mas a verdade era que no havia ningum 
l que justificasse sua presena. E estava com um pouquinho de fome. Jack conseguiu convenc-la com o argumento certo. Ela estava preocupada com Jan e Paul ultimamente, 
e comeou a se perguntar se ele no teria notado tambm alguma tenso entre eles. Talvez esse fosse mesmo o motivo de ele querer jantar com ela. Assim deduziu, decidindo 
que seria uma boa idia, e aceitou o convite de bom grado.
      Jack deu instrues ao motorista para lev-los ao Ivy, na North Robertson. E, no restaurante, conhecendo-o como ningum, o maitre colocou-o numa mesa de canto, 
num local bem tranquilo. George Christy tambm estava l, com um grupo de amigos, e acenou quando viu Jack. Seus olhos se esbugalharam ao notar que ele estava acompanhado 
de Amanda Robbins.
      Pediram massa e salada e Jack puxou novamente assunto para preencher o vazio que se interpusera entre eles. Assim como ocorrera na loja, ele falou sobre uma 
grande variedade de coisas, pintura, arte, viagem, literatura, teatro. Ele era impressionantemente bem-informado e bom de papo, e ela percebeu logo que ele no era 
o homem metido a conquistador que pensava que fosse. Finalmente, quando a comida chegou, abordaram o assunto dos filhos.
      - Voc acha que eles esto bem? - Jack parecia preocupado, mas perfeitamente  vontade. A esta altura, eles seriam capazes de falar de qualquer assunto.
      - No sei - respondeu Amanda, honestamente. - Tenho estado preocupada com eles h algum tempo, mas acho que no fui de muita ajuda para Jan. Estive to trancada 
em mim mesma no ltimo ano, que me sinto como se tivesse pecado por omisso como me.
      - Isso no faz o menor sentido - disse ele, gentil. - Este foi o tempo de que precisou para si mesma. No se pode estar disponvel o tempo todo. Tenho certeza 
de que Jan entendeu sua postura. Ela  uma ptima garota... S espero que Paul a esteja tratando bem. Ela no parece muito feliz.
      Amanda suspirou, sem querer revelar uma confidncia, mas ansiosa por compartilhar o que sabia com o pai de Paul. Esta era a oportunidade perfeita para ajudar 
seus filhos.
      - Eu no gostaria de ter que revelar um segredo, Jack, mas acho que ela est muito chateada porque no consegue engravidar.
      - Achei que este deveria ser o problema - disse ele, olhando para Amanda, pensativo. - Ser que esto se esforando para conseguir? Paul nunca me fala nada.
      - Pelo que sei, j faz dois anos que eles tentam. Isto pode ser muito desgastante.
      - Ou pode significar muita diverso, dependendo do modo como voc encara a situao - completou, com irreverncia, e ela riu sem querer. Mas depois os dois 
voltaram a ficar srios.
      - No parece que eles estejam se divertindo, ainda que hoje ela parecesse melhor do que o que vinha transparecendo nestes ltimos tempos. Parecia uma adolescente 
quando saiu para buscar Paul.
      - Talvez estivesse apenas aliviada por ver voc se sentindo melhor - disse ele, sempre gentil, e Amanda concordou.
      - Talvez. Mas da ltima vez que soube algo sobre o assunto, ela j estava tentando convencer Paul a ir a um especialista h um ano, mas ele sempre se recusa.
      - Ento a coisa  sria. Essa  uma pssima notcia. Voc acha que h alguma possibilidade de ele ter ido se consultar com um especialista ultimamente?
      - Acho que no, mas sei que Jan foi.
      - E?
      - No sei de todos os detalhes - admitiu Amanda. - Mas sei que eles no esto conseguindo a gravidez. Pelo menos, acho que no.
      - Eles teriam nos contado se estivessem. Este  um problema angustiante. Eu andei provocando Paul uma vez ou outra... grande idiota que sou... e agora,  claro, 
percebo que no deveria ter brincado com isso. Ser que eu conseguiria puxar esse assunto com ele? - E se perdeu em seus prprios pensamentos.
      - Acho que ele se preocupa muito com seu trabalho - disse Amanda, sendo sincera. Paul tinha se tornado uma pessoa chegada nos ltimos trs anos, assim como 
Jan ficara amiga de Jack. Eram ptimas pessoas.
      - Paul se preocupa com tudo - disse Jack, franzindo o cenho. - Ele  esse tipo de pessoa.  por isso que  to bom no que faz, e vai ser um grande peso na 
indstria cinematogrfica um dia. Ao contrrio de seu pai, que produziu alguns dos piores filmes a que Hollywood jamais assistiu. Superados apenas plos filmes nos 
quais atuei. Sou muito melhor com vestidos femininos.
      - Tenho certeza de que est sendo modesto - riu Amanda, e ento disse a ele o quanto gostara da loja. -  linda, Jack. Tenho que voltar um dia  tarde para 
fazer compras. - Ela gostou do que vira l, e para sua surpresa gostara dele tambm. Ele era inteligente, interessante e uma ptima companhia. A noite passou como 
um raio. Quando saram do restaurante, Jack prometeu que falaria com Paul a respeito da ida ao especialista com Jan.
      - Ele provavelmente no vai gostar que eu me meta, mas vou tentar.
      - Eu ficaria extremamente grata se fizesse isto - disse ela, enquanto eles entravam na limusine.
      - Manterei voc informada sobre o que acontecer - prometeu. - Pense bem. Se dermos a cartada certa, poderemos ser avs nesta mesma poca, ano que vem. Eis 
algo em que ainda no havia pensado. Vou fazer sessenta anos logo aps o Natal. Seria muito ruim no adicionar mais netos  minha lista... para um homem como eu, 
isto poderia destruir completamente minha reputao. - Ela gostava do modo como Jack fazia graa daquilo, e no pde evitar rir com ele. Depois, num momento de seriedade, 
ele falou novamente de Dori, do quanto ela significara, e do facto de nunca ter desejado se envolver seriamente com ningum desde ento. -  muito doloroso - disse 
ele, honestamente. - No quero gostar de ningum desse jeito, exceto de meus filhos. Quando a mulher que est na minha vida vai embora, fao questo de acenar em 
despedida e esquec-la. No quero ficar chorando por dois anos e lembrando dela pelo resto da vida com tristeza. No tenho mais foras para isso.
      - Talvez a pessoa certa ainda no tenha aparecido novamente, Jack - disse ela, com ternura, pensando em Matthew. Ela tambm no podia se imaginar amando ningum 
de novo, e disse isso.
      - Com voc  diferente - disse ele, tentando ser do. - Voc foi casada por vinte e seis anos. No esteve ciscando aqui e ali como eu. Eu vinha apenas me divertindo, 
e isso  tudo o que quero. Voc deveria tentar viver com outra pessoa, se  o que deseja, depois de procurar por algum tempo. Faz tempo que voc no se distrai. 
Pode acabar gostando.
      - Duvido - disse, honestamente. - No consigo me imaginar marcando encontros de novo, Jack. No depois desses anos todos. Minha hora j passou.
      - Nunca se sabe o que pode acontecer na vida, ou quem pode aparecer. De alguma forma, a vida nos d presentes quando menos esperamos, ou um bom chute na bunda. 
Tanto faz. Mas nunca  como voc espera que seja.
      Ela concordou, sorrindo ao ouvir o que ele acabara de dizer. Havia um pouco de verdade naquilo. Ento, ela olhou para Jack e lhe fez uma pergunta.
      - Como era a me de Paul? - Ela lhe fora apresentada rapidamente no casamento, o que no fora o suficiente para conhec-la de facto. Havia tantas coisas a 
organizar, tantos convidados, tantos detalhes importantes.
      - Barbara? - Ele pareceu ficar surpreso com a pergunta. - Ela era um monstro. Na verdade, ela foi a pessoa que me curou da doena de querer casar. E tenho 
certeza de que diria a mesma coisa de mim, se voc perguntasse isso a ela. Excepto,  claro, pelo facto de ter sido estpida o suficiente para se casar de novo. 
Mal consigo me lembrar de ter sido casado com ela, felizmente. Ela me deixou h dezenove anos. Ano que vem, estou planejando uma festa para comemorar o vigsimo 
aniversrio de minha independncia. - Os dois comearam a rir com o comentrio de Jack.
      - Jack Watson, voc  terrvel e irreverente. Tenho certeza de que, se a mulher certa aparecesse, voc se casaria com ela no mesmo instante. S que anda muito 
ocupado caando estrelas e modelos para poder encontr-la.
      - Como sabe? - perguntou, fingindo inocncia, sem seguir enganar a ningum, muito menos Amanda. 
      - Eu leio os jornais - disse ela, presunosa, e ele fez o chame parecer envergonhado por um instante.
      - Bem, mesmo que isso seja verdade, posso assegurar que se eu conhecer a Senhora ou a Senhorita Perfeita, procurarei o prdio mais alto e me lanarei ao solo 
imediatamente. Aprendi minha lio. Estou sendo honesto com voc, Amanda. Eu no conseguiria.
      -  como me sinto agora, ainda que por motivos diferentes. Mas, felizmente, este no  um problema que eu tenha que encarar pelo menos por ora - disse ela, 
suspirando longamente. Seguiram at  porta da casa de Amanda, e ela se virou para agradecer-lhe. - Adorei a noite, Jack, Obrigada por tomar conta de mim to bem 
e por me levar para jantar e conversar sobre as crianas. - Ele ficou meio surpreso ao ouvir aquilo. Ento sorriu e concordou.
      - Ligarei para voc para contar o que Paul disser - reiterou e ela agradeceu mais uma vez. Abriu a porta, entrou e fechou-a atrs de si. Pde ouvir a limusine 
indo embora enquanto acendia a luz, e ficou surpresa ao perceber como estava errada a respeito dele. Claro que ele era mulherengo, mas isso no era nenhum segredo, 
s que havia muito mais nele do que isso. Havia algo peculiarmente cativante em Jack, como um jovem rebelde, mas com uma expresso no olhar que fazia voc querer 
abra-lo.
      Por um instante, Amanda quase precisou fazer com que sinos de alerta soassem em sua cabea. Homens como Jack eram perigosos, at mesmo para uma viva de cinquenta 
anos. Mas, ao mesmo tempo, ela sabia que no havia nada a temer. Ele tinha sua cota de mulheres, e tudo o que tinham em comum era suas crianas.
      Mas, quando Jack pegou a Rodeo Drive de volta, para ver se a loja tinha sido fechada direito, resolveu entrar e se sentar um pouco. E, ao recostar-se numa 
poltrona, fechou os olhos e tudo o que pde ver em sua mente era Amanda.
      

      
      
     Captulo Quatro
      
      Amanda no teve notcias de Jan durante alguns dias. Jack ligou uma semana depois da festa, dizendo que tinha algo a lhe contar, e convidou-a a ir at a loja 
para que almoassem em seu escritrio. Ela aceitou sem hesitar. Sabia muito bem que o nico motivo para o convite era para falar de suas crianas.
      Ele estava esperando no trreo quando Amanda chegou. Os dois subiram para o escritrio de Jack, onde o almoo fora servido num estilo formal, com toalha e 
guardanapos colocados na mesa de reunio. Eles foram deixados sozinhos, e comeram a salada de lagosta, o caviar e beberam o champanhe. O almoo foi perfeito.
      - Voc faz isso todo dia? - perguntou ela, provocando-o. Ele respondeu que s fazia aquilo quando queria impressionar algum. - Considere-me devidamente impressionada, 
porque  como estou. Eu almoo iogurte praticamente todo dia.
      - Bem, parece funcionar. Voc tem um corpo incrvel, Amanda. - Ela enrubesceu por causa do comentrio, e eles mudaram de assunto e passaram a falar dos filhos. 
Ele contou que almoara com Paul e que tocara no assunto de maneira casual, o mais casual que algum, tocando num assunto como aquele, poderia ser. Jack perguntara 
por que os dois no faziam algo para ter filhos, e contou que o filho fora bastante honesto, dizendo quase a mesma coisa que Amanda j dissera. Ele tambm admitira 
que no queria mesmo ir ao mdico. Paul achava a situao embaraosa e sentia como se sua masculinidade e virilidade estivessem sendo questionadas. Mas, aps uma 
longa conversa com o pai, finalmente concordou em fazer algo a respeito, mesmo sem querer. Ele prometeu ir ao mdico com Jan logo depois do Natal. Aparentemente, 
o mdico estaria de frias at ento.
      - Ento, poderamos dizer, nossa misso foi cumprida, Pelo menos o primeiro estgio dela. A Operao Neto est em seu estgio inicial.
      Amanda estava impressionada com o bom resultado da investida de Jack e com o facto de ele ter se preocupado tanto a ponto de levar aquilo tudo adiante. Ela 
se recostou na cadeira e sorriu para ele, estupefata.
      - Jack Watson, voc  mesmo incrvel. No consigo acreditar. A pobre da Jan implorou o ano inteiro para que Paul fosse ao mdico com ela e no conseguiu nada.
      - Acho que ele tem medo de mim. Disse que iria deserd-lo se no fosse ao mdico. - Jack sorriu para ela, satisfeito com sua reao. Era bvio que estava agradecida 
pelo que ele fizera.
      - Falando srio, Jack. Obrigada. Minha pequena Jan quer tanto um filho...
      - O que voc acha que vai acontecer se eles forem estries? - Ele pareceu bastante preocupado ao fazer esta pergunta, e Amanda reagiu demonstrando certa intranquilidade, 
j que Jan lhe contara que Paul era contra a adoo.
      - Acho que eles vo ter de aprender a conviver com isso aos poucos. H sempre a possibilidade de adoo se a gravidez no der certo, mas  difcil acreditar 
que, numa poca to avanada, com tantos mtodos desenvolvidos para resolver os problemas relacionados com a infertilidade, no haja um mtodo apropriado para o 
caso deles. Tenho certeza de que tudo vai dar certo,  s eles terem pacincia.
      - Hoje em dia  tudo to complicado... Na minha poca, se voc fosse um cara de sorte, perderia seis meses para levar alguma garota para o banco de trs do 
carro do seu pai no meio de um filme no drive-in. E ela engravidava s de voc apertar sua mo. Agora, todo mundo faz tratamento para infertilidade e tem filhos 
numa placa de Petri. Com certeza isso tira toda a graa do namoro. - Amanda no conseguiu conter o riso depois de ouvir o que ele acabara de dizer. Era verdade que, 
mesmo em seu casamento com Matt, ela frequentemente se preocupava com a possibilidade de engravidar. Ela apenas esperava que Paul e Jan dessem sorte e conseguissem 
ter um filho. - Continuarei mantendo voc informada se ouvir algo mais - prometeu Jack.
      - Eu tambm - assegurou ela. Ento ele se ofereceu para acompanhar Amanda pela loja, que no resistiu e experimentou algumas roupas. Finalmente, Jack a deixou 
em companhia da gerente da loja e das melhores vendedoras disponveis. Duas horas depois, Amanda apareceu em seu escritrio para agradecer mais uma vez.
      - Voc se divertiu? - perguntou a ela, depois que entrou no escritrio e parou diante de sua mesa. Ela estava feliz e relaxada, e parecia que tinha passado 
bons momentos na Julie's.
      - Eu enlouqueci e comprei tudo o que vi pela frente, incluindo meia dzia de mais para o prximo vero da sua linha de praia. - Tambm comprara vrias camisolas, 
um vestido novo, e uma sensacional bolsa de mo feita de couro Jacar. - Comprei tudo o que estava ao alcance dos meus olhos - disse mais uma vez, com certo embarao. 
- Nunca fui to extravagante assim em toda minha vida, mas tenho que admitir que adorei. - Riu ao confessar, e ele se pegou admirando sua beleza e imaginando como 
faria para lev-la para jantar.
      - Voc gosta de comida tailandesa? - perguntou Jack pegando-a de surpresa.
      - Por qu? Voc vende isso tambm? Ser que pulei esse departamento? Uma delicatessen? - Ela estava rindo dele, o que fez com que sua aparncia ficasse ainda 
mais sensual, jovem e alegre do que antes.
      - Na verdade, sim. Mostrarei a voc onde fica - disse, tentando ser convincente. - Mas teremos que ir para nossa outra loja, e voc ter que vir em meu carro.
      - Que pssimo mentiroso voc , Jack Watson. A verdade  que est tentando me raptar e exigir resgate, sei disso.
      - Boa idia - disse, rindo dela. - Quais so as minhas chances?
      - Agora? Hoje  noite? - J eram quase cinco e meia, mas a loja ficaria aberta at s nove para que os clientes pudessem fazer as compras de Natal. - Voc 
j me deu almoo hoje, no ser preciso me alimentar  noite tambm. Tenho outra idia. Por que voc no vai at l em casa mais tarde, e eu fao o jantar para voc? 
Nada sofisticado, apenas o que eu achar na geladeira. Eu lhe devo uma, uma bem grande, por ter conseguido convencer Paul a ir ao mdico.
      - Adorei a idia. - Ele aceitou o convite imediatamente e prometeu chegar l s sete horas para poder ajud-la. E to logo Amanda foi embora, Jack pegou o 
telefone e cancelou o encontro que marcara semanas antes para aquela noite. Ele deu a desculpa de que estava gripado e a garota para quem ligou apenas riu. Ela no 
dava a mnima, mas conhecia Jack melhor do que ele suspeitava.
      - Qual  o nome dela? - A garota no resistiu a uma pequena provocao.
      - Por que acha que existe outra mulher?
       - Porque voc no  gay e porque provavelmente no desde os dois anos de idade. E me parece ptimo, boa sorte com quem quer que seja. - De qualquer forma, 
ela tambm estava saindo com outra pessoa. Jack ficou grato por ela ter sido to compreensiva.
      Chegou  porta da casa de Amanda exactamente s sete horas. Ela usava calas compridas cinza com um suter azul-claro e um colar de prolas. Parecia uma jovem 
rainha, mas com um avental amarrado na cintura.
      - Uma cena bastante domstica - comentou ele ao entrar e dar para ela uma garrafa de um vinho famoso que comprara para a ocasio.
      Amanda riu diante daquele comentrio.
      - Espero que sim, depois de vinte e seis anos de casamento.
      - Sabe... Eu nunca havia pensado em voc assim. Quero dizer, domstica - confessou Jack e seguiu-a at a cozinha enquanto ela agradecia pelo vinho. Era um 
excelente vinho, de ptima safra. - Sempre pensei em voc como uma estrela de cinema.  difcil esquecer quem voc foi um dia.  que continua a mesma. De facto, 
na minha cabea, sempre vejo voc como Amanda Robbins, no como Amanda Kingston.
      - Matt odiava esta frase - disse, simplesmente. - Muitas pessoas gostavam de dizer isso.
      - Foi por isso que voc nunca voltou a atuar? - Ele estava curioso a seu respeito.
      - Provavelmente. De qualquer maneira, Matt no teria permitido que eu voltasse. Conversamos muito a respeito antes de nos casarmos. Mas eu estava pronta para 
desistir de tudo... por algo melhor... um homem que eu amasse e uma famlia.
      - E foi melhor? Voc foi feliz? - perguntou ele, enquanto a observava.
      - Eu amava ficar com minhas filhas, e com Matt. Levvamos uma vida boa. - Ela pareceu pensativa naquele momento, enquanto se perdia em suas lembranas. -  
duro acreditar que tudo acabou. Tudo desmoronou to rpido. Num minuto ele estava saindo de casa com sua raquete de tnis na mo, e no minuto seguinte estava morto, 
nas duas horas depois.  difcil se acostumar a isso.
      Jack fez um gesto com a cabea.
      - Parece uma coisa boba de se dizer, mas pelo menos ele no sofreu.
      - Pode at ser verdade, mas ns sofremos. Eu no estava preparada. Ele parecia to jovem. Nunca sequer havamos conversado sobre o que aconteceria se um de 
ns morresse. No tivemos tempo de pensar nisso, nem de dizer adeus, nem... - Seus olhos se encheram de lgrimas. Amanda deu as costas para Jack, que se postou rapidamente 
atrs dela e colocou as mos em seus ombros.
      - Est tudo bem... Eu sei... foi isso o que aconteceu comigo e com a Dori. Ela sofreu um acidente de carro quando ia me encontrar. Bateu de frente. Ela jamais 
soube o que a atingiu. Mas eu soube. Sentia como se aquele maldito caminho tivesse batido em mim. Por um bom tempo, desejei que tivesse acontecido. Queria que fosse 
eu naquele carro, no ela... Senti tanta culpa.
      - Eu tambm - disse Amanda e virou-se para fitar Jack. Os olhos dele estavam cheios de ternura. Eram de um castanho vivo e contrastavam com seus cabelos louros 
salpicados por fios grisalhos. Ele era surpreendentemente bonito. - Durante o ltimo ano, desejei ter morrido no lugar de Matt. Mas nas duas ltimas semanas, percebi 
que fui feliz em ter sobrevivido. Estou voltando a ter um relacionamento normal com minhas filhas e fazendo certas coisas.  engraado como quando algo muda s um 
pouquinho, mesmo assim faz tanta diferena. - Ele concordou e amarrou um avental na cintura, que passou a proteger a cala, o suter de gola alta que estava usando.
      - Bom. Chega dessa conversa sria, madame. O que temos para o jantar? Voc quer que eu corte, rale ou amasse? Ou prefere me ver ficar bbado na sua cozinha? 
Posso fazer qualquer coisa. - Ela riu e lanou-lhe um olhar de admirao. Era to fcil conviver com ele.
      - Por que no senta e relaxa? Est quase tudo pronto. - Amanda colocou um pouco de vinho para Jack, arrumou algumas coisas na cozinha e, meia hora depois, 
comeram carne, batatas coradas e salada. Ela era uma grande cozinheira. Conversaram durante horas, sentados  mesa da cozinha. Depois, passaram  sala de estar e 
ele pde admirar algumas fotos. Formavam uma famlia bonita, ainda que sempre tenha achado Matt meio desajeitado, mas Amanda estava linda em todas as fotos.
      -  uma pena que voc e suas filhas sejam to feias.
      - Os seus filhos so to bonitos quanto as minhas filhas - ela retrucou e ele riu.
      - Acontece que somos pessoas extremamente atraentes. Todos em Los Angeles o so. Os feios so mandados para outros estados, ou para outras cidades, ou so 
jogados para o lado de l da fronteira na calada da noite. Eles so agrupados e eliminados, e nunca mais ningum os v novamente... puff... nada de pessoas feias 
por aqui. - Ele adorava fazer piadas para ela, e provoc-la. Era fcil perceber por que fazia tanto sucesso com as mulheres.
      - Voc no se cansa? - perguntou ela honestamente, enquanto se sentavam. Era impressionante a sensao e ela podia perguntar o que quisesse a ele. Eles agora 
eram amigos. - Quero dizer, todas essas mulheres. Eu acharia muito cansativo ficar com estranhos o tempo todo. No consigo nem imaginar como lidar com isso, comear 
tudo de novo, todo dia, fazer todas aquelas mesmas perguntas idiotas...
      - Pare! - Ele levantou a mo e murmurou: - Voc vai destruindo meu estilo de vida. Se fizer com que eu questione a vida que levo, talvez no consiga achar 
sentido para ela. Esse  apenas um jeito de nunca me envolver com algum.  tudo.  disso que preciso desde Dori.
      - Eu prefiro ver TV, ou ler um livro - disse Amanda com franqueza e ele riu.
      - Bem, na verdade... essa deve ser a essncia da diferena entre homens e mulheres. Mas se voc me forar pensar nisso com seriedade, vou acabar tendo de comprar 
uma nova TV amanh de manh.
      - Voc no tem jeito.
      - No tenho mesmo. Antigamente isso fazia parte de meu charme, mas estou vendo que agora est se tornando um defeito. Talvez fosse melhor no falarmos mais 
disso.
      E conversaram sobre outras coisas. Suas famlias na poca em que eram jovens, seus sonhos, ambies, carreiras, e, mais uma vez, os filhos. E a noite voou 
novamente. Era mais de meia-noite quando ele foi embora. E no eram nem nove horas da manh quando ligou para agradecer pelo jantar. Ela ainda estava dormindo.
      - Acordei voc? - Ele ficou surpreso. Ela parecia uma dessas pessoas que acordam cedo, e esse era o seu normal, mas acabara ficando acordada at tarde na noite 
anterior, tentando ler, e pensando nele.
      - No. De jeito nenhum. Eu j estava de p - mentiu, olhando para o relgio e tomando um susto com a hora. Ela tinha uma consulta marcada no dentista para 
fazer uma limpeza, e j estava atrasada.
      - Voc est mentindo - disse ele, dando uma risada ao final da frase. - Est com voz de sono. Eu a acordei. A vida de uma rica preguiosa. Estou trabalhando 
desde as oito e meia. - Ele tinha uma srie de ligaes para fazer para a Europa, onde eram nove horas mais tarde. Mas como Amanda no saa de sua cabea, decidiu 
ligar para ela seguindo o mpeto do momento. E agora, ouvindo sua voz, ele ficara inesperadamente nervoso. - O que voc acha de jantarmos hoje  noite? - perguntou, 
sem prembulos, e os olhos dela se abriram totalmente, tentando entender se ouvira direito.
      - Hoje  noite? - Ela disse que no tinha nada planejado ainda que tivesse sido convidada para uma festa de fim de ano. - Eu... voc no vai se cansar de mim?
      - No acho que isso seja possvel, e temos um monte de assuntos para pr em dia, no temos?
      - Como o qu, por exemplo? - Ela deitou e se espreguiou, lembrando exactamente das feies dele.
      - Nossas vidas. Somando, so cento e dez anos, o que levaria algum tempo para colocarmos em dia, mas acho que deveramos comear logo, ainda que tenhamos feito 
um grande avano ontem  noite.
      -  essa a sua ttica? - ela sorriu. - Todo esse charme? Cento e dez anos... que maneira de ver as coisas. Bem, est certo. J que  assim, melhor comearmos 
logo mesmo. O que tem em mente?
      - Que tal um jantar no L'Orangerie? Pego voc s sete e meia.
      - ptimo. Estarei pronta  sua espera. - Mas, assim que desligou, Amanda entrou em pnico. Sentou-se na cama e olhou para o quarto que dividira por 26 anos 
com seu marido. O que, em nome de Deus, ela estava fazendo? Estava brincando de "a garota do momento" com Jack Watson? Como era estpida. Levantou-se da cama e decidiu 
ligar para ele e cancelar. Mas, assim que conseguiu ligar, Gladdie disse que ele acabara de sair para uma reunio. Perguntou se gostaria de deixar algum recado, 
mas Amanda achou que seria rude de sua parte deixar uma mensagem cancelando o Jantar. Ento disse que no se tratava de nada importante.
      De qualquer forma, Jack ligou para ela ao meio-dia. Quando atendeu, Amanda notou que ele parecia preocupado.
      - Alguma coisa errada? Voc est bem? - Ele realmente soou como se se importasse, o que tornava as coisas mais difceis.
      - Eu estou bem... Apenas pensei... ah, no sei, Jack, S estava me sentindo meio estpida. No quero ser a "bola da vez". Sou uma mulher casada, ou pelo menos 
era... ou ainda sou... na minha cabea. No sei que diabos estou fazendo com voc, ou que tipo de jogo estou brincando aqui. No consigo nem tirar minha aliana 
de casamento, e agora estou jantando com voc todas as noites, sem saber exactamente o que est acontecendo. - Ela parecia, e realmente se sentia, exausta, quando 
terminou de falar. Depois disso, ele falou calmamente, ainda que no fundo no estivesse to calmo assim.
      - Tambm no sei at onde vamos com isso. E, se voc se sentir melhor, eu compro uma aliana tambm. Pelo menos ficaremos quites. As pessoas vo pensar que 
estamos traindo nossos cnjuges. S sei que h muito tempo eu no gosto de uma companhia assim como a sua. Talvez nunca tenha gostado tanto. E digo mais. De repente, 
a vida que eu vinha levando h vinte anos parece uma piada de mau gosto daquelas que saem na ltima pgina da Playboy. Estou envergonhado. Quero me livrar dessa 
vida. E, Deus me ajude, mas quero ser o tipo de pessoa com a qual voc fica orgulhosa de ser vista, porque estou to orgulhoso de estar com voc que parece que vou 
explodir.
      - Mas no estou pronta para um relacionamento - disse ela, tristemente. - No quero comear a namorar. S faz um ano que perdi Matt, e no sei o que estou 
fazendo, mas adoro conversar com voc tambm... e no quero parar, mas talvez ns devssemos. Voc acha que devemos cancelar o jantar de hoje  noite? Acha que estamos 
agindo da maneira errada? - Ela parecia to preocupada que Jack teve vontade de abra-la.
      - Tudo vai ficar bem - disse ele, gentilmente. - No faremos nada que voc no queira. Vamos apenas falar de nossos filhos e relaxar. No precisa ser mais 
do que isso, pelo menos agora... ou talvez para sempre. - Custou tanto dizer aquilo, mas ele no queria assust-la, ou, pior, perd-la antes mesmo de t-la conquistado. 
Repentinamente, aquilo tudo significava muito para ele. Ento, ele teve outra idia. - Talvez devssemos ir a algum lugar menos pblico para jantar... - L'Orangerie 
era um dos melhores restaurantes de Los Angeles, e com certeza seriam vistos e identificados l. - Que tal um pequeno bistr, ou mesmo uma pizzaria?
      - ptima idia, Jack. E sinto muito por eu ser to neurtica. Eu s no esperava por essa, de sermos amigos, ou o que quer que sejamos... - Ela deu uma risada 
nervosa e ele tentou confort-la.
      - Pego voc. Pode usar jeans, se quiser.
      - ptimo. - Ela seguiu o conselho  risca. Quando Jack chegou, ela vestia jeans desbotados e justos naquele corpo espetacular e um suter confortvel de l 
rosa-choque. Ele ficou morrendo de vontade de dizer o quanto ela estava bonita, mas no quis amedront-la.
      Foram at La Cienega e pararam num pequeno restaurante que ela nunca vira antes. Estavam conversando animadamente enquanto entravam no lugar quando, de repente, 
ela apertou o brao dele, e virou de costas com um olhar de terror.
      - O que foi? - Se Amanda fosse casada, Jack teria imaginado que ela acabara de ver o marido no canto, com outra mulher. Tudo o que podia ver era um casal jantando, 
mas ela j estava l fora, e seu corao estava pulando. - Quem era?
      - Minha filha Louise com o marido, Jerry.
      - Deus do cu. Tudo bem. No nos  permitido jantar? Ns dois estamos vestidos. - Ele tentou amenizar a Situao, mas ela parecia querer sair correndo, e ele 
no queria que isso acontecesse. Voltaram para o carro e conversaram um pouco mais, j que estavam a salvo ali dentro. 
      - Ela jamais entenderia.
      - Pelo amor de Deus, Amanda. Ela j  adulta. O que suas filhas esperam? Que voc fique em casa pelo resto da vida? Sou o sogro de Jan. Sou inofensivo. - Ele 
tentou fazer cara de inocente, e Amanda acabou rindo dele.
      - Voc  tudo menos inofensivo, e sabe disso. E minhas filhas pensam que voc  um conquistador inveterado. 
      - Isso  ptimo. S espero que Jan no pense que... bem, pensando bem, talvez ela pense. Acho que, durante um tempo, eu fui assim. Mas h sempre a possibilidade 
de recuperao. Ser que isso  atenuante?
      - No. E, principalmente, no hoje  noite. Talvez devesse ir para casa.
      - Decidi. Vamos ao Johnny Rocket. - Ela riu da sugesto. Este era o lugar que as crianas frequentavam, bebendo milkshake, comendo hambrguer, tal qual eles 
mesmos faziam nos anos cinquenta.
      Quando chegaram, sentaram ao balco, comeram cachorro-quente e batata frita e beberam milkshake. E Amanda conseguiu at rir de si mesma, antes de pedirem um 
caf.
      - Fiquei parecendo uma completa idiota fugindo de l no fiquei? - Ela estava agindo que nem uma criana que acabara de cometer uma enorme gafe e que no acreditava 
no que tinha feito, mas Jack adorava tudo nela.
      - No. Voc parecia uma mulher casada no meio de um encontro amoroso e que acabara de ver o marido.
      - Foi assim que me senti - confessou com um suspiro e ento olhou para ele. - Jack, no estou pronta para isso. Sinceramente. No estou mesmo. Acho que voc 
deveria voltar  sua rotina novamente. Estar melhor com elas acredite em mim.
      - Acho que voc deve deixar que eu decida. - E ento, mudando de assunto, ele perguntou o que ela faria na semana seguinte para o Natal.
      - As meninas iro  minha casa na vspera de Natal, assim como acontece todos os anos. E, neste ano, iremos  casa de Louise no dia de Natal. Por qu? O que 
voc vai fazer? 
      - Dormir, como sempre... No h nada mais extico do que isso. Natal no mundo do varejo  um pesadelo. Ficamos abertos at  meia-noite na vspera de Natal 
para atender os clientes que no tm tempo de fazer suas compras at s nove, a maioria deles maridos.  como se eles perdessem suas agendas todo ano e descobrissem 
s seis da tarde que  vspera de Natal... Oh, meu Deus.  Natal! Geralmente fico at o final e vou para casa e durmo por dois dias inteiros. Isso me faz bem, mas 
eu estava pensando se voc no gostaria de ir esquiar comigo no dia seguinte. Voc sabe, quartos separados, apenas bons amigos, todo esse papo.
      - No acho que devo. E se algum me vir? Ainda no faz um ano exactamente.
      - Quando  que completa um ano? - Ele no conseguia lembrar, honestamente.
      - No dia quatro de janeiro - disse ela, solene. - Alm do mais, no sei esquiar muito bem.
      - Foi s uma idia. Achei que pegar um pouco de ar fresco e fugir um pouco fariam bem a voc. Poderamos ir a Lake Tahoe ou parar em San Francisco.
      - Talvez um dia - disse ela, vagamente, e ele concordou. Estava comeando a pression-la e sabia disso. Ela ainda no estava preparada.
      - No se preocupe. Por que no passa na loja um dia desses? Estarei l durante toda a semana. Podemos comer caviar em meu escritrio. - Ela sorriu com a sugesto. 
Apesar de sua reputao, e do facto de ela no estar pronta, gostava muito dele. Ele parecia entender tudo o que ela estava sentindo. Havia um lado sensvel e atencioso 
nele que pegou-a de surpresa e desarmou-a completamente. E ele parecia to mais novo do que Matt, to cheio de vida, to feliz em estar com ela. Por mais que no 
quisesse sentir nada por ele, percebeu que amava sua companhia.
      Falaram sobre isso aquela noite, no carro, a caminho de casa, e Jack confessou que ela no era aquilo que ele esperava que fosse, s vindo a descobrir depois 
que passou a conhec-la melhor. Ela era divertida, sincera, gentil, compassiva, e bastante vulnervel. Tudo o que dizia ou fazia o instigava a querer proteg-la.
      - Voc conseguiria ser apenas meu amigo por um tempo? - perguntou ela, honestamente. - Ou at mesmo para sempre? No sei se vou voltar a querer me envolver 
com algum. No tenho certeza se faria isto de novo.
      - Ningum est forando voc a tomar essa deciso - disse ele sensatamente e ela se acalmou e parou de se sentir culpada. Ele entrou por alguns instantes, 
e eles beberam ch de menta na cozinha. Depois, acabaram acendendo a lareira na sala de estar e conversaram durante um bom tempo sobre as coisas que eram importantes 
para eles.
      Eram duas da manh quando ele foi embora, e ela no sabia para onde a noite tinha ido. As horas pareciam voar quando estavam juntos. Na manh seguinte, ele 
estava ocupado na loja e ela passou o dia cuidando dos ltimos detalhes da preparao para o Natal. J comprara a rvore, e a estava decorando  noite quando ele 
telefonou.
      - O que est fazendo? - perguntou Jack, parecendo cansado. Ele ficara na loja durante doze horas seguidas e estava exausto.
      - Decorando a rvore - respondeu Amanda, mas com uma voz triste. Ela colocara msica de Natal para tocar, o que de repente a fez ficar ainda mais triste. Este 
era o primeiro Natal sem Matt, e o seu primeiro como viva.
      - Quer que eu passe a? Devo sair da loja daqui a meia hora, e sua casa fica no caminho para a minha casa. Adoraria ver voc.
      - Acho melhor no - disse ela, honestamente. Ainda precisava de um tempo de luto, e esse era um dos momentos em que gostaria de um pouco de privacidade. Conversaram 
Por um tempo e quando desligaram, ela se sentiu um pouco melhor. Mas Jack se sentiu pior, e desesperadamente sozinho. Ele ficou imaginando se ela um dia conseguiria 
se desvencilhar de Matt, ou se estaria pronta para deixar algum ultrapassar seus muros. Jack sabia que conseguira vislumbrar seu corao, mas Amanda ainda estava 
com medo de deix-lo se aproximar. Talvez fosse ser assim para sempre.
      Jack passou lentamente de carro pela casa dela a caminho da dele, e pde ver as luzes piscando na rvore, mas no conseguiu v-la. Amanda estava sentada em 
seu quarto, chorando, sentindo um medo desesperado de estar se apaixonando por Jack. Ela no queria que acontecesse. No era justo com Matt, e, mais do que tudo, 
ela no queria tra-lo. Depois de 26 anos, ela devia a ele muito mais do que isso, mais do que simplesmente se apaixonar pelo primeiro homem que aparecesse, no 
importando quo charmoso esse homem fosse. E o que aconteceria se ela se tornasse mais uma das garotas em sua lista? Teria se rebaixado por nada. E sabia com absoluta 
certeza que, para o bem de Matt, e para o seu prprio, no devia deixar isso acontecer.
      Jack ligou para ela quando chegou em casa, mas Amanda no atendeu ao telefone. Soube instintivamente que era ele, e no queria conversa. Era melhor terminar 
tudo antes mesmo de comear.
      Ela apagou as luzes e foi dormir. Deixou a msica tocando, e os acordes de Noite Feliz se espalharam pela casa enquanto ela chorava por dois homens; um que 
ela amara por tanto tempo, e o outro que jamais saberia se teria amado ou no. Era difcil dizer no momento qual dor era maior, e por qual delas ela mais ansiava.
      

      
      
     Captulo Cinco
      
      S ligou para Amanda uma ou duas vezes nos dias que se seguiram. Era fcil imaginar o que estava se passando com ela, numa poca to difcil quanto as festas 
de fim de ano. Dori morrera em novembro, e ele ficara bbado a semana inteira entre Natal e Ano-Novo.
      Ento, sabiamente, deixou Amanda sozinha para que pudesse lidar com seus sentimentos em particular. Mas, na manh da vspera de Natal, Jack deixou um presente 
para ela em sua casa. Era um pequeno quadro do sculo XVIII, que retratava um anjo, e que ela admirara na loja. Realmente era muito bonito. Ele colocou um pequeno 
bilhete junto ao presente, onde dizia que esperava que um anjo estivesse sempre tomando conta dela, neste Natal e Por todos os que viro, e terminou assinando simplesmente 
"Jack". Ela ficou muito emocionada ao ver o presente e, pouco depois, ligou para agradecer. Ela parecia ainda mais distante do que antes, mas pelo menos se achava 
mais calma. Obviamente, estava chegando a um acordo com o que quer que estivesse sentindo. E, ainda que estivesse contente por estar ouvindo sua voz, Jack preferiu 
no assust-la e evitou ser muito ntimo em sua conversa. Alm do mais, estava totalmente absorto nos problemas da loja. Eles tiveram alguns contratempos, como um 
pequeno roubo, um princpio de infarto no dia anterior, e um pequeno exrcito de crianas perdidas. Mas isso era normal nessa poca do ano. Tinham tambm perdido 
o vestido dourado de lantejoulas de uma estrela de sucesso, e depois o acharam como que por milagre. Duas mulheres famosas brigaram por causa de um homem, na seo 
de cosmticos. O que no faltou ao Natal foi agitao.
      - Espero que se divirta com suas filhas hoje  noite, apesar de que ser difcil sem Matt.
      - Ele gostava de trinchar o peru assado para a ceia - disse Amanda, com tristeza na voz. Ela parecia to frgil, que tudo o que Jack queria era aconcheg-la 
em seus braos.
      - Pea ao Paul para fazer isto - sugeriu Jack, gentilmente. - Ensinei a ele tudo o que sei. A respeito de trinchar assados, no de mulheres. - Ela riu e perguntou 
se havia alguma novidade sobre o filho dele. Jack contou que Paul havia marcado consulta com o especialista entre o Natal e o Ano-Novo. - Espero que tudo corra bem 
- disse Jack, esperanoso.
      - Eu tambm - concordou Amanda, e de repente desejou t-lo convidado para a ceia, mas as crianas no teriam entendido a razo de sua presena. De qualquer 
maneira, ele no poderia deixar a loja sozinha. Que diferena fazia t-lo convidado ou no? Ela no iria levar adiante nenhum relacionamento ntimo com ele. J tomara 
esta deciso, e Jack podia sentir isso em sua voz enquanto falavam ao telefone. A distncia entre os dois j estava estabelecida por ela. Ele pensou em convidar 
algum para sair no Ano-Novo. Mas, pela primeira vez na vida, estava sem disposio. J fizera a reserva para Lake Tahoe no dia seguinte ao Natal,e iria sozinho.
      - Feliz Natal, Amanda - desejou ele, carinhoso, antes de desligar. Ficou sentado em seu escritrio por um bom tempo, pensando nela. Nunca conhecera algum 
como Amanda. E, naquela noite, ao andar pela loja, arrumando o que ainda precisava ser organizado, pensou neles ceiando na casa dela, nas crianas, na rvore, em 
seu prprio filho, nas duas filhas dela... de repente percebeu como sua vida era vazia. Ele passara os ltimos dez anos correndo atrs de garotinhas em suas calas 
jeans apertadas, e o que ganhara com isso? Absolutamente nada.
      - Voc no parece estar se divertindo neste Natal - disse Gladdie, antes de ir embora para casa aquela noite. Ele lhe dera de presente um lindo casaco de cashmere 
e uma gratificao polpuda. - Alguma coisa errada? As crianas esto bem? - Estava preocupada com ele. J que sabia que no havia nenhuma garota no preo no momento. 
Tambm sabia que ele ligara vrias vezes para a sogra de Paul, o que a fez imaginar se algum estaria doente, ou se havia algo de errado com o casamento dos filhos, 
mas Jack preferiu no falar nada a respeito.
      - No h nada errado. Estou bem - mentiu. Excepto pelo facto de eu ter desperdiado minha vida, de a nica mulher que amei na vida ter morrido h treze anos, 
e de a melhor mulher que j conheci desde ento querer se enterrar junto com o marido. Nada de mais, Gladdie. Feliz Natal. Estou apenas cansado, acho. O Natal neste 
negcio de moda Pode ser mortal.
      - Todo ano digo a mim mesma que nunca conseguiremos passar do Natal, mas sempre conseguimos - sorriu. - Financeiramente, este foi o melhor ano que j tiveram. 
Quais so seus planos para hoje  noite? - Ele sorriu para Gladdie ao v-la colocando o casaco novo. A cor era azul-claro e ela adorara.
      - Dormir com o meu marido. Literalmente. O coitado me v acordada h seis semanas e, provavelmente, no ver por mais uma semana.
      - Deveria tirar uns dias de folga. Voc merece.
      - Talvez quando voc estiver em Lake Tahoe. - Mas sabia que no seria capaz. Nunca o era. Ela era o nico ser humano que ele conhecia que trabalhava mais do 
que ele.
      Como fazia todo ano, Jack trabalhou at depois de meia-noite, e era quase uma hora quando fechou a loja e se despediu do vigia noturno.
      - Feliz Natal, Sr. Watson.
      - Obrigado, Harry. Para voc tambm. - Ele acenou e entrou lentamente na Ferrari vermelha. Mas estava to cansado que no conseguiu dormir ao chegar em casa. 
Assistiu a um pouco de televiso e pensou em ligar para algum mas j eram trs da manh. E por alguma estranha razo percebeu que seus dias de glria tinham acabado. 
Ele j no fazia mais questo de companhia. No havia pernas compridas, peitos grandes ou pele macia o suficiente para conquistar seu interesse.
      - Cristo, talvez eu esteja morrendo - disse em voz alta e ento riu de si mesmo ao se deitar. Talvez fosse a idade. Os quase sessenta deviam ser os responsveis 
por aquela sensao, no apenas Amanda. Nada como agir como um idiota, e ele tinha sido um, com certeza.
      Ele dormiu at o meio-dia do dia seguinte, e pensou em ligar para Amanda, mas, quando o fez, ela j havia sado. Fora  casa de Louise comemorar com sua famlia 
comer as sobras da ceia. Ele foi at um restaurante e comprou comida chinesa para viagem, e comeu-a em sua cama desfeita, assistindo a uma partida de futebol americano. 
Depois disso, ligou para algumas garotas, pensando convidar uma delas para jantar naquela noite, mas todas estavam fora, e no fundo ele ficou aliviado em no t-las 
encontrado.
      Ele sabia que Amanda estava em casa  noite, mas no ligou. O que poderia dizer a ela? J esqueceu seu marido? De repente, ele se sentiu um tolo ao ser to 
insistente. Passou a noite inteira se revirando na cama, e pensando nela. Por fim na manh seguinte, no conseguiu mais se controlar. Estava indo para Tahoe naquela 
tarde, mas quando Amanda atendeu ao telefone, Jack perguntou se poderia passar l para tomar uma xcara de caf.
      Ela pareceu surpresa, e um tanto preocupada, mas aceitou sua ida l mesmo assim. Havia sempre a possibilidade de ele querer falar em Paul, ou em Jan, o que 
poderia no ser to provvel assim. No fundo, ela sabia disso. No momento em que viu seu rosto, ao abrir a porta,  uma hora da tarde, soube com certeza que aquilo 
no tinha nada a ver com as crianas.
      - Voc parece cansado - disse ela, ficando preocupada.
      - Estou. No consigo mais dormir. A chegada aos sessenta  pior do que eu imaginava - disse, com um sorriso torto. - Acho que finalmente estou perdendo a sanidade.
      - O que quer dizer com isso? - Ele a seguiu para dentro da casa, e eles foram at a cozinha bastante confortvel de Amanda. Ela estava acabando de fazer o 
caf e ofereceu-lhe uma xcara. Os dois se sentaram  mesa.
      Jack olhou para Amanda por detrs da xcara de caf e perguntou, abruptamente.
      - Eu me tornei um inconveniente, n? Acho que conquistadores nunca sabem quando parar. Creio que me empolguei demais. Sinto muito se fiz voc se sentir desconfortvel. 
No era essa a minha inteno. - Ele parecia desesperadamente infeliz ao dizer aquilo, e com menos idade do que sessenta. Ele parecia e se sentia como uma criana 
novamente, visitando a nica garota da turma que no queria sair com ele. - Sei que essa poca est sendo difcil para voc. Sinto muito se piorei as coisas.
      - Voc no piorou nada, Jack - disse ela, gentilmente, seu olhar penetrando no dele. Ela estava to infeliz quanto ele, mas to perdida que no sabia o que 
fazer a respeito. - Sei que no deveria dizer isto a voc, mas senti sua falta. - Ele pretendia manter a calma, mas seu corao comeou a palpitar quando ela disse 
aquilo.
      - Sentiu? Quando?
      - Nos ltimos dias. Senti falta de conversar e de me encontrar com voc. Juro por Deus que no sei o que estou fazendo.
      - Eu tambm no. Tenho me sentido o mais idiota dos homens. E o mais chato. Venho tentando deixar voc em paz, j que  disso que deve estar precisando.
      - . Eu precisava mesmo. - Mas sua voz saiu embargada ao dizer aquilo.
      - E agora? - Ele prendeu a respirao enquanto esperava a resposta.
      - No sei. - Amanda olhou para Jack com olhos que mais pareciam um camafeu e tudo o que ele teve vontade de fazer foi beij-la. Mas sabia que no podia.
      - Fique tranquila. No precisa tomar nenhuma deciso. V com calma. Estou aqui. No vou a lugar algum... - E ento ele se lembrou, com uma careta. - Excepto 
a Lake Tahoe.
      - Agora? - Amanda sorriu. Realmente gostava de sua companhia.
      - Mais tarde. Ainda preciso voltar em casa e arrumar a mala. Deveria ter feito isto ontem, mas estava muito cansado.
      Os dois continuaram conversando e, algum tempo depois, voltaram a ficar relaxados na companhia um do outro. Ela j estava rindo dele. Ele descrevia o incidente 
que ocorrera na loja quando duas mulheres comearam a brigar, dando socos uma na outra, por causa de um namorado em comum.
      - Voc pode imaginar o que os tablides teriam feito com isto? E,  claro, se eles tivessem acesso a essa histria, ambas teriam nos acusado de delatores. 
- Ele ainda dissera a ela quem eram as mulheres, e sabia que no. Ele era surpreendentemente discreto quando se tratava de seus negcios. - O que pretende fazer 
esta semana?
      - Nada de mais. Talvez v ver as meninas, se no estiverem muito ocupadas. - Mas ele no insistiu em seu convite para Lake Tahoe. Sabia que ela ainda no estava 
pronta. - Talvez v ao cinema. E voc? Vai levar algum? - Ela ainda estava tentando convencer a si mesma de que eram apenas amigos, e que no a incomodaria em nada 
saber que ele estava levando uma mulher a tiracolo. Mas isso no era verdade, e ela sabia disso.
      - No. Vou sozinho. Esquio melhor desse jeito. - E ento, cansado de fazer joguinhos com ela, pegou sua mo na dele e a segurou firmemente. - Vou sentir sua 
falta. - Amanda balanou a cabea e no disse nada. S olhou para ele de uma forma que teria derretido sua alma se fosse feita de amianto. - O que pretende fazer 
na noite de Ano-Novo? - perguntou Jack casualmente e ela riu dele.
      - A mesma coisa que fao todos os anos. Matt odiava essa data. amos para a cama s dez da noite, e desejvamos feliz Ano-Novo um ao outro na manh seguinte.
      - Que boa pedida. - Ele riu.
      - E voc? - perguntou ela, com interesse.
      - O meu Ano-Novo vai ser mais ou menos igual ao seu este ano. Devo ficar em Lake Tahoe. - E, ento, quando olhou para ela, sentiu-se repentinamente um estpido. 
- Por outro lado, Amanda... poderamos fazer alguma coisa diferente. Poderamos passear juntos por a. Apenas como amigos. Veramos algum filme na televiso ou no 
cinema juntos. No tenho que ir trabalhar e creio que no existe uma lei que diga que no podemos ser amigos, existe?
      - E sua viagem?
      - Tenho mesmo um problema no joelho. - Ele fez uma cara engraada. - Meu ortopedista iria agradecer a voc.
      - E depois? Quero dizer, depois disso... essa  a parte que me assusta. - Estranhamente, ela achou fcil ser honesta com ele.
      - No temos que nos preocupar com essa parte, ainda Temos o direito de no passar o feriado sozinhos. A quem estamos querendo provar alguma coisa? A voc? 
A nossos filhos? A Matt? J faz um ano. Voc j pagou sua cota de sofrimento. No mnimo, temos o direito a um pouco de conforto e amizade. O que poderia haver de 
errado irmos ao cinema? - Seu discurso era bastante convincente.
      - Com voc? Provavelmente mais do que ouso imaginar.
      - Eu sento sozinho na ltima fila. Nem chego perto de voc.
      - Voc  louco. - Ela sacudiu a cabea ao olhar para ele, tentando se forar a dizer no e a mand-lo embora. Ela sabia que era isso o que deveria fazer, mas 
tudo nele era to atraente...
      - Cheguei a essa mesma concluso ontem: que sou louco. Na verdade isso quase me fez ficar preocupado.
      - Eu tambm - ela riu novamente. - Tudo em voc me preocupa. Se eu tivesse algum juzo, diria que no quero ver voc de novo at o batizado do primeiro filho 
de Paul e Jan.
      - Isso pode levar um tempo. No mnimo, estamos falando de nove meses. Isso  muito tempo sem ir ao cinema. O que me diz?
      - O que digo : v para Lake Tahoe, divirta-se bastante. Ligue-me quando voltar, qualquer dia desses.
      - Tudo bem - disse ele. Jack j era velho e perspicaz o suficiente para saber quando no iria ganhar. Ter que deix-la quase o matou, mas ele se levantou, 
desejando ter conseguido convenc-la. - Feliz Ano-Novo - disse, e beijou sua testa antes de sair da cozinha. Ele j estava na porta da frente, e j a tinha aberto, 
quando ouviu Amanda dizer alguma coisa. Virou-se e a viu parada no hall. - O que voc disse? - O brilho nos olhos dela quase o tiraram do prumo. Ela parecia assustada, 
mas forte, e seus olhos no se desgrudaram dos dele.
      - Eu disse que h um filme que quero ver no Beverly Center. Comea s quatro horas, se voc quiser me fazer companhia.
      - Tem certeza? - A voz dele saiu como num sussurro.
      - Acho que sim... Eu quero... mas ainda no sei.
      - Pego voc s trs e meia. Coloque calas jeans. Ns vamos jantar no restaurante tailands depois, OK? - Um pequeno sorriso se fez notar nos lbios de Jack 
quando Amanda concordou. E, sem dizer mais uma palavra, antes que ela pudesse mudar de idia novamente, ele foi rapidamente at casa para cancelar a reserva para 
Tahoe.
      

      
      
     Captulo Seis
      
      Os cinco dias que se seguiram foram mgicos. Eles pareciam estar suspensos no espao, numa curva do tempo. Iam ao cinema, andavam no parque, falavam sobre 
tudo o que vinha  cabea, ou s ficavam sentados, em silncio. Parecia no haver qualquer presso de ambos os lados. Jack ligou para a loja, mas no chegou a ir 
at l. E claro que Gladdie estava sempre a postos. Ela no tirou um dia sequer de folga. Mas, pela primeira vez em sua vida, ele no estava nem a para a Julie's. 
S queria estar com Amanda. Nada foi dito, nenhuma pergunta foi feita, nenhuma resposta foi dada e no houve promessas de nenhuma parte. Eles apenas passaram um 
tempo juntos. E era isso exactamente o que estavam precisando e querendo.
      Era como se, dia aps dia, Amanda estivesse sentindo uma cura gradativa. Ele viu que estava se tornando o homem que um dia fora, com Dori, s que melhor. Estava 
mais velho e mais sbio. Pena que desperdiara um bocado de tempo nestes ltimos treze anos. A impresso que tinha e que aquela fora a vida de outra pessoa, e que 
nada daquilo importava mais.
      Ela falava sobre Matt, s vezes, e uma vez at chorou por ele, mas dava para notar que o sentimento aos poucos ia se abrandando. Comeava a aceitar que ele 
tinha morrido e que ela estava viva, e queria parar de se sentir culpada. E, sem dizer uma palavra a Jack, tirara a aliana de casada e a guardara na caixa de jias. 
Ela chorou ao fazer aquilo, mas no achava direito continuar usando a aliana. No exacto instante em que a tirou do dedo, teve a sensao de que seu corao iria 
se partir em mil pedaos. Ela no mencionou nada daquilo a Jack, mas ele notou a ausncia da aliana quando saram para jantar. E, sabendo que grande passo devia 
ter sido para ela, tomou a deciso diplomtica de no fazer qualquer comentrio.
      Jantaram muito bem, em vrios restaurantes espalhados por toda a cidade, onde felizmente no encontraram nenhum conhecido, e assistiram aos piores filmes j 
produzidos, rindo at no poder mais. Ele voltava sempre para casa  noite, mas os dois hesitavam na entrada da casa dela durante horas, s conversando e tentando 
se despedir. Nada aconteceu at o dia anterior ao Ano-Novo, quando, sem pensar, enquanto Amanda preparava o jantar, Jack chegou mais perto, puxou-a junto a si e 
beijou-a. Ele desejava fazer aquilo h muito tempo, mas receava assust-la novamente, como j acontecera uma vez. Mas Amanda parecia estar tudo menos assustada ao 
olhar para Jack com um sorriso, logo depois do beijo. Isso fez com que ele sentisse um enorme alvio. No a perdera. No disseram nada, mas ele a beijou novamente 
mais tarde, ainda naquela noite, ao sentarem na sala de estar, no escuro, de mos dadas e olhando para a lareira que ele acendera. Ela se sentia inteiramente  vontade 
com ele.
      E,  meia-noite, quando foi para casa, e assim que chegou l, Jack ligou para Amanda.
      - Estou me sentindo uma criana novamente, - disse ele, e soou irresistivelmente sexy.
      - Eu tambm - sorriu ela. - Obrigada por ir devagar comigo. Esta foi uma semana incrvel. Justamente do que eu estava precisando. Queria passar um tempo ao 
seu lado... e foi o verdadeiro presente... melhor do que o do Natal.
      Eles riram pelo facto de o telefone ter tocado algumas vezes naquela noite. Ambos deduziram que deveriam ser as filhas dela, mas Amanda decidiu no atender. 
Ela queria aquele tempo para si mesma, e para ele. As crianas tiveram sua cota de ateno por todos esses anos, assim como Matt, e agora era sua vez. Era a primeira 
vez em anos em que levava uma vida de que ningum tinha conhecimento e isso inclua sua famlia. Era bom para variar.
      Eles planejaram patinar no gelo no dia seguinte, e talvez assistir a mais um filme. Tinham visto praticamente tudo o que estava em cartaz na cidade. Combinaram 
fazer o jantar na noite de Ano-Novo, beber champanhe e tentar ficar acordados at  meia-noite.
      - Sinto muito por voc no ter ido esquiar - disse ela, generosamente, ao telefone.
      - Eu no - ele riu com a idia. - Isto aqui  muito melhor. Esta  a coisa mais romntica que j fiz em toda a minha vida, e no a trocaria por nada neste 
mundo, muito menos pela companhia de um monte de magnatas.
      Ele desejou-lhe boa-noite e ansiou poder beij-la de novo. No dia seguinte, riram como duas crianas quando saram para patinar, divertindo-se como nunca. 
E, mais tarde, na noite de Ano-Novo, Amanda preparou um peru assado e, de sobremesa, um pav. Aquele foi um jantar Perfeito.
      Eram dez horas quando se postaram novamente em frente  lareira. Jack a beijava e Amanda retribua seus beijos com paixo. Ele serviu duas taas de champanhe, 
que beberam mais rpido do que o planejado. No calor do fogo, e sob efeito arrebatador do champanhe, seus beijos pareciam mais intensos do que nunca. Ela no fazia 
idia de que horas eram quando a voz grave e sexy de Jack disse que a amava, e convidou-a a ir para a cama. Amanda no disse uma palavra. Apenas juntou seu corpo 
ao dele e concordou com um movimento de cabea. Ela o queria mais do que tudo, e pela primeira vez ele no conseguiu parar para pensar se ela iria se arrepender. 
Ele a queria demais. Seguiu-a at o quarto. E o que descobriu ali o deixou maravilhado. Amanda tinha um corpo igual ao de uma garota, s que ainda melhor. Era esguia, 
alongada e seus seios tinham mais volume do que ele esperava. Ele no conseguia se afastar um milmetro dela. Amanda disse que o amava assim que ele a penetrou, 
e mal pde respirar quando comearam a se mover vagarosamente. Ela nunca sonhara com algo assim, nem passara por isto antes, nem com o marido nem com nenhum dos 
dois homens que vieram antes dele. Para uma jovem em Hollywood naquela poca, at que Amanda fora atpicamente casta, mas neste exacto momento no existia qualquer 
passado para eles. Tudo o que compartilhavam era sua paixo e o presente. E, quando gozaram, ela sentiu como se o universo tivesse explodido em sua cabea. Amanda 
relaxou completamente, acalmando-se pouco a pouco. Ela adorou os gemidos dele, e o modo como a tocara, e a sensao de t-lo dentro de si. Ela era inteiramente dele 
agora. Acabou dormindo em seus braos, muito depois da meia-noite. No havia qualquer sinal de pesar ou de arrependimento. E nenhuma satisfao a dar. At a manh 
seguinte.
      Ela acordou em seus braos, Jack acariciou-lhe os seios, sorrindo para ela, e a luz do sol invadiu o quarto que ela dividira com o marido. Amanda ficou quieta, 
deitada, por um bom tempo, e ento olhou para Jack, sem saber ao certo se queria rir ou chorar, ou fazer amor com ele de novo, e no fundo querendo fazer as trs 
coisas ao mesmo tempo. Em vez disso, saiu vagarosamente da cama, andou pelo quarto e virou-se para olhar para ele, como uma jovem antlope, e toda a sua glria.
      - Tudo bem? - Ele a observou, cheio de desejo novamente, mas repentinamente preocupado. Ela parecia diferente.
      -- No sei direito - disse, e ento sentou-se na cadeira ainda nua, olhando para ele, tentando decidir se era louca ou se estava apenas muito feliz. - No 
posso acreditar que fiz isso a noite passada. - Nem ele, mas nunca estivera to feliz em sua vida, e no queria desistir dela agora. Jack sabia quem e o que ela 
era, e a queria desesperadamente. E Amanda disse na noite anterior que o amava.
      - S no me diga que embebedei voc... isso me mataria.
      - Voc no fez nada disso. - Olhou para ele nervosamente por baixo de suas plpebras. - Mas eu estava bbada? - Ela parecia assustada.
      - No vejo como... voc s bebeu duas taas...
      - Foi a lareira... e voc me beijando... e...
      - Amanda, no faa isso. Pare de se torturar. - Ele atravessou o quarto para ficar perto dela. Ajoelhou-se ao seu lado, seu prprio corpo mostrando-se to 
em forma quanto o dela.
      - Fiz amor com voc na cama que dividi com meu marido. - Lgrimas encheram seus olhos repentinamente enquanto olhava para ele. - No consigo acreditar que 
fiz isso. Meu Deus, Jack, que tipo de mulher sou eu? Fui casada com um homem por vinte e seis anos, e fiz amor com voc na cama dele! - Ela se levantou e comeou 
a andar de um lado para o outro. Jack fez fora para no se deixar irritar com aquilo.
      - No fale como se tivesse cometido um crime, Amanda. Voc fez amor comigo, e eu fiz amor com voc. Amanda... eu amo voc. Pelo amor de Deus, somos adultos. 
Ainda estamos vivos... meu Deus, voc ainda est viva!... e estou mais vivo do que jamais estive em vinte ou trinta anos, talvez at na minha vida inteira. - O telefone 
tocou quando ele acabou de falar. Amanda no fez qualquer meno de atender. Ela no dava a mnima para quem estava ligando. Tudo o que podia pensar agora era em 
sua traio ao marido.
      -  a cama dele. Nossa cama. - Ela chorava copiosamente enquanto ele a observava andar sem parar, com medo de toc-la.
      - Ento compre uma nova - explodiu ele, sem pensar. - Essa  a sua cama, pelo amor de Deus. Ns faremos no cho da prxima vez... ou na minha casa...
      - Voc precisaria de um exorcista para purificar sua cama! - disse ela, por entre as lgrimas, e ele riu.
      - Querida, acalme-se... por favor... isso  s um trauma.  a primeira vez. Eu entendo. Por Cristo, foi o melhor sexo que j fiz... ns nos amamos... passamos 
a semana inteira juntos e estamos loucos um pelo outro. O que voc espera? Deus, ns vimos todos os piores filmes que estavam em cartaz. O que mais quer? Um noivado 
de dois anos?
      - Talvez. No faz nem um ano que ele morreu. - Ela se sentou novamente, e chorou como uma criana, e tudo o que ele ousou fazer foi entregar-lhe um leno.
      - O aniversrio da morte dele  daqui a trs dias. Ns vamos esperar. Vamos esquecer o que aconteceu.
      - Melhor assim. Voltaremos a ser amigos. Vamos ao cinema, e no faremos sexo de novo. Nunca. - Ela estava tentando acertar as coisas consigo mesma, mas ele 
estava querendo ir em frente. Ele a amava demais para perder qualquer parte dela, particularmente as partes que tinha descoberto na noite anterior.
      - No vamos perder a cabea por causa disso, est bem. Vamos tomar uma xcara de caf e um banho, depois daremos uma volta bem grande por a. Voc vai se sentir 
melhor.
      - Sou uma vagabunda, Jack. Exactamente como as outras garotas com quem voc dorme. - O telefone tocou de novo, e os dois ignoraram.
      - Voc no  nenhuma vagabunda. E eu no durmo com mais ningum alm de voc. Ser que no entende? No olho para outra mulher desde que voc apareceu naquela 
festa na loja. Voc acabou com a vida que eu levava, mas no vou deixar que acabe com o que estamos vivendo. Ns nos amamos, e voc tem direito a isso. Entendeu?
      - No tenho o direito de dormir com ningum na cama do meu marido. - Amanda estava confusa, e Jack comeava a se exasperar. Acabou chegando mais perto dela, 
pegou firme em suas mos, e levantou-a.
      - Venha, vamos tomar uma xcara de caf. - Nenhum dos dois fez nada para se cobrir e nem passou pela cabea dela que estava completamente  vontade diante 
dele. Era como se estivessem juntos h anos.
      Ele preparou uma xcara de caf, nu, na cozinha, e passou-a para ela. Ela bebia caf puro, e este estava to quente que desceu queimando. J estava um pouco 
mais calma quando se sentaram juntos  mesa da cozinha. O ambiente estava abafado, e ficaram ali, juntos, nus e bebendo o caf quente.
      - Voc quer ler o jornal? - perguntou ela, casualmente, sentindo-se de repente como uma esquizofrnica de marca maior. Num momento, estava completamente  
vontade com ele, no outro, falava coisas sem nexo, acometida por culpa e angstia. Mas estava se sentindo bem de novo agora, e ele concordou.
      - Quero. Adoraria dar uma olhada no jornal de hoje.
      - Vou pegar l fora.
      Ela andou na direco da porta, com a xcara do caf ainda na mo, abriu-a e se abaixou para pegar o jornal. Sua porta da frente era completamente protegida 
da vista de quem estava na rua, e ela sabia que ningum a veria. Mas, assim que se abaixou, viu o carro de Jan entrando na casa, e tanto Jan como Paul olharam boquiabertos 
para ela. Ela pegou o jornal, correu para dentro, e foi directo para a cama jogando o jornal no cho e derramando o caf. Jack virou para ela, assustado.
      - Voc tem que ir embora! - Ela olhava para ele com terror nos olhos.
      - Agora!
      - Sim... oh, droga... no, voc no pode... eles esto l fora... saia pela porta dos fundos... fica atrs da lavanderia - Ela apontou freneticamente na direco 
para onde ele deveria ir.
      - Voc quer que eu saia desse jeito? Ou posso ter um minuto para colocar minhas roupas? - Mas assim que ele fez a pergunta, a campainha tocou e Amanda quase 
deu um pulo ao ouvi-la.
      - Oh, meu Deus... so eles... oh, meu Deus... Jack, o que vamos fazer? - Ela recomeou a chorar, e desta vez ele no pde conter o riso.
      - Quem poderia ser a esta hora? Pelo amor de Deus, estamos comemorando o Ano-Novo. Ignore quem quer que seja.
      - So nossos filhos, seu idiota. Eles me viram... quando fui buscar o jornal.
      - Que filhos?
      - Por Deus, quantos filhos ns temos? Jan e Paul. Eles olharam para mim como se eu fosse uma louca.
      - Bom, pelo menos eles acertaram em alguma coisa. Voc quer que eu atenda a porta e deixe-os entrar?
      - No... quero que voc v embora... no... quero que voc se esconda no quarto.
      - Calma, querida. Apenas v l e diga que voc est ocupada e que eles voltem mais tarde.
      - Certo. - Ele foi rpido at o quarto e fechou a porta. Com as mos tremendo, Amanda destrancou a porta e abriu o suficiente para que vissem apenas seu rosto 
e para que ela pudesse falar com a filha. - Oi. - Ela abriu o maior sorriso para eles por detrs da porta. - Feliz Ano Novo.
      - Me, voc est bem?
      - No, na verdade... sim... Estou bem. Estou meio nada... Estou com dor de cabea... Ressaca, sabe? Bem, verdade, no estou. Tomei duas taas de champanhe 
ontem  noite. Acho que sou alrgica a champanhe. 
      - Me, por que voc foi nua at a porta? Os vizinhos poderiam t-la visto. 
      - Ningum me viu. 
      - Ns vimos.
      - Sinto muito. Bem, obrigado por voc ter vindo, querida. Por que vocs dois no voltam mais tarde? Hoje  noite, talvez. Seria perfeito. - Suas palavras saam 
como dardos.
      - Por que no podemos entrar agora? - Jan parecia extremamente preocupada, mas Paul resolveu no insistir. Era obviamente a hora errada. Eles tentaram ligar 
antes, mas ela no atendera ao telefone. Pensaram que ela poderia nem estar l.
      - Vocs no podem entrar por causa da minha... da minha dor de cabea... Eu estava dormindo.
      - Voc no estava dormindo. J veio at buscar o jornal aqui fora. Me, o que est acontecendo?
      - Nada. Eu amo voc. Liguem-me da prxima vez que quiserem aparecer por aqui.  mais educado, querida...  falta de educao aparecer assim... mas estou feliz 
que tenha vindo... Falo com voc mais tarde... - Ela acenou brevemente e fechou a porta na cara deles. Os dois ficaram parados na frente da porta por um minuto e 
ento se viraram e voltaram para o carro, meio confusos. S quando entraram no carro de novo  que Jan olhou para o marido com os olhos cheios de preocupao.
      - Voc acha que minha me est com algum problema com a bebida?
      -  claro que no. Ela s no queria visitas a essa hora. Tem esse direito. Bem, talvez esteja tendo um caso com algum, e o cara ainda pode estar l dentro. 
Ainda  jovem o suficiente para fazer algo assim, voc sabe... e seu pai j morreu h um ano... - Ele ficou surpreso com a prpria sugesto e Jan olhou para o marido, 
sentindo-se ultrajada.
      - Voc est louco? Minha me? Voc realmente acha que ela faria isto? No seja ridculo, s porque seu pai nunca sai da cama, na idade dele, no significa 
que minha me v se comportar deste jeito. Paul, isto  nojento.
      - Coisas estranhas acontecem.
      Eles j estavam a meio caminho de casa quando Amanda voltou para o quarto. Jack desligou o chuveiro e sorriu quando ela fechou a porta do quarto e se encostou 
nela, como estivesse fugindo da Interpol num pas estrangeiro.
      - O que disse a eles? Que eu mandava lembranas? - Ele ficou surpreso com a reao dela.
      - Essa  a coisa mais constrangedora que j me aconteceu na vida. Minhas filhas nunca vo me perdoar.
      - Por qu? Porque voc no deixou Jan entrar? Eles deveriam ter ligado antes.
      - Eles ligaram. Ns  que no atendemos.
      - Eles no deveriam ter aparecido. Simples assim. Voc quer tomar um banho?
      - No. Eu quero morrer. - Amanda se jogou na cama e Jack se sentou na beirada, olhando para ela com uma afeio profunda.
      - Voc se coloca numa situao muito ruim. Sabe disso?
      - Eu mereo - disse ela, com lgrimas nos olhos novamente. - Sou uma pessoa terrvel, e um dia minhas filhas sabero disso. - Ento olhou para Jack ainda deitada. 
- Voc no vai contar nada para Paul, Oh, meu Deus... ele vai falar para Jan, que por sua vez vai dizer para Louise...
      - E, antes que voc perceba, j ter virado manchete dos jornais. Diabos, querida, Paul e eu sempre falamos das mulheres com quem eu durmo. Voc no pode tirar 
isso de mim agora. Ele vai pensar que fiquei muito velho para essas coisas...
      - Oh, meu Deus. Apenas me mate. - Ela virou de bruos e encostou o rosto no travesseiro enquanto ele ria para ela e se inclinava para beij-la nas costas. 
Ele a beijou do pescoo s ndegas. E quando massageou suas costas por um minuto, e Amanda virou-se lentamente, com um olhar que o fez lembrar da noite anterior, 
isso causou um efeito impressionante e instantneo em Jack. Ela envolveu-o em seus braos. Sem dizer uma palavra, ele se inclinou para baixo e beijou-a, querendo-a 
mais do que nunca.
      - Eu amo voc, sua doida... Que manh...
      - Amo voc tambm - sussurrou ela, a voz rouca, e puxou-o em sua direco. S que, desta vez, Jack resolveu fazer uma pergunta.
      - Espere um minuto, antes que voc me coloque dentro deste moinho de vento de novo, gostaria de ir para outro quarto, ou sair da cama, talvez... o que voc 
acha do sof ou da banheira? - perguntou, acariciando-lhe gentilmente os seios e deixando as mos descerem calmamente.
      - Deixa pra l... est tudo bem... - Amanda sorriu e Jack no pde conter uma risada.
      - Voc diz isso agora... mas e depois? - sussurrou ele.
      -  provvel que voc tenha de fazer amor comigo de novo, s para me acalmar... Acho que isso tem um efeito calmante...  muito teraputico... - disse ela, 
procurando por ele e tocando-o com os lbios at que ele comeasse a gemer baixinho. - Eu amo voc, Jack - disse, ao tocar nele novamente.
      - Amo voc tambm, querida - disse Jack, e ento a paixo tomou conta, e a loucura da manh foi instantaneamente esquecida.
      

      
      
     Captulo Sete
      
      O restante do feriado do Ano-Novo transcorreu pacfico. Jan ligou para a me a fim de se certificar de que estava tudo bem, e Amanda tratou de tranquilizar 
a filha. Ela ligou para Louise, tambm, e Jack ligou para Julie, e depois para Jan e Paul, desejando a eles um feliz Ano-Novo.
      Jack e Amanda ficaram na casa dela no primeiro dia do ano, fizeram amor mais uma vez naquela tarde, e  noite foram para Malibu. Ele tinha uma casa l, pequena 
mas confortvel, na qual vivera durante muitos anos, cheia de objetos queridos e charmosamente antigos. Havia cadeiras confortveis de couro, mesas cobertas de livros, 
e algumas obras de arte lindas. Amanda ficou surpresa ao descobrir como se sentia em casa ali.
      Eles andaram na praia no dia seguinte, de mos dadas, e falaram sobre seus filhos. Amanda ainda estava preocupada com Jan, e tinha esperanas de que a filha 
conseguiria engravidar.
      - Vai ser um baque se ela no conseguir - disse Amanda, com pesar. Ser me era uma coisa que significava muito para ela. Era fcil imaginar como seria traumtico 
para ela no realizar este sonho.
      - E quanto a voc? - perguntou Jack, a caminho da casa naquela tarde.
      - Quanto a mim o qu? - Ela no entendeu a pergunta.
      - No quero que voc engravide - disse ele, honestamente. - Acho que ainda corremos este risco. - Aos cinquenta, Amanda ainda estava no auge, e era to jovem 
em tantos aspectos, que Jack achava que seu corpo no mudara em nada ainda. De qualquer maneira, eles tomavam cuidado, porque Jack tinha conscincia do risco da 
AIDS, principalmente por causa de sua vida preversa na libertinagem, Mas a preocupao no era to grande porque ele ficara inativo durante algum tempo, no muito 
por convico, mas por coincidncia e devido s circunstncias, e tambm por causa da enorme demanda da temporada de Natal na Julie's, E desde que Amanda cruzara 
seu caminho, ele perdeu interesse por qualquer outra mulher. Jack pretendia parar de usar camisinha depois que chegasse o resultado do ltimo teste de AIDS a que 
se submetera, e que ficaria pronto em alguns dias. Mas a ltima coisa que queria era que Amanda engravidasse.
      - Nunca pensei nisso - disse ela, olhando para Jack. Ela fora fiel ao marido durante 27 anos, incluindo o ano posterior  sua morte. - No consigo nem imaginar 
que na minha idade isto possa vir a ser um problema. - Ela no engravidara em vinte anos, no desde um descuido que tivera quando Jan estava no jardim de infncia. 
Ainda se lembrava de como ficara chateada e de como aquilo tinha sido traumtico. Mas o pensamento de ficar grvida agora era to absurdo... E foi o que disse para 
ele.
      - Isso no  nem metade to absurdo quanto imaginar uma fuga minha para o Brasil, ou como eu resolver me alistar na marinha mercante - disse bruscamente e 
ela riu, mas ele no. J passara por esta situao muitas vezes em todos esses anos. Mulheres que diziam estar grvidas dele, que ligavam para dizer que a menstruao 
atrasara, ou que tinham esquecido de tomar a plula. Era uma dor de cabea constante.
      - Bem, espere um pouco - sorriu ela. - Um dia desses acho que no ser mais problema. - Ela pensava na menopausa, mas ainda no havia qualquer sinal dela. 
Seu mdico dissera que poderia no acontecer nada por mais um ano ou dois, de repente mais. E ao contrrio de Jan, ela nunca teve problemas em engravidar.
      - Mal posso esperar - ele fez uma careta, mas tambm concordava com ela. Mesmo que tecnicamente ainda houvesse a possibilidade de Amanda engravidar, aos cinquenta 
era mais ou menos improvvel.
      Jack preparou o jantar para ela naquela noite, e os dois se sentaram  frente da lareira e ficaram admirando a lua que jazia refletida sobre o oceano. Aquele 
lugar era mais tranquilo para Amanda, pois no tinha que pensar em Matt. De repente, parecia estar vivendo uma vida inteiramente nova com Jack Watson. Ela achava 
surpreendente o facto de, depois da agonia do ltimo ano, e de ter sentido que sua vida terminara, voltar a se sentir assim, renovada, jovem e viva, como se tivessem 
sido feitos um para o outro. Ela ficava tentando descobrir se era errado ir por esse caminho, mas sabia que, mesmo se fosse, no havia mais como voltar atrs. Tudo 
o que queria era estar com ele.
      Sentiram-se meio rfos quando ele teve de voltar a trabalhar. Amanda no sabia o que fazer, e Jack ligava para ela uma meia dzia de vezes durante o dia. 
Ia  casa dela para almoar, para fazer amor, ou apenas para ficar ao seu lado. E, quando ele voltava para a loja, ela sempre pensava em milhes de razes para ligar, 
ou para perguntar-lhe alguma coisa.
      - Estou sendo uma chata? - perguntou Amanda, certo dia. Era a segunda vez que ligava em menos de uma hora, E ele a havia deixado em casa apenas uma meia hora 
alm disso. Eles iriam ao restaurante tailands favorito deles  noite. Era o esconderijo perfeito. Sabiam que no iriam deparar com nenhum conhecido l. Ela ainda 
no queria dar de cara com as filhas naquelas circunstncias. Pelo menos naquele momento, eles concordaram em manter o romance em segredo.
      - Voc nunca  chata. Adoro falar com voc - sorriu ele, colocando os ps sobre a mesa, quando Gladdie entrou com uma xcara de caf e ele agradeceu. E ento 
teve uma idia. - Por que no vamos a San Francisco no fim de semana? Estou querendo dar uma olhada num novo ponto l, na Post Street.
      - Eu adoraria - respondeu ela. Decidiram ir naquela semana e, depois que desligou, Jack chamou Gladdie em seu escritrio.
      Ela entrou de cenho franzido, o bloco de anotaes na mo.
      - Algo errado? - Ele olhou para ela. Nos ltimos seis meses, haviam tido seis remessas presas na alfndega.
      - Talvez eu no devesse perguntar - disse ela, obviamente preocupada -, mas as crianas esto bem?
      - Claro. Por qu? - Ele pareceu surpreso. Talvez ela soubesse de alguma coisa que ele no sabia.
      - Reparei que a Sra. Kingston vem ligando para voc. Pensei que talvez... Imaginei se Paul e Jan... - Ela estava sem jeito de perguntar. Mas eles estavam casados 
h trs anos, no tinham filhos, e o mundo girava bem rpido em Los Angeles. Talvez estivessem tendo problemas, ela e Jack andavam conversando sobre eles.
      - No. Eles esto bem - respondeu, mostrando um sorriso enigmtico, e, quando seus olhos se encontraram, Gladdie ficou pensativa. Ningum mais ligara para 
ele desde o Natal. Pelo menos ningum importante. E quando ligavam, ele fazia com que Gladdie dissesse s "garotas" que estava ocupado. Levou alguns minutos, mas 
a astuta Gladdie entendeu o que estava acontecendo.
      - Sei - disse ela, surpresa. Amanda era demais. Mas Gladdie nunca teria imaginado... a vida  realmente engraada.
      - S no deixe que ningum mais saiba, Glad. No queremos que as crianas saibam ainda.
      - Isso  srio? - Ela era to chegada a ele, e trabalhara durante tanto tempo ali, que se sentia  vontade para perguntar coisas que ningum jamais ousaria. 
Ela acabava sempre ficando a par de tudo o que acontecia.
      Ele hesitou um instante antes de responder.
      - Pode ser... - E ento decidiu ser honesto com ela. Estava louco por Amanda. Nunca sentira nada assim por mulher alguma desde Dori, e Gladdie nem a conhecera. 
Desde que chegara para trabalhar com ele, tudo o que via era uma coleco de mulheres bonitas que entravam e saam de sua vida. -  srio. - Seus olhares se cruzaram 
quando ele fez que sim com a cabea, e parecia mais feliz e jovem do que Gladdie jamais vira antes.
      - Uau! Estou impressionada. As crianas vo adorar, no vo?
      - Acho que sim, mas Amanda acha que no. Vamos esperar um pouco para ver o que acontece antes de contarmos a eles. - Ento Jack pediu que Gladdie fizesse reservas 
para os dois na sute presidencial no Hotel Fairmont, e que marcasse uma reunio com o corretor de imveis para ver o ponto na Post Street.
      Eles voaram para San Francisco na sexta-feira  tarde, e, ao andar por aquela sute fabulosa com uma vista inesquecvel, Amanda sentiu-se em lua-de-mel. Eles 
jantaram no Fleur de Lys na primeira noite, e comeram na sute na noite seguinte. No sbado, foram conhecer o ponto comercial. Jack ficou excitadssimo com o local. 
Apesar das dores de cabea inevitveis resultantes de se abrir uma nova loja, ele morreu de amores pela idia de levar a Julie's para San Francisco e externou sua 
deciso para Amanda.
      - Devo ser louco s de pensar nas dores de cabea que viro com isso na minha idade. - Mas, ultimamente ele vinha se sentindo trinta anos mais novo, desde 
que comeara a sair com Amanda. E no conseguiu mais parar de falar de suas idias para a nova loja, a arquitetura, a decorao, as mercadorias diferenciadas que 
gostaria de vender ali. Sentia-se como uma criana novamente. Sempre tivera uma atrao por San Francisco.
      Ele realmente no se importaria em ter de passar algum tempo ali, particularmente se Amanda estivesse com ele. Eles falaram sobre isso enquanto voltavam a 
p para o hotel, vindo da Union Square. Era uma caminhada e tanto naquela ladeira ngreme, e os dois estavam sem flego, mas muito animados, quando chegaram de volta 
ao Fairmont. Jack estava com um humor ptimo, assim como Amanda, especialmente quando passaram o resto da manh na cama.
      Ela odiou ter de voltar no domingo. Aquele fim de semana foi perfeito. Na segunda-feira tinha um almoo marcado com as filhas no Bistr. Louise estava bem, 
mas Jan parecia um tanto deprimida, e Amanda estava preocupada com a possibilidade de a filha ter tido ms notcias do mdico. Mas, antes que ela pudesse perguntar 
qualquer coisa s filhas, elas comentaram o facto de a me estar muito bem.
      - Voc est ptima, me - disse Jan, aliviada. Ela ficara preocupada com a me desde o Ano-Novo. Talvez aquela tenha sido apenas uma manh ruim, mas o comportamento 
da me foi muito estranho.
      - Obrigada, querida. Voc tambm. - Mas o olhar de Jan era extremamente triste. Estavam no meio do almoo quando ela trouxe o assunto  tona.
      - Bem, Paul finalmente foi ao mdico - disse ela, depois de uma pausa, e as lgrimas tomaram conta de seus olhos enquanto continuava a falar. Amanda chegou 
mais perto da filha e tocou sua mo. E, pela primeira vez na vida, at Louise parecia preocupada com ela.
      - E? - inquiriu a irm. - Ele  estril?
      - No - respondeu Jan, enxugando uma lgrima -, ele  normal. E eu tambm. Eles no fazem idia de por que no engravidei ainda. Disseram apenas que pode levar 
mais algum tempo, ou talvez que nunca venha a acontecer. Disseram que, algumas vezes, at mesmo pessoas perfeitamente saudveis no conseguem engravidar. Ningum 
sabe por qu. Acho que no era para acontecer mesmo. - Ela recomeou a chorar e Amanda procurou por um leno na bolsa. Jan assuou o nariz, suspirou e continuou. 
- Talvez nunca tenhamos filhos. Sondei Paul de novo a respeito da possibilidade de adoo e ele disse que, se fosse assim, preferia no ter filhos. Ele s quer um 
beb se este fizer parte de sua famlia biolgica, o que elimina qualquer possibilidade de adoo. - Ela parecia arrasada e Amanda ficou com o corao partido.
      - Ele ainda pode mudar de idia, querida. E voc ainda pode engravidar. Tenho certeza de que vai conseguir. s vezes demora um tempo para algumas pessoas. 
E, depois, voc vai acabar tendo quatro de uma vez e vai desejar poder parar de ter tantos filhos. - Ambas tentaram anim-la, mas era bvio por seu olhar que Jan 
no estava aceitando nada do que diziam. E,  noite, quando Amanda contou a Jack o que acontecera, ele ficou penalizado plos dois.
      - Pobres crianas. Puxa, e quando penso nas tantas vezes em que o provoquei! Ele deve estar pronto para me matar.
      - No sei se Paul est to chateado quanto Jan - disse Amanda, pensativa. Ela estava profundamente preocupada com a filha. Ela parecia bastante deprimida e 
desesperanada.
      - Talvez, se eles esquecessem disso por algum tempo simplesmente aconteceria.
      - Foi o que eu disse para ela. Mas acho que, numa circunstncia como essa,  s no que se pode pensar. Tenho amigas que passaram por isto. - Ele concordou 
e mudaram de assunto. Eles sempre pareciam ter mil coisas para dizer um ao outro. Ele falava bastante sobre a loja, e pedia sua opinio a respeito de mercadorias 
que estava comprando, particularmente as mais bem-acabadas. Ela tinha bom gosto e um ptimo olho, e j dera sugestes bastante teis. E, agora, Jack estava particularmente 
interessado em suas idias para a loja que estava planejando abrir em San Francisco. A inaugurao s aconteceria depois de um ano ou mais, mas ele queria comear 
as obras.
      Amanda adorava ir  loja na Rodeo Drive para visit-lo e Gladdie ficava impressionada toda vez que a via. No havia dvida de que Amanda chamava bastante a 
ateno, mas era tambm muito humana, e as duas batiam papo s vezes. Gladdie era a nica confidente deles e amava saber esse segredo.
      O ms inteiro voou. Eles passaram um fim de semana em Palm Springs e, em fevereiro, ele a levou para esquiar em Aspen. Passaram ptimos momentos juntos e depararam 
com vrios amigos dele, todos os quais reconheciam Amanda. Eles ficavam impressionados em ver Jack com ela e, para constrangimento de Amanda, um jornal de Aspen 
publicou uma nota sobre eles.
      - Espero que ningum ligue para Los Angeles. Essa seria a pior maneira de as crianas saberem.
      - Talvez devssemos contar tudo a eles um dia desses. - Os dois estavam inseparveis h quase dois meses. E tiveram o cuidado de evitar a imprensa de Los Angeles, 
mantendo  distncia do tipo de evento que eles cobriam.
      Mas, quando ela almoou com Jan e Louise novamente, Jan estava ainda to deprimida que Amanda no teve coragem de contar nada. Parecia egosmo se gabar de 
sua prpria felicidade quando Jan estava to infeliz. A nica vez em que esboou um sorriso foi quando disse algo sobre o pai de Paul.
      .- Paul acha que ele est namorando firme. Parece que tomou jeito. Paul disse que o pai parece estar com metade de sua verdadeira idade e que anda sorrindo 
 toa. Mas no fala nada sobre ela. Deve ser alguma garotinha de dezenove anos. Mas, quem quer que seja, parece que est conseguindo faz-lo feliz e mantendo-o longe 
de problemas.
      - Conhecendo-o como ns conhecemos - disse Louise, com olhar de desdm -, eu diria que deve estar saindo com umas cinco logo de uma vez.
      - O que  isso, meninas? Pobre homem... ele tem direito  sua prpria vida - disse Amanda, com um certo nervosismo, ficando constrangida.
      - Desde quando ficou tolerante com ele? - perguntou Louise e ento a conversa tomou outros rumos. Amanda que parecia que tinha engolido o guardanapo quando 
olhou para elas, tentando imaginar como iria contar tudo para as filhas.
      Naquela noite, Amanda comentou com Jack o episdio no almoo e ele riu.
      - Voc age como se esperasse que elas pensem que voc  virgem.,.
      - Pior. Sou a me delas. Voc sabe o que isso significa. Nada de sexo, homens, intimidades, excepto com o pai delas.
      - Elas so adultas. Vo acabar entendendo.
      - Talvez. - Mas ele no a convencera. Ela conhecia as filhas.
      Eles estavam indo muitas vezes a Malibu nestes ltimos dias. O tempo estava quente, a praia estava divina, e ela adorava ficar na casa dele, ainda mais com 
sua companhia. Mesmo depois do choque inicial de ter dormido com Jack, Amanda ainda se sentia um pouco desconfortvel em sua prpria casa. Era mais fcil ficar na 
casa de Jack. E ela fazia o caf da manh todos os dias, antes que ele sasse para trabalho, e depois voltava para sua casa.
      Ela estava preparando ovos mexidos uma semana antes do Dia dos Namorados quando ele entrou na cozinha e surpreendeu-se ao v-la com um semblante tristonho.
      - Alguma coisa errada? - Ela era sempre to radiante pela manh, que Jack estranhou aquela expresso em seu rosto. Ele estava com o jornal debaixo do brao 
e parou para beij-la no meio do caminho para pegar o caf.
      - No sei... no ao certo... No me sinto bem. - Ela tivera uma dor de cabea no dia anterior, e estava se sentindo ligeiramente nauseada. Ultimamente, mesmo 
achando que isso nunca aconteceria com ela, comeou a reparar que seu corpo estava sofrendo mudanas. Os sinais eram sutis, mas mesmo assim ela notara e ficara tentando 
imaginar o que poderia ser. - Os filhos da Louise estavam gripados na semana passada quando fui visit-la. Provavelmente peguei a gripe deles. - Ela olhou para Jack 
por sobre o ombro e sorriu. - No  nenhuma doena terminal. Vou sobreviver.
      - Espero que sim - disse ele, parecendo mais alegre e relaxado quando passou para Amanda a caneca de caf. Ela a colocou na mesa e foi terminar de preparar 
os ovos e a torrada. Preparou uma salada de frutas para ele e mordiscou um pedao de torrada seca ao sentar  mesa, bebendo seu caf. Ao tomar um gole, o simples 
cheiro do caf fez com que enjoasse, e ele percebeu. - Voc est bem?
      - Estou. Mas acho que h algo errado com o caf. Ser que o p est velho?
      Ele balanou a cabea, negando, e ento pegou o jornal.
      - Acabei de comprar esse caf. Da mesma marca que sempre compro. Achei que voc gostava dele. - Ele ficou meio desapontado. Adorava agrad-la e fazia tudo 
o que podia para v-la feliz.
      - Normalmente, eu gosto. No devo estar bem. Mas estarei boa logo. - Mas, assim que ele saiu para o trabalho, ela se deitou, e ainda se sentia nauseada quando 
Jack voltou para casa mais tarde naquela manh. Ele ligou para ela e ofereceu-se para encontr-la em algum lugar para almoar, mas ela disse que achava melhor ficar 
deitada at a dor de cabea passar. E,  noite, quando Jack foi busc-la, Amanda estava se sentindo melhor. J estava ptima no dia seguinte. Era claro que tinha 
sido uma gripe. No terceiro dia, o caf estava delicioso, e ela estava radiante como sempre. Isso at o Dia dos Namorados, quando ele deu-lhe de presente uma caixa 
de bombons.
      - Bom Deus! Vou acabar pesando uns duzentos quilos se comer isto.
      - ptimo. Voc precisa mesmo de alguns quilinhos. - Ele mandara duas dzias de rosas vermelhas naquela manh, e a levaria para jantar no L'Orangerie, dizendo 
que no dava a mnima se seus filhos os vissem. Ele abriu a caixa de bombons para ela, que escolheu um dos que mais gostava. Mas, no momento em que o colocou na 
boca, no conseguiu com-lo at o fim. Ele viu aquela expresso em seu rosto, e levantou uma sobrancelha. - Voc est passando mal de novo? - Ela esteve bem durante 
toda a semana, mas, assim como o caf da semana anterior, o bombom fez com que ficasse nauseada.
      - Estou bem - assegurou e forou-se a comer o bombom. Mas, quando Jack pediu caviar no L'Orangerie, Amanda fez aquela cara de novo, e por mais que tentasse, 
no conseguiu engoli-lo, ainda que normalmente adorasse caviar.
      - Acho que deveria ir ao mdico. - Ele parecia preocupado. Amanda costumava ser to saudvel, to exuberante, que esse mal sbito o assustava mais do que poderia 
confessar.
      - Os filhos de Louise esto com esta virose j h trs semanas. Honestamente, no  nada. - Mas sua cor estava esverdeada e ela mal tocou na comida. 
      Apesar de sua preocupao, Jack teve uma ptima noite. Eles estavam bem-humorados, e acabaram dormindo na casa dela. Fizeram amor quando chegaram e aquele 
foi o melhor Dia dos Namorados que ela j tivera na vida.
      E, na manh seguinte, sentada  mesa da cozinha, ela finalmente concordou em contar tudo para os filhos.
      - Por que no dividir nossa felicidade com eles? - perguntou ele. O relacionamento deles era to maravilhoso que Jack queria que os filhos soubessem o que 
estavam sentindo.
      - Talvez voc esteja certo - concordou ela. - Eles j so bem grandinhos para saberem como lidar com isso.
      - Espero que sim. Ns somos avs, e se eles no conseguirem aceitar nossa relao, merecem ser espancados.
      Naquela tarde, Jack ligou para Julie, e Amanda ligou para Louise e para Jan para convid-las para jantar na casa de Amanda. Ela faria o jantar e, depois, regados 
a champanhe, eles contariam tudo. E ento, Jack lembrou bem, eles poderiam sair do anonimato e ir a qualquer lugar que desejassem. S queriam que os filhos soubessem 
que estavam felizes e apaixonados. Os dois nunca falaram em casamento, e Amanda sabia o quanto Jack era contra esta instituio. Sua primeira esposa o traumatizara 
para sempre.
      Marcaram a data do jantar para a semana seguinte, na qual, milagrosamente, todos estavam disponveis. Jack prometeu levar o champanhe, e Amanda se ocupou de 
organizar o jantar. Aquela era uma ocasio muito especial e comovente. E ela no pde deixar de pensar em Matt naquela tarde, e em como sua vida havia mudado. Ela 
o amara to profundamente por tantos anos, mas ele se fora, e ela, no. Sua vida mudara. E, mesmo sendo difcil de acreditar depois de tanto tempo, ela estava extremamente 
apaixonada por Jack Watson.
      Amanda trabalhou freneticamente durante toda a sema na organizando o jantar. Chegado o dia do evento, estava uma pilha de nervos. Mas, quando Jack chegou com 
o vinho a mesa j estava posta, o jantar pronto e Amanda tinha uma aparncia ptima.
      - Detesto ter que dizer isto, mas voc no parece me de ningum. Certamente no de um bando de crianas da idade que os nossos tm.
      - Obrigada - sorriu e beijou-o, sentindo seu desejo ao abra-la. Amanda riu quando Jack olhou para o relgio e depois para ela, o que a levou a fazer um movimento 
de negao com a cabea. - Ns no temos tempo, seu monstro.
      - Bem, se voc abrir a porta nua novamente, no teremos que dizer nada. Veja por este lado.
      - Mais tarde - prometeu ela, e o beijou de novo. S o facto de tocar nela o levava  loucura.
      Julie, Louise e os respectivos maridos chegaram na hora. Jan e Paul chegaram logo depois. Todos estavam bem-arrumados, e comentaram a respeito de a casa estar 
linda. Amanda colocara flores por toda a parte, o que emprestava uma aura de celebrao ao ambiente. Mas, tanto Jan quanto Louise ficaram bastante surpresas ao ver 
Jack l. Ele saiu da cozinha, abrindo uma garrafa de vinho, e cumprimentou a todos de longe; depois deu um beijo em Jan e em sua filha. Julie j captara tudo o que 
estava acontecendo por ali. Ela ficara se perguntando a semana toda por que ele a havia convidado para jantar na casa de Amanda, e ficou bastante desconfiada. Depois 
disso, no foi difcil deduzir, pelo menos para ela, o que os dois iriam contar para eles. Tudo o que queria saber era se eles iriam se casar, mas decidiu esperar 
e ver o que diriam.
      Jan tratou-o com frieza e Louise foi incisivamente rude, ignorando-o abertamente. E todos,  exceo de Julie, pareciam preocupados. Julie era adepta do lema 
"viva e deixe viver", o que sempre fez com que todos a amassem. Possua um casamento feliz, filhos ptimos, e sempre amara o pai, apesar de seu comportamento duvidoso. 
Paul sempre fora mais crtico com relao ao pai, e Julie suspeitava que isso era pura demonstrao de cimes. Paul era to mais meigo mas amedrontado, e, ainda 
que fosse bonito, nunca chegou perto da aparncia sensacional do pai. Ao sentar no sof da sala de estar de Amanda, Paul j estava furioso e comeou a trocar olhares 
de suspeita com a esposa.
      A conversa durante o jantar foi tensa, ainda que a comida estivesse ptima, e era bvio que Amanda estava passando por momentos de turbulncia. E Jack fez 
o melhor que pde para ajud-la, demonstrando tranquilidade ao falar com todos, tentando puxar assunto com eles, mas era como tentar arrastar um piano de cauda. 
E, finalmente, na sobremesa, ele serviu o champanhe, deu uma olhada em todos, e disse que havia algo que ele e Amanda gostariam de dizer.
      - Oh, Deus, no acredito - disse Louise em voz alta.
      - Por que no espera at ns acabarmos? - interveio Jack, com delicadeza, e ela lanou-lhe um olhar furioso. Jamais gostara dele. E nem Amanda... ela teria 
adorado lembrar isso  me naquele momento. - Sua me e eu - ele olhou para Jan e Louise, e depois para seus filhos -, Amanda e eu estamos saindo juntos h algum 
tempo. Gostamos muito da companhia um do outro, e estamos felizes assim, e gostaramos que vocs soubessem disto. S isso nada mais, mas achamos que vocs deveriam 
saber o que estava acontecendo entre ns e tnhamos certeza de que ficariam felizes por ns. - Ele sorriu para a mulher que trouxera tanta alegria para sua vida 
nestes ltimos dois meses e meio.
      - Bem, no estejam to certos - disse Louise, destilando seu veneno, e Amanda ficou ao mesmo tempo angustiada e atemorizada. - Isso  ridculo. Vocs nos trouxeram 
aqui para dizer isso? Que esto dormindo juntos, esperam que ns os parabenizemos por isso?  muito desagradvel.
      - Assim como a sua atitude, Louise - disse Amanda, com firmeza. -  algo extremamente rude de se dizer. - Ela deu um olhar pedindo desculpas a Jack, e voltou 
a olhar para a filha.
       - Isso  algo rude de se fazer - replicou Louise, em fria declarada. - Trazer-nos aqui, para a casa de meu pai, para contar que esto tendo um caso. Meu 
Deus, onde est a sua decncia, me? E quanto a papai?
      - Quanto a seu pai? - exclamou Amanda, olhando directamente para a filha. - Eu amei demais o seu pai, e voc sabe disso. Mas ele se foi, Louise. Foi um terrvel 
choque para todos ns, especialmente para mim. Houve momentos no ltimo ano em que pensei que no iria sobreviver, em que at quis me matar porque no queria viver 
sem ele. Mas tenho o direito de recomear minha vida, e Jack tem sido maravilhoso para mim. - Amanda chegou perto dele, tocou sua mo e dirigiu-lhe o olhar. Jack 
parecia chateado e preocupado. - Ele  um homem gentil, decente, e me faz muito feliz, Louise.
      - Por que voc no nos fala tambm de sua vida sexual, mame? E h quanto tempo isto j vem acontecendo? Comeou antes da morte de papai? Voc estava tendo 
um caso com ele j naquela poca?  isso?
      - Louise! Como se atreve a dizer uma coisa dessas?! Voc sabe que no  verdade. Comecei a sair com Jack depois que a Jan me levou a uma festa na Julie's.
      -- Oh, meu Deus... No posso acreditar... - Jan olhou Para a me e comeou a chorar, e Paul lanava olhares inflamados para o pai. Jerry, o marido de Louise, 
ficava olhando para o prato, e desejando no ter que estar ali. Aquilo no era problema seu.
      - Por que vocs no se acalmam por um minuto e comeam a agir como se todos fssemos pessoas adultas, hem? - Julie era a voz da razo, e Amanda ficou repentinamente 
grata a ela, ainda que mal a conhecesse.
      - Acho que esta  uma boa idia - disse Jack, durante a pequena brecha em que todos tentavam reorganizar suas foras. - Vamos tomar champanhe. - Ele serviu 
o champanhe para todos, e um silncio mortal inundou a sala. Ele pegou sua taa, e levantou um brinde  Amanda. - Para voc, querida, obrigado por este jantar maravilhoso. 
- Havia lgrimas nos olhos de Amanda, e ningum mais tocou em suas taas.
      - Ento, quando  que vocs vo se casar? - Louise olhava para eles com revolta e fria.
      - Ns no vamos nos casar. - Jack respondeu pelos dois. - No h razo para isso. No temos a idade de vocs, No planejamos ter filhos. Podemos levar uma 
vida agradvel juntos sem precisar oficializ-la legalmente. - Julie sorriu. Ela o conhecia bem e o quanto ele odiava at mesmo o conceito de casamento. - Ningum 
vai perder dinheiro com esse negcio, se  essa a preocupao de vocs. - Jack estava ficando bastante irritado com eles e Amanda percebeu isso em sua voz. - Ningum 
vai perder nada. Mas vocs ganharam pais felizes. Amamos vocs e queremos compartilhar nossa felicidade. No acho que seja pedir muito, que vocs se sintam felizes 
por ns, e que ajam com simpatia. - Ele ficou furioso com a reao deles.
      - Como voc pde fazer isso, me? - perguntou Jan com lgrimas escorrendo por seu rosto. - Voc odeia ele. - disse, fulminando Jack com o olhar. Ele riu, dando 
o brao para Amanda.
      - Acho que no, Jan. E ns nos preocupamos demais com sua felicidade e de Paul. Falamos de vocs o tempo todo... por isso  to importante para ns contar 
para voc. 
      - Bom, acho que vocs dois so deplorveis e patticos - disse Louise, levantando-se da cadeira. - Pessoas da idade de vocs no devem sair por a arriando 
as calas. Meu pai s est morto h um ano e, pelo que vejo, a velhinha transviada a no via a hora de sair para se divertir.
      - Louise! - Amanda levantou-se com fria nos olhos. - Voc se lembra de como eu fiquei deprimida, e o quanto vocs duas ficaram preocupadas comigo?
      - Mal sabamos o que voc faria quando se recuperasse. Bem - disse ela com desdm, lanando um olhar severo para o marido, que logo se postou a seu lado -, 
a noite foi bastante agradvel, e espero que os dois coelhinhos sejam muito felizes. - Com isso, Louise andou decididamente at  entrada, pegou seu casaco e bateu 
a porta, saindo, enquanto Jan voltava s lgrimas e Paul a abraava.
      - Jan, por favor - disse Amanda, com um olhar de tristeza. Aquela noite fora terrvel para todos eles, mas pior para Jack e para ela.
      - Me, como pde fazer isso? Por que nos contou? No imagina o quanto isso  constrangedor? No queremos saber nada.
      - Por que no? - perguntou Jack, sem pestanejar. - Por que sua me deve se privar de compartilhar sua vida com voc? Voc no quer v-la feliz? - Aquela frase 
pareceu to razovel que Jan olhou para ele e parou de chorar.
      - Por que ela no pode ser feliz sozinha, com a lembrana de papai?
      - Porque ela  jovem, cheia de vida e uma mulher linda, Jan. Por que deveria ficar sozinha?  o que voc faria se algo acontecesse a Paul?
      -  diferente.
      - Por qu? Porque voc  mais nova que ela? At as pessoas da nossa idade tm o direito de buscar uma companhia, de correr atrs da felicidade, do amor...
      - No se trata de amor - disse Paul, sombriamente. - Todos conhecemos voc, pai.
      - Talvez voc no me conhea to bem quanto pensa, filho.
      - Estou feliz por vocs, pai - disse Julie, calmamente e contornou a mesa para beij-lo, depois foi at Amanda e fez o mesmo. Ela agradeceu com lgrimas nos 
olhos, fora a nica a agir de maneira decente com eles. Os outros pareciam sados de um pesadelo.
      - Sinto muito que isto esteja sendo to difcil para voc - disse Amanda, com um tom de voz mais tranquilo e enxugando os olhos com o guardanapo. Ela sentia 
como se fosse comear a chorar copiosamente a qualquer momento, no queria dar a eles mais esta satisfao, o que era extrema mente difcil de segurar. - No queramos 
chatear vocs, pareceu mais honesto contar tudo. No queramos ter que mentir. - E olhou para Jan. No mesmo instante, Jan se deu conta de que Paul estivera certo 
com aquela sugesto absurda que dera no Ano-Novo. Havia um homem na casa. O pai dele. Ela fechou os olhos, horrorizada.
      - Esperamos que vocs se acostumem, com o tempo - disse Jack.
      Paul murmurou algo a Jan e os dois se levantaram e sa ram da mesa, indo colocar seus casacos.
      - Estamos indo - disse Jan, parecendo uma criana enraivecida ao olhar para eles j na porta. Era exactamente o modo como teria olhado aos cinco anos de idade, 
preparando um ataque de fria.
      - Amo voc - disse Amanda, com tristeza, muito sentida para se levantar ou para impedir a filha de ir embora. E a porta se fechou de leve atrs deles. Com 
isso, Julie e o marido se levantaram e ela foi novamente para perto do pai. Era uma garota bonita e parecia-se muito com ele.
      - Sinto muito, pai. Eles foram horrveis.
      - Foram mesmo. - Jack olhou para Amanda com uma expresso de preocupao no rosto. Ela havia previsto que seria difcil para eles, mas ningum poderia esperar 
um momento to violento como aquele.
      - As meninas vo acabar superando. Acho que essa reao foi causada pelo choque de saber que seu pai foi substitudo de alguma forma - ento ela riu -  difcil 
pensar em nossos pais se divertindo... e fazendo sexo. Ela enrubesceu. - O que esperamos de vocs  que sejam instituies, no pessoas - disse sabiamente, e o pai 
sorriu para ela com orgulho. Era uma jovem-mulher extraordinria. As outras tambm, mas no tinham a grandeza de esprito de Julie.
      - Acho que foi demais para eles. Voc estava certo. - Jack olhou para Amanda. - No deveramos ter contado nada.
      - Estou feliz que o tenhamos feito - disse ela, o que o surpreendeu totalmente. Ela saiu do lugar que ocupava  mesa e foi para perto dele, com Julie e o marido. 
- Fizemos a coisa certa, e se eles no podem viver com isso ou at mesmo tentar lidar com a situao, no  problema nosso. Temos direito a ser mais na vida do que 
apenas pais. A nica coisa que me incomoda  que nunca me dei conta de que tinha filhas to egostas. Mas no vou desistir da minha vida por causa delas. No deixarei 
de estar  sua disposio para o que precisarem, ou de am-las, e se no conseguem me apoiar num momento como esse, quem perde so elas. - Ento Julie a abraou 
e o queixo de Amanda tremeu quando retribuiu o abrao. Alguns minutos depois, Julie e o marido foram embora, e Jack pegou Amanda nos braos, o que a fez soluar, 
tomada por um sentimento de tristeza profunda. Ele sentiu muito por ela. A noite tinha sido muito frustrante.
      - Sinto muito, querida. Que bando de filhos horrveis ns temos - disse ele com um sorriso nos lbios. Sentia raiva deles por terem magoado Amanda. 
      - Os seus so legais, pelo menos Julie. As minhas duas  que so terrveis.
      .- Elas querem o pai de volta. E no acham que voc tem direito a viver com mais ningum por perto. Simples assim, no  nada pessoal. Compreendo. Mas odeio 
que faam isso com voc. Elas vo acabar superando.
      - Talvez. - Ela no parecia muito convencida, mas pelo menos aquela reao no fez com que se arrependesse de nada do que tinha feito. Aquilo tudo s a aproximou 
mais de Jack. Naquela noite, os dois foram para Malibu depois que Amanda arrumou a sala de jantar e colocou a loua na mquina de lavar. Ela no queria ficar na 
casa onde suas filhas tinham sido to desagradveis com eles. Queria ficar na casa de Jack, em sua cama enorme e confortvel, em seus braos, esquecendo de tudo 
o que havia acontecido.
      Ela ainda parecia estar triste quando foram para a cama naquela noite. Ele aninhou-a em seus braos, e os dois ficaram conversando durante um bom tempo sobre 
tudo aquilo. Ele desejava que houvesse uma maneira de amenizar a situao.
      - D tempo a eles, querida. Acho que, mesmo na idade deles, nossa relao representa um grande ajuste que tero que fazer em suas cabeas.
      - Elas so felizes. Por que no posso ser tambm?
      - Porque  a me delas. Voc ouviu o que Julie disse. No se espera que os pais, e certas pessoas na nossa idade, faam sexo, Deus me perdoe. Eles acham isso 
deplorvel.
      - Se eles soubessem...  muito melhor do que na idade deles.
      - Shhh... vamos manter isso em segredo! - disse Jack e beijou-a com ternura. No momento seguinte, Amanda pde sentir como ele estava excitado e o quanto a 
desejava. Ela tambm o queria com a mesma intensidade. Fizeram amor vorazmente e, depois, ele ouviu um risinho de leve na escurido. - Do que est rindo? - Mas ficou 
contente por perceber que, obviamente, ela estava se sentindo melhor.
      - Naquela manh do Ano-Novo, quando Jan me viu pelada na porta e em que eu no a deixei entrar. Ela deve estar colocando os pingos nos is. Acho que fiquei 
parecendo uma idiota.
      - Voc parecia muito bem, na minha opinio... "idiota" no seria a palavra que eu usaria para descrever voc. - ela fora uma boba naquele dia, e ambos sabiam 
disso.
       Ela entrara em pnico total.
       . - Talvez devssemos oferecer as crianas em adoo - disse, sonolentamente, virando de lado, de frente para ele, ao que ele lhe deu um beijo.
      - ptima idia. Vamos convid-los para jantar e contamos a eles.
      - Hummmm... boa idia... voc traz o champanhe... - Mas ela j estava dormindo em seus braos assim que acabou de dizer isto, e Jack olhou para ela com um 
sorriso. Amanda era uma mulher e tanto, e ele no desistiria desse amor por nada no mundo, no importa o que os filhos dissessem, se ficassem com raiva ou no. Ele 
iria se agarrar a ela com toda sua fora.
      

      
      
      
     Captulo Oito
      
      O resto do ms de fevereiro passou num piscar de olhos. At maro, as meninas ainda estavam frias com Amanda. Ela e Jack conversavam sobre isso de tempos em 
tempos, e ele sabia o quanto aquilo a chateava. Mas no havia nada que pudessem fazer, excepto esperar que os procurassem assim que conseguissem aceitar a situao. 
Jan quase no ligou mais para a me. Louise era acintosamente hostil sempre que Amanda ia visitar os netos. No caso de Louise, essa reao era difcil de se entender, 
j que ela nunca se dera bem com o pai.
      Mas Amanda e Jack andavam to ocupados naqueles dias Que, na maior parte do tempo, ela ficava distrada com outras coisas. S que no havia como negar que 
a reao das filhas era um preo muito alto que vinha pagando. Ela parecia ter dores de estmago o dia inteiro, e muitas vezes at a indegesto. E Jack continuava 
insistindo para que fosse ao mdico.
      - J vem acontecendo h algum tempo. Acho que voc deveria ser examinada.  possvel que esteja a desenvolver uma lcera.
      - Pode ser. - Ela no conseguia beber caf h semanas e sentia um cansao enorme, desde o infeliz encontro com as filhas. Mas achava que isso se devia mais 
s suas prprias emoes. Amanda odiara v-las to enraivecidas. E, de vez em quando, tinha pesadelos com Matthew. Ele sempre a acusava de alguma forma. Qualquer 
psiquiatra teria dito que ela se sentia culpada. Mas nada disso era suficiente para mudar seus sentimentos. Ela estava mais apaixonada por Jack do que nunca. E o 
romance ia de vento em popa.
      Ele a convidou para assistir  entrega do Oscar em maro. A Academia adiantou a data da cerimnia este ano. Jack era sempre convidado por seus clientes mais 
importantes. Amanda no comparecia h anos, desde que fora premiada, e ficou excitada com a possibilidade de ir com Jack. Ele encomendou um vestido para ela da Julie's. 
Era um Jean-Louis Scherrer de cetim branco enfeitado com paets negros nos ombros e uma pequena cauda que se prolongava elegantemente. Quando chegou a grande noite 
e Jack foi buscar Amanda, a viso que teve chegou a tirar-lhe o flego. Ela parecia uma rainha da cabea aos ps, a grande estrela de cinema que um dia fora. Era 
como se, com ele, Amanda tivesse recuperado o que havia sido um dia, e acrescentado algo mais. Nos ltimos meses, ela adicionara uma camada de felicidade ao seu 
antigo glamour.
      - Uau! - exclamou ele, em admirao. O vestido no parecera nem metade to bonito quando o vira pela primeira vez. Em Amanda parecia ainda mais requintado, 
moldando cada polegada de sua maravilhosa silhueta. Seus cabelos longos e loiros estavam arrumados no alto da cabea em leves cachos, fazendo um estilo francs. 
E ela usava brincos e pulseiras de diamante. Estava esplndida. - Voc est incrvel! - disse Jack, assoviando baixinho. Sua pele era to plida quanto o branco 
do cetim. - Os fotgrafos vo enlouquecer.
      - Duvido muito - disse ela, com modstia, e deu o brao a Jack, indo juntos at a limusine. Ele estava carregando o pequeno casaco de pele branco de Amanda.
      Quando os dois saram do carro na porta do Shrine Auditorium, a multido aplaudiu Amanda. Eles a reconheceram imediatamente e gritaram seu nome. Assim como 
Jack previra, uma parede de fotgrafos os engoliu. Ele pde sentir a mo dela tremendo um pouco, o que o fez sorrir para ela. Seu marido a mantivera longe dali por 
mais de vinte anos e agora, de repente, ela estava de volta, s que desacostumada com aquilo. A elegncia e a graa de Amanda naquele momento faziam com que ficasse 
ainda mais atraente.
      - Voc est bem? - perguntou ele, olhando-a com preocupao. Ela parecia um pouco nervosa, mas deu um sorriso e negou com a cabea.
      Conseguiram se livrar da imprensa e da multido reunida na entrada e foram ocupar seus lugares no auditrio, no meio de todas aquelas estrelas que o pas inteiro 
e o mundo todo adorava e ansiava ver. Vrias pessoas os cumprimentaram e Jack sorriu para muitos de seus clientes. Ele parecia muito orgulhoso e  vontade, completamente 
confortvel por estar ali.
      A cerimnia comeou e, como sempre, demorou uma eternidade. As cmeras de TV passavam por eles constantemente e, no final, todos tinham a impresso de ter 
ficado um ano inteiro ali naquele auditrio. Este ano, o Oscar para melhor actor foi dado a um estreante, e o de melhor actriz foi para uma veterana, a grande favorita, 
que segurou a estatueta no alto e deu um grito de alegria enquanto todos se levantavam e a ovacionavam.
      - At que enfim! - exclamou, com um sorriso enorme no rosto. Ela esperara quarenta anos para ser premiada. E no pde deixar de lembrar de como se sentira 
h trinta anos, numa noite como essa. Foi uma das coisas mais excitantes que J acontecera em sua vida. Agora, tudo parecia to distante, mas ainda uma lembrana 
vvida, embora muito menos importante.
      - Como foi a sensao de ser premiada? - Jack perguntou a ela com um sorriso, enquanto eles deixavam o auditrio no meio de uma multido que mal parecia se 
mover, Era pior do que andar no metro de Nova York.
      - Foi incrvel - respondeu, retribuindo o sorriso. -, Pensei que ia explodir de to excitada que fiquei. Nunca poderia imaginar que seria sequer indicada, 
quanto mais que ganharia o prmio. Eu estava com vinte e dois anos... foi maravilhoso. - Era bom poder admitir o quanto aquilo significara para ela. Seu marido jamais 
gostara de falar a respeito.
      Dez minutos depois, mal tinham andado trs metros e as pessoas continuavam vindo at eles, para conversar e comentar sobre as premiaes, ou apenas para dizer 
oi, enquanto todos aguardavam para sair do teatro. A imprensa estava dificultando tudo, parando as estrelas na sada e entrevistando-as no meio da multido, criando 
engarrafamentos quase impossveis de transpor.
      - Voc acha que conseguiremos sair daqui hoje  noite? - Jack Nicholson perguntou ao cruzarem com ele. Amanda balanou a cabea com um sorriso. Ela nunca fora 
apresentada a ele, mas era uma grande admiradora.
      - Voc o conhece? - perguntou Jack, demonstrando interesse.
      - No. Mas adoro seus filmes.
      - Podemos alugar um filme estrelado por voc algum dia desses - disse. Nunca tinha pensado nisto antes. Ela falava muito pouco de sua carreira. Matthew a ensinara 
a no faz-lo.
      - Seria deprimente. - Amanda riu. - No consigo pensar em nada pior do que ver como eu era h trinta anos e depois me olhar no espelho. Alm disso, eu no 
era uma actriz to boa assim.
      Jack balanou a cabea em desaprovao  sua modstia. Conseguiram andar alguns centmetros at que ficaram mais uma vez presos no lugar. O calor e a multido 
ao redor comeavam a se tornar opressivos. Amanda parecia que ia derreter. Dava para imaginar como Jack se sentia dentro do smoking. Mas, apesar do desconforto, 
as pessoas estavam de bom humor, rindo, falando e acenando para os amigos dos quais no conseguiam se aproximar. Quando Jack viu um de seus clientes favoritos, a 
uns seis metros deles, Amanda comeou a passar mal. Jack gritava fragmentos de uma conversa, apontava para as sadas e dava sinais de impacincia. Amanda ento ouviu 
um zumbido e sua cabea comeou a latejar. Mas Jack no notou nada. Depois de algum tempo, ela deu um puxo na manga do smoking e, ao olhar para ela, Jack ficou 
surpreso ao ver que se tornara extremamente plida em poucos minutos.
      - No estou me sentindo muito bem - murmurou para ele. - Est to quente aqui... Sinto muito...
      - Voc quer se sentar? - Ele no podia culp-la. Aquela situao estava provocando uma dor de cabea nele tambm, e as luzes das cmeras ainda viradas em sua 
direco no ajudavam muito. O calor estava realmente opressivo. Era quase impossvel voltar para as poltronas. Eles estavam presos nas laterais e s poderiam chegar 
l se fossem voando. Jack percebeu isso assim que acabou de formular a pergunta. Quando olhou para o rosto de Amanda de novo, ela no estava mais somente plida; 
estava verde, e piscava como se estivesse com problemas de viso. Jack pegou firmemente em seu brao e tentou tir-la de onde estavam, ali no meio da multido, mas 
sua tentativa foi intil.
      - Jack... - disse ela, sentindo-se cada vez mais fraca e tentando fixar o olhar nele. Assim que Jack virou em sua direco, suas Plpebras trepidaram, os olhos 
reviraram e ela desmaiou. Ele conseguiu segur-la enquanto a multido comeava a se agitar, provocando um burburinho. Uma mulher deu um gritinho sufocado ao ver 
o que estava acontecendo. Jack segurou Amanda em seus braos. Algum comeou a gritar. As pessoas tentavam se afastar deles, perguntando o que tinha acontecido. 
Jack estava morrendo de preocupao.
      - Nos dem um pouco de ar, por favor... afastem-se! -. gritava um homem atrs deles. - Chamem os paramdicos! - De repente, a histeria tomou conta dos que 
estavam ao redor. Amanda ainda jazia inerte em seus braos. Ele levantou-a no colo e a cabea de Amanda ficou apoiada em seu peito. Nesta hora, dois porteiros surgiram, 
como que por encanto, com sal e um saco de gelo, querendo saber exactamente o que estava acontecendo. Mas, no mesmo instante, Amanda comeou a se mexer, e olhou 
para Jack confusa, sem saber o que havia acontecido.
      - Voc desmaiou, querida...  o calor... fique calma... - E, assim como o mar Vermelho, aquele grupo de pessoas se abriu, movendo-se o suficiente para permitir 
que ele a carregasse at uma fileira de cadeiras, onde a colocou delicadamente. Em alguns segundos, uma equipe de paramdicos chegou e se aproximou de Amanda, enquanto 
Jack explicava que ela havia desmaiado.
      - Como se sente agora? - perguntou um dos paramdicos.
      - Incrivelmente tola - respondeu Amanda, sorrindo sem foras para Jack, com um olhar de quem pede desculpas. - Sinto muito.
      - No seja boba - disse ele, preocupado. Ela ainda estava visivelmente tonta. No parecia que conseguiria se levantar e sair do teatro andando, mas queria 
tentar.
      - Vou pegar uma cadeira de rodas - ofereceu um dos porteiros e Amanda fez uma cara de horror.
      - No, mesmo... Estou bem... Sairemos daqui quando a multido tiver dispersado um pouco.
      Mas o porteiro sugeriu lev-la para uma sada nos fundos. Jack agradeceu e implorou para que fossem logo. O paramdico garantiu que ela poderia sair, se estivesse 
bem, mas sugeriu que fosse a um mdico pela manh. Jack reforou essa ordem com uma expresso severa. Ele vinha insistindo para que ela fosse a um mdico h um ms, 
mas Amanda no lhe dava ateno.
      Jack colocou o brao fortemente na cintura dela, servindo de apoio, enquanto se dirigiam  sada junto com os porteiros. Em poucos instantes estavam do lado 
de fora, podendo respirar direito. S assim Amanda pde se sentir melhor. Ela inspirou profundamente e agradeceu a todos, desculpando-se pelo trabalho que causara. 
Sentiu-se bastante aliviada pelo facto de no ter sido fotografada por ningum da imprensa. No havia qualquer pessoa esperando por eles ali fora, e Jack deixou-a 
com os porteiros o tempo suficiente para achar a limusine. Voltou logo que pde e colocou Amanda para dentro do carro. Cinco minutos depois, j estavam indo para 
casa, e ela se deixou afundar no banco com uma expresso de cansao extremo.
      - Sinto tanto - disse ela, pela milsima vez. - No sei o que aconteceu.
      -  por isso que voc tem que ir ao mdico.
      - Acho que foram o calor e a multido. De repente, no consegui respirar - disse ela, sorvendo um copo de gua que Jack pegara do bar da limusine. - As pessoas 
sempre desmaiam na entrega do Oscar, Jack. Sinto muito que este ano tenha sido eu.
      - Bem, no faa mais isso! - Jack se inclinou para beij-la. Amanda ainda estava linda, mas muito plida. E ele estava muito preocupado. - Voc me assustou 
mesmo l dentro. O bom de haver tanta gente ali foi evitar que voc casse no cho ao desmaiar. Pelo menos no bateu com a cabea ou coisa assim.
      - Obrigada, Jack. - Ele cuidava muito bem dela. E quando os dois voltaram para casa, Amanda tirou o vestido, e Jack a colocou na cama. Ela parecia uma adolescente 
com aquele penteado magnfico em seus cabelos loiros, com aqueles brincos de diamante e ainda maquiada. Ento ela deu uma risada. - No acredito que fiz isso.
      - Foi muito dramtico - ralhou ele, afrouxando a gravata e sorrindo para ela. - Quer que eu pegue alguma coisa para voc? gua? Ch? - Ela franziu as sobrancelhas 
ao pensar no que iria pedir e de repente abriu um sorriso. Estava morrendo de fome.
      - Que tal um sorvete?
      - Sorvete? - Ele ficou espantado com o pedido. - Voc deve estar se sentindo bem melhor. Vou ver se tenho sorvete aqui em casa. Que sabor?
      - Ha... Caf.
      -  pra j! - Ele fez uma continncia e voltou dois minutos depois com um pote cheio. Preparou um para ele tambm e sentou-se na cama ao seu lado enquanto 
tomavam o sorvete. - Talvez voc s estivesse com fome - disse Jack, esperando que fosse apenas isso, mas sem acreditar muito no que dizia. Ela estava plida h 
alguns dias, mas Jack fingia no perceber. Ela estivera bem por um tempo, s que, ultimamente, parecia cansada. E ele sabia que Amanda ainda estava chateada com 
as filhas, o que no ajudavam em nada  sua sade. Elas se recusavam a reconhecer, quanto mais a aceitar, o relacionamento da me com Jack Watson.
      Mas Jack resolveu assumir as rdeas da situao e tomou uma atitude para resolver de uma vez o problema de sade de Amanda. Assim que levantou, no dia seguinte, 
pegou o telefone e ligou para o mdico dela. Contou  enfermeira o que acontecera na noite anterior, e pediu para marcar uma consulta para aquela manh mesmo, em 
nome de Amanda Kingston.
      - E voc ? - perguntou a enfermeira, directamente. Ela era nova ali e no conhecia Amanda.
      - Sr. Watson - respondeu ele, anotando a hora da consulta num papel.
      - Voc  o marido da Sra. Kingston?
      - No... Sou amigo dela. Irei  consulta para acompanh-la.
      - Muito bem, Sr. Watson. Esperamos vocs aqui s onze horas. - O consultrio ficava em Beverly Hills. Depois de levar um copo de ch para Amanda, e de informar 
sobre o horrio da consulta, Jack decidiu sair para dar uma volta na praia sozinho. Amanda parecia estar gostando de ficar na cama naquela manh, e Jack suspeitou 
que ela no se sentia to bem quanto estava demonstrando. E estava certo. Mas resolveu no discutir. Eles tinham a esperana de descobrir o que estava acontecendo 
quando fossem ao mdico.
      Mas, enquanto andava na praia sozinho, seus pensamentos pareceram voar em todas as direces, e Jack comeou a correr, como se quisesse escapar das coisas 
terrveis que estava imaginando. Tudo era possvel... ela poderia ter um tumor no crebro... cncer nos ossos... algo que tivesse crescido e se espalhado em metstases 
sem que eles nem soubessem que estava l. Ele s conseguia imaginar as piores coisas, e quando finalmente parou de correr e se sentou, percebeu que chorava. Estava 
acontecendo tudo de novo. Ele encontrara uma mulher em milhes que poderia amar e algo terrvel estava se passando com ela. Temia que ela estivesse morrendo. Seria 
igual a Dori, pensou enquanto soluava. Iria perd-la e seria impossvel aguentar. Ele colocou o rosto entre os joelhos e ficou ali debruado, chorando como uma 
criana, sem ter condies de voltar para confort-la. Jack no queria assustar Amanda, mas, acima de tudo, no queria perd-la.
      Ele j estava na praia h quase uma hora. Quando voltou, Amanda o aguardava. Parecia melhor do que estivera mais cedo, mas Jack ainda estava preocupado. Nada 
iria consol-lo agora, excepto a palavra de um mdico garantindo que ela no sofria de nada terminal ou maligno. Ele no poderia aguentar. Falou com ela numa alegria 
forada enquanto vestia o casaco e olhava o relgio. Era hora de ir, pois podiam pegar algum engarrafamento.
      - Tudo pronto? - perguntou Jack, nervoso. Ele no sabia porqu, mas sentia como se estivessem indo para a forca. Era como se sua vida nunca mais voltasse a 
ser a mesma; como se nunca mais fosse voltar para esta casa com a mesma tranquilidade. Estava se preparando para as piores notcias imaginveis, porque a amava.
      - Querido - disse Amanda gentilmente antes de sarem, olhando para Jack com um olhar que cortou seu corao. - Estou ptima. Juro. Eles provavelmente diro 
que tenho uma lcera. Tive uma h alguns anos, quando as meninas eram pequenas, e hoje em dia  muito fcil lidar com isso. Alguns comprimidos e ela desaparece como 
num passe de mgica.
      - Voc j deveria ter ido ao mdico h semanas - repreendeu Jack, enquanto andavam em direco  Ferrari.
      - Eu estava ocupada - respondeu ela, num tom formal, e entrou no carro. Ela adorava andar na Ferrari, mas naquela manh, a caminho da cidade, as curvas rpidas 
e os movimentos bruscos fizeram-na enjoar. De modo algum deixou que Jack percebesse, pois que ele teria ficado ainda mais preocupado.
      O consultrio ficava no centro mdico na North Bedford, 435. A sala de espera estava cheia quando chegaram, e parecia que levaria horas at que fossem atendidos. 
Jack leu revistas e Amanda ficou apenas sentada ali, com os olhos fechados, esperando. Ele olhava para ela de vez em quando e odiava ver aquela palidez e a bvia 
aparncia de desconforto. Sabia que Amanda no estava sentindo dores, pois perguntou-lhe isso e ela respondeu que simplesmente no se sentia bem. E no havia mais 
como tentar sustentar aquela histria de ter pegado o resfriado dos filhos de Louise, o que fazia mais de um ms. O que quer que fosse, parecia ser algo muito mais 
assustador.
      Uma enfermeira veio at  porta e finalmente chamou Amanda. Jack observou enquanto ela entrava, e sorriu com um olhar encorajador quando ela se virou e o encarou 
por sobre o ombro. Tambm estava nervosa, mas os dois sempre tentavam disfarar o nervosismo adotando uma postura tranquila. Mas nenhum dos dois conseguia ser muito 
convincente.
      Amanda tinha de admitir que era um alvio finalmente ficar frente a frente com o mdico. Ele era gentil e tinha um rosto bastante familiar. Amanda era sua 
cliente h mais de vinte anos. Tambm fora mdico de Matt, e perguntou se ela se sentia muito sozinha agora. Amanda ficou constrangida com a idia de contar a respeito 
de Jack, mesmo ele estando logo ali na sala de espera. Ento, simplesmente balanou a cabea em negao e partiu para a descrio dos sintomas. Contou da gripe que 
tivera um ms antes, dos enjos ocasionais e da incapacidade absoluta de comer chocolate ou de tomar caf, sinais que ela deduzira como sendo uma evidncia clara 
de lcera.
      O mdico perguntou se Amanda tinha ido ao ginecologista recentemente, feito uma mamografia e um exame de Papanicolau, e ela admitiu que no. Estava para fazer 
esses exames quando Matt morreu, to repentinamente, que no pensou mais neles desde ento.
      - Voc deveria fazer, e sabe disso - o mdico lhe disse, categrico. - Na sua idade, deveria fazer todo ano. - Ela prometeu que ia cuidar disso imediatamente. 
Ento, ele perguntou se Amanda via qualquer sinal que indicasse a menopausa. Ela explicou que vinha observando alguns sinais nos ltimos tempos.
      Aos cinquenta anos, aquilo no o surpreendia.
      - Calores?
      - No. Ainda no. Apenas muito cansao. E a menstruao anda irregular. - Muitas amigas reclamavam de fadiga o tempo todo, ainda que Amanda nunca tivesse se 
sentido assim antes. Mas, ultimamente, ficava exausta o tempo todo. De incio, pensara que era um efeito de sua nova vida amorosa. Mas, nas ltimas semanas, duvidou 
que fosse isso. Mal podia colocar um p na frente do outro.
      O mdico perguntou vrias outras coisas, e acabou concordando com ela. Provavelmente aquilo era o incio da menopausa, ou quem sabe uma lcera.
      - Vou mandar voc para o hospital para fazer uma ultra-sonografia - explicou a ela. - Vamos ver o que a ultra vai mostrar. Depois disso, se houver indicao 
clnica, podemos fazer uma srie de exames, mas no vamos nos precipitar ainda. Quero que voc v a seu ginecologista amanh. Ele pode receitar algum tratamento 
de reposio hormonal para colocar seu organismo em ordem quase imediatamente. Vale a pena conversar com ele. - Amanda ouviu e concordou com um movimento de cabea. 
O mdico entregou um pedao de papel e disse exactamente em que departamento do Hospital Cedars Sinai ela deveria ir. Informou que, ou eles dariam o resultado l 
mesmo, se o radiologista estivesse de planto, ou ele ligaria para ela no dia seguinte para dizer se estava mesmo com lcera. - Tudo bem? - O mdico sorriu para 
Amanda e levantou-se, levando-a at a porta do consultrio. Ela foi ao encontro de Jack, que parecia irritado de tanto esperar. Mas, mesmo assim, abriu um sorriso 
no minuto em que a viu. Parecia uma criana que se perdera da me e que finalmente a encontrara. Ela ficara l dentro quase uma hora.
      - O que ele disse?
      - Quase tudo o que eu j imaginava. Algumas... mudanas em meu corpo... e talvez uma lcera. Tenho de ir ao hospital para fazer uma ultra-sonografia agora. 
Voc quer que eu o deixe na loja no caminho? Odeio fazer voc perder o dia inteiro por causa dessa besteira. O mdico demorou.
      - Vou com voc - disse Jack, com firmeza, e ficou aliviado porque nada pior fora detectado, pelo menos no at agora. - Ele acha que no h nada com que se 
preocupar? - perguntou, ao chegarem ao carro, e Amanda fez que no com a cabea, parecendo um pouco triste.
      - Ele acha que posso estar precisando de uns hormnios. Isso  to deprimente. Sinto-me uma velha.
      - Oh, querida... que  isso... Voc  um beb. - Jack sempre fazia com que Amanda se sentisse melhor, e sorriu envergonhada ao se sentar no banco do carona 
da Ferrari. Jack seguiu pela North Bedford em direco ao Cedars Sinai.
      J no hospital, tiveram que esperar bastante tempo de novo. Quando finalmente a chamaram, Jack decidiu entrar com ela desta vez. No gostava de hospitais, 
nem de ficarem mexendo nela sem uma pessoa por perto para supervisionar. Uma tcnica de ultra-som j explicara a eles que no havia nada de traumtico naquele exame. 
Eles colocariam um gel em seu abdmen e rolariam um aparelho na superfcie, o que faria com que uma imagem aparecesse na tela. Esta imagem poderia mostrar a presena 
ou no de um tumor ou de cistos, ou at mesmo uma lcera. Parecia um procedimento bastante simples. Mas mesmo assim Jack ainda fazia questo de ficar ao lado dela.
      Amanda se despiu atrs de um biombo e saiu vestida com um roupo branco e de sapatos. Sentia-se uma idiota. Jack sorriu para ela enquanto se deitava. Ele foi 
colocado num banco bem atrs da cabea de Amanda, de onde podia ver a tela tambm, embora tudo o que ele via era algo como um mapa meteorolgico de Atlanta. O gel 
foi aplicado e a tcnica comeou a rolar pelo estmago um aparelho que parecia um microfone, fazendo uma suave presso. Tudo o que sentia era frio. Todo aquele processo 
era bastante entediante. Neste momento, ambos viram a tcnica franzir o cenho concentrar numa rea na parte baixa de seu estmago. A passagem do aparelho gerou uma 
pequena sensao de desconforto, em Amanda e a tcnica ficou insistindo no movimento localizado. Ento, pediu licena e disse que voltaria logo, indo chamar algum 
para checar a imagem junto com ela. Foi ento que surgiu um jovem residente, que se apresentou a eles e depois olhou para a ultra com interesse.
      - Algo de errado? - perguntou Amanda, tentando aparentar uma calma que no existia. Estava comeando a entrar em pnico. Era fcil ver que eles tinham notado 
algo que os preocupara ou que pelo menos os deixara perplexos. Mas o residente pareceu indiferente ao responder.
      - De forma alguma. S queremos ter certeza do que vemos. Quatro olhos so mais eficazes do que dois, s vezes, mas acho que temos uma situao bastante clara 
aqui. Quando foi a sua ltima menstruao, Sra. Kingston?
      - Dois meses atrs - respondeu ela, com voz sufocada, Obviamente havia algo de errado com seus ovrios... ou seu tero... no era menopausa... era cncer... 
Ela no conseguiu olhar para Jack ao responder, mas o residente balanou a cabea.
      - Parece mais do que normal - completou, ainda balanando a cabea, e ento deu um zoom na tela da ultra para ter uma viso mais aproximada, apertou um boto 
e um asterisco branco apareceu em cima de algo que estava palpitando. - Aqui. - Ele apontou para o asterisco com o dedo e sorriu para eles. - Vocs conseguem ver? 
- Ela negou, e Jack ficou olhando para a tela sem conseguir enxergar. Claramente, ali estava o cerne da questo. - Vocs sabem o que  isso, Sr. e Sra. Kingston? 
- Na idade deles ficara bvio para o residente que os dois eram casados. Por que mais estariam juntos?
      - Um tumor? - perguntou Amanda, com a voz rouca, ao que Jack fechou os olhos com horror.
      - Um beb. Diria que voc est grvida de dois meses. Na verdade, se voc esperar alguns minutos, posso calcular a data prevista para o nascimento.
      - O qu? - Ela sentou-se como um raio e derrubou o aparelho que estava em seu estmago. - Eu estou o qu? - Amanda se virou para olhar para Jack e na mesma 
hora ouviu um barulho logo atrs, ainda dando tempo de v-lo deslizar do banco onde estivera sentado directo para o cho. Ele desmaiara. - Oh, meu Deus... Eu o matei... 
algum o ajude! - Suas ndegas descobertas ficaram ainda mais  mostra quando ela se inclinou sobre ele. Jack emitiu um gemido horrvel e colocou a mo na cabea 
ao se mexer. O residente apertou o boto de emergncia e um time de paramdicos veio correndo. Jack j recuperara totalmente a conscincia e Amanda pde sentir o 
ovo na parte de trs da cabea dele quando se ajoelhou ao seu lado. - Oh, Deus... Sinto muito... Voc est bem?... - O residente ordenou que os paramdicos fossem 
embora e saiu para pegar um saco de gelo. Jack se levantou e sentou-se vagarosamente.
      - Estou bem. S estava tentando cometer suicdio,  tudo. Por que voc me impediu?
      - Acho que isto foi uma surpresa para vocs - sorriu o residente. - Isso acontece algumas vezes, principalmente numa gravidez tardia.
      - Tardia? - Amanda virou-se para olhar para ele. - Eu achei que o show tivesse acabado.
      - Voc achou que o que estava sentindo eram os sinais da menopausa? - perguntou. Amanda fez que sim e foi ajudar Jack a ir para a maca. Ele deitou e ela aplicou 
o saco de gelo que a tcnica trouxera para eles.
      - Acha que ele sofreu uma concusso? - perguntou, ocupada, mas o mdico iluminou os olhos de Jack com a lanterninha e assegurou que no.
      - Voc tem sorte de eu no ter sofrido um ataque cardaco - disse Jack para Amanda. - Como isso foi acontecer? - Mas ambos sabiam. Eles pararam de usar camisinha 
em janeiro, depois do resultado do teste de AIDS dele. Amanda estava certa de que jamais engravidaria novamente. Nunca passou pela sua cabea que pudesse acontecer. 
- No consigo acreditar - Jack gemeu de novo e fechou os olhos. Estava com uma dor de cabea inacreditvel.
      - Nem eu - disse Amanda, baixinho, olhando para a imagem congelada na tela, que vinha a ser seu beb. A data "3 de outubro" apareceu na tela de repente.
      - Esta  a data provvel para o nascimento - disse o residente, todo contente, e Jack sentiu um desejo irresistvel de mat-lo. - Ns mandaremos um laudo para 
o seu mdico. Parabns! - E, com isso, ele saiu da sala para atender outro paciente. A tcnica entregou-lhes uma foto impressa pela mquina.
      - Esta  a primeira foto do seu beb. - Ela sorriu para os dois e comeou a preparar o equipamento para o prximo paciente. Eles precisavam da sala, o que 
fez com que Jack se levantasse calmamente, olhando para Amanda.
      - No acredito - disse ele, com voz rouca. Ele parecia pior do que ela. Amanda se sentia muito melhor ao saber pelo menos que no tinha cncer, ou mesmo uma 
lcera Apenas um beb.
      - Tambm no acredito - olhou para ele, constrangida. - Vou me vestir. - Estava de volta em um minuto e andaram vagarosamente para fora da sala, ainda carregando 
o saco com as pedras de gelo. Jack parecia o paciente. Nenhum dos dois disse uma palavra at chegarem ao exterior. Ento Jack parou e olhou para Amanda. Ele sentia 
como se toda a sua vida estivesse passando na sua frente. J acontecera antes, mas no desse jeito, no com uma mulher com a qual se preocupava tanto e por quem 
tinha tanto carinho, nem de uma maneira totalmente inesperada como essa. Aos trinta anos voc sabia que teria problemas se no tomasse cuidado. Mas aos cinquenta 
e um?
      - Jesus. - No acredito que estou grvida. - Ela ainda segurava a foto e ele percebeu.
      - Jogue isso fora. Me d medo. - A pequena coisa que estava palpitando era o corao do beb, e o doutor dissera que o fecto era saudvel. Amanda agarrou a 
foto e ficou olhando para ela ao se sentar na Ferrari. - Voc quer ir a algum lugar e conversar? Ou quer ir para casa e tentar assimilar isto? - Ele sabia que este 
seria um grande passo para ela e sentia muito. Era uma pena que tivesse acontecido com ele. Mas, no final, talvez servisse para aproxim-los mais ainda, pelo menos 
assim ele esperava. E planejava estar l ao lado dela para o que precisasse.
      - Voc tem que ir trabalhar?
      - Provavelmente. Mas se voc quer conversar, ligarei para Gladdie.  melhor que voc ligue para seu mdico. - Ela concordou enquanto ele ligava o carro e telefonava 
para Gladdie.
      - No sei o que dizer - falou Amanda, com tranquilidade, olhando para ele. Aquilo era aterrador e surpreendente. No conseguia nem pensar ainda em todas as 
implicaes que aquilo acarretaria.
      -  culpa minha - disse ele, taciturno. - Eu deveria ter tomado cuidado. Estava to feliz de me ver livre daquelas coisas horrorosas depois de todos esses 
anos, que acho que me deixei levar... e fiquei um tanto estpido.
      - Nunca pensei que isso pudesse acontecer - disse ela, ainda em choque.
      - . Gravidez de adolescente descuidada depois dos cinquenta - sorriu para ela ao dizer isso e se inclinou para beij-la. - Eu amo voc. Estou feliz que esteja 
tudo bem e que no tenha havido nada pior. - Ele ficara aliviado com resultado, mas sentia muita pena dela. - Pelo menos  uma coisa que pode ser consertada - disse, 
tentando apazigu-la, no momento em que pararam no sinal. Amanda olhou para ele meio confusa.
      - O que isso significa? - Sua voz saiu muito baixa e tensa ao fazer a pergunta.
      - Bem, voc no vai levar esta gravidez adiante, na sua idade.  ridculo. E, alm do mais, nenhum de ns quer mais filhos. O que faramos com um beb?
      - O que o resto das pessoas fazem?
      - Em geral elas tm vinte anos a menos do que ns, e so casadas. - Quando Jack olhou para o rosto de Amanda, reagiu bruscamente, parando o carro no acostamento. 
- Voc est me dizendo que quer manter a gravidez? - Ela no respondeu, mas seu olhar provocou terror em Jack. - Voc est louca? Tenho sessenta anos e voc tem 
cinquenta e um. Ns no somos casados, e suas filhas me odeiam. Como  que voc acha que elas reagiriam a esta pequena notcia? - No podia acreditar. No tinha 
percebido que ela poderia querer ter um filho.
      -  a nossa vida, no a deles... e a vida do beb, Jack, voc est me pedindo para matar um ser humano. - Seus olhos estavam cheios de dor agora.
      - Bobagem. - Ele estava aumentando o tom de voz com Amanda pela primeira vez desde que a conhecera. - Estou pedindo para voc ser razovel, pelo amor de Deus, 
Amanda. Voc no pode nem pensar em ficar com esse beb.
      - Eu no vou mat-lo. - Ela ainda no tinha pensado no que iria fazer, mas naquele instante soube, sem dvida, que no faria um aborto.
      - Isso ainda no  um beb.  uma gota.  um nada numa tela de TV. E  uma ameaa  nossa sanidade, e nossa vida juntos. Voc no entende? No podemos ir adiante 
com esta histria! - gritou Jack. Amanda olhou para ele com um olhar furioso e no disse uma palavra. - Eu no quero um filho. Eu no terei um filho, e voc no 
pode me forar a isso! J passei por isso antes, e no serei forado a ter um filho na minha idade. Voc tem que fazer um aborto. - Ele tinha vontade de sacudi-la, 
mas nunca teria coragem de encostar a mo nela com violncia, nem mesmo num estado de clera daqueles.
      - Eu no tenho que fazer nada, Jack. No sou uma ninfeta tentando forar voc a se casar comigo. Eu tambm no queria isto. Mas no serei forada a fazer algo 
que abomino por causa da sua incapacidade em lidar com esta pequena realidade aqui. Eu estou grvida, e este  o nosso beb.
      - E voc  louca. Devem ser os hormnios. Oh, meu Deus, no acredito nisso - disse ele, dando a partida no carro e indo em direco a Bel Air, para a casa 
dela. - Olhe - disse, virando-se para ela enquanto dirigia a toda velocidade pela Rodeo -, voc pode fazer o que quiser, Amanda, mas eu no quero este filho. No 
vou passar de novo por aquelas noites insones, pelas dores de ouvido, ou plos campeonatos de beisebol. No vou me fazer de idiota indo  formatura dele com noventa 
anos.
      - Voc teria apenas oitenta. Oitenta e dois, para ser mais exacta. E sabe o que mais? Voc  um covarde. - Ao terminar a frase, Amanda comeou a chorar. Jack 
tentou se controlar e conversar com ela.
      - Olhe, querida... Sei como voc deve estar se sentindo,  um choque. Primeiro pensamos que havia algo de errado com voc, e agora voc est grvida.  difcil 
pensar com clareza numa hora dessas. Aborto  uma coisa horrvel. Sei disso. Entendo voc. Mas pense no que isso faria com as nossas vidas, no s com a minha. Voc 
quer realmente comear tudo de novo? Voltar a dirigir para levar as crianas e seus amigos de carro de um lado para o outro? 
      - Voc parece dirigir bem para a sua idade. Tenho certeza de que posso administrar uma carteira de motorista pelos nove anos, se fizer tudo direitinho. E no, 
no foi o que escolhi para mim. No sou burra. No foi uma escolha, nem minha nem sua, e sim de Deus. Ele nos deu um presente incrvel. No temos o direito de jogar 
fora assim desse jeito... - Recomeou a chorar quando olhou para ele, tentando convenc-lo. Mas pde ver que sua tentativa era intil. Ento baixou a cabea e continuou 
chorando. - Jack, no posso fazer isso.
      - Voc nunca me disse que era religiosa - disse tristemente, sentindo-se trado, e com pena dela, mas ao mesmo tempo com raiva. Ela no tinha o direito de 
fazer aquilo com ele. Dori nunca o teria feito.
      - Estou certa do que estou fazendo - disse Amanda clara e directamente, enquanto o carro parava na frente de sua casa e Jack se virava para olh-la.
      - Eu tambm, Amanda. E nada do que voc disser vai me comover. No tomarei parte desta loucura. No quero tomar conhecimento. Se voc fizer um aborto, ficarei 
ao seu lado. Abraado com voc. Chorando com voc. Meu amor ser eterno. Mas no serei forado a ter um filho na minha idade. - E ele falava a srio.
      - Muitos outros homens na sua idade vivem esta situao. Especialmente aqui em Los Angeles. Metade dos pais que vejo no consultrio do meu ginecologista, suas 
esposas de uns trinta e poucos anos - ela apontou o dedo para Jack e ele quase recuou -, so mais velhos do que voc.
      - Ento eles so senis. Tenho certeza das minhas convices. Se voc tiver esse filho, Amanda, eu cairei fora.
      - Ento, adeus - disse ela, sentindo um dio sbito - Faa o que bem entender,  a sua vida. Mas esta  a minha vida, e este  o meu corpo, e o meu beb. Nada 
disso  seu, ento para o diabo com voc, Jack Watson. Volte as suas ninfetas estpidas, e espero que engravide todas. Voc merece.
      - Foi bom enquanto durou - disse Jack ao tempo em que ela saa do carro batendo a porta com tanta fora que balanou tudo. E Amanda no olhou mais para trs 
correndo para entrar em casa. Trancou a porta e desapareceu l dentro.
      Cinco segundos depois, ouviu o ronco da Ferrari, sentou-se no hall e comeou a soluar. Ela perdera tudo... mas no iria desistir. No havia escolha agora. 
Teria o beb. Mas o que, em nome de Deus, ela diria s meninas?
      

      
      
      
     Captulo Nove
      
      Os trs dias seguintes foram um pesadelo para ambos. Pela primeira vez em tantos anos, Jack at gritara com Gladdie. Ela no sabia o que havia de errado com 
ele, mas o que quer que fosse, parecia ser algo muito grave. E o facto de que Amanda no estava ligando no passou despercebido. Ele no estava aceitando nem as 
ligaes de Julie e Paul. No falava com ningum.
      Amanda se trancou em casa e agiu como se tivesse voltado ao luto. Louise apareceu com as crianas, mas sua me no os deixou entrar. Alegou que estava com 
uma enxaqueca, o que parecia verdade. Sua aparncia era horrvel.
      - O que h de errado com mame? - Louise finalmente ligou para Jan a fim de perguntar se ela sabia de algo, mas tudo o que Jan disse foi que o sogro tambm 
no estava falando com Paul. - Talvez eles tenham terminado, os "sexlatras". Queira Deus que isso seja verdade. Aleluia.
      - Que  isso, Lou? - Jan censurou a irm mais velha e Louise ficou surpresa.
      - O qu? Voc passou para o time deles? 
      - No. Mas sabe como . Eles so adultos, e papai est morto. Talvez eles tenham o direito de fazer o que bem entendem, desde que sejam discretos.
      - No me venha com essa. Eles so deplorveis - disse Louise, rudemente.
      - O que foi que aconteceu com todas aquelas coisas que voc disse depois da morte de papai? Que mame tinha o direito de ter sua prpria vida e tudo mais? 
Talvez no tenhamos o direito de interferir, ou at mesmo de desaprovar. O que nos faz pensar que podemos julg-los?
      - Merda, Jan. O que voc fez? Converteu-se a alguma religio? Ela  sua me. E est se comportando como uma vadia. Ela est tendo um caso.
      - Ela  solteira e tem mais de cinquenta anos. Acho que ela tem o direito de fazer o que desejar. Estou comeando a pensar que todos ns nos comportamos como 
idiotas quando eles contaram que estavam juntos.
      - Bom, eu no acho. S espero que ele tenha terminado com ela.
      - Talvez tenha sido ela que terminou com ele.
      - Contanto que algum tenha feito isso, tudo bem.
      No fim da semana, Amanda ainda no estava falando com ningum, e ningum a tinha visto. E as filhas estavam preocupadas. O facto  que ficava encolhida, chorando 
o tempo todo, perdida em meio a um turbilho de emoes, pelo choque de ter perdido Jack e por culpa dos hormnios. Ela sentia como se sua vida tivesse terminado 
e, ao mesmo tempo, estava perplexa com a perspectiva de uma nova vida apenas comeando. Mas ela no podia imaginar a vida sem Jack. No ouvira nada sobre ele desde 
a ltima vez em que se viram. Ele nem ligara para ela.
      Jack estava gritando com qualquer empregado que cruzasse seu caminho e trabalhando at meia-noite todos os dias. E quando chegava em casa sentava no sof, 
mirando o espao vazio, tentando no pensar nela e em como ela o havia trado. Ainda no conseguia acreditar. Como pde fazer isso com ele? No era culpa dela que 
tivesse engravidado, pelo menos no totalmente dela, mas o facto de no querer se livrar daquilo era a maior das traies. E ento, com a mesma intensidade que estava 
pensando em como sentia raiva dela, comeou a se lembrar das coisas que ela dizia, e que fazia... ou do modo como olhava para ele enquanto faziam amor, ou de como 
acordava de manh. Jack sentia tanta falta de Amanda que achou que iria morrer. Porm, estava determinado a no procur-la.
      Mas tudo em que podia pensar, tudo com que sonhava ou tudo o que queria era Amanda. Ela o estava levando  loucura. Andou pela praia de Malibu durante horas 
no domingo de manh. Nadou, correu e ficou sentado, olhando o mar, pensando nela, e concluiu que no iria aguentar nem mais um dia. Tinha que ligar para ela.
      Lutou consigo mesmo durante toda a tarde e, s oito horas, acabou cedendo. Ele nem sabia o que dizer. S queria ouvir sua voz de novo. S por um instante. 
Mas no queria v-la. No havia mais motivos para isso. Ele no queria se deixar envolver na crise de insanidade que estava atacando Amanda.
      Mas assim que a ligao foi completada, a secretria eletrnica atendeu, e Amanda no. Ela nem soube que ele ligara at a manh seguinte, quando foi ouvir 
os recados. Ultimamente, no se preocupava mais em checar as mensagens na secretria. Nos primeiros dias depois da separao, checava a mquina de hora em hora. 
Mas, quando chegou o fim de semana, desistiu. J fazia oito dias. At que, finalmente, ele fez contato. Ela quase no conseguiu acreditar. Comeava a pensar que 
ele havia desaparecido de sua vida Para sempre. Amanda ouviu a mensagem, e sentiu tenso e desconforto em sua voz. Disse que s queria saber se estava tudo bem, 
e se ela se sentia bem. Depois desligou. Ela apagou a mensagem e voltou para a cama. Tudo o que queria era dormir. Estava exausta. Lembrava desta sensao nas suas 
gestaes anteriores, s que desta vez era pior. Estava ainda mais cansada. No sabia ao certo se era por causa da idade, ou se pelo facto de Jack t-la deixado. 
Mas o que quer que fosse, estava fazendo Amanda dormir dezoito horas por dia.
      Ela no retornou aquela ligao e, na tera-feira, Jack comeou a pensar que Amanda no tinha recebido a mensagem. Talvez a secretria eletrnica no estivesse 
funcionando direito. Desta vez ligou para ela do escritrio, num intervalo entre suas reunies. E disse quase a mesma coisa que dissera na primeira vez. Ela ouviu 
a mensagem tarde da noite e ficou se perguntando por que ele estaria ligando. Por que se preocupar? Ele deixara claro a sua posio. Nunca mais queria v-lo, ou 
falar com ele. Chorou enquanto ouvia o recado e acabou voltando para a cama com um pote de sorvete na mo. Isso era s o que ela comia agora.
      As nicas ligaes que ela retornou foram as de suas filhas. No queria que as meninas fossem l, por isso achou melhor ligar para elas. Contou que estava 
com um vrus terrvel, tanto que precisava at tomar antibiticos, e que voltaria a entrar em contato quando se sentisse melhor. Nenhuma das duas acreditou nela.
      - Ela est mentindo - disse Louise quando ligou para Jan na tera-feira. - Fisicamente, ela parece bem. Talvez esteja passando por um colapso nervoso.
      - Por que no a deixamos em paz? - sugeriu Jan. Mas naquela noite ela contou para Paul que achava que o romance dos pais havia terminado. Ele concordou. Seu 
pai estava agindo como Godzilla.
      - Fui at a loja esta tarde. Parece que ele no escova o cabelo h uma semana, e age como se estivesse a ponto de matar algum. Acho que ela deu o fora nele.
      - Talvez tenha sido ele quem tomou a iniciativa - disse Jan, tristemente, imaginando se o que estava acontecendo no teria sido culpa deles, e comeando a 
se sentir culpada. Sua me no merecia o que eles tinham feito a ela, mas no havia nada que pudessem fazer agora.
      E quando a moa da faxina chegou, encontrou Amanda vendo televiso de dia. Ela se tornara viciada em novelas e programas de entrevistas onde mulheres choravam 
por causa dos maridos que estavam dormindo com a vizinha, com um pastor alemo e com pelo menos duas de suas irms. Ela assistia quilo e chorava, enquanto comia 
sorvete.
      - Acho que vou engordar - anunciou para o aparelho de TV certa tarde, comendo o segundo pote de sorvete. - E da? - respondeu. Ela ficaria muito, muito gorda, 
e nenhuma pessoa decente jamais falaria com ela de novo. E Jack Watson era um canalha. Provavelmente j voltara a dormir com suas starlets.
      Mas, em vez disso, Jack continuava gritando com Gladdie e tornando a vida de todos um inferno. J fazia quase duas semanas.
      - Olhe, Jack, quero que voc me faa um favor - disse Gladdie finalmente na tarde de sexta-feira, depois de aguentar duas semanas de um comportamento insano. 
- Voc poderia ao menos falar com ela? Talvez vocs possam se acertar de alguma forma. Se no, voc vai acabar levando todos ns  loucura. Essa loja inteira est 
precisando tomar Prozac graas a voc. Ligue para ela.
      - O que a faz pensar que no estou falando com ela? - perguntou, envergonhado, tentando imaginar como Gladdie sempre sabia de tudo. Ele achava que ela era 
vidente.
      - J se olhou no espelho, Jack? S faz a barba duas vezes por semana, Deus sabe quando foi a ltima vez que penteou o cabelo, alm de vestir o mesmo terno 
h trs dias. Voc j est comeando a parecer um mendigo. Acredite em mim, esta aparncia no  boa para os negcios.
      - Sinto muito. Tenho andado chateado - disse ele, transparecendo sua tristeza. Estava se sentindo quase to mal quanto na perda de Dori. S que Amanda ainda 
estava viva, e por perto, e ele ainda a amava. Isso era o pior que tudo. Mas ele se comportara como um monstro, e ela no retornara suas ligaes. J havia telefonado 
quatro vezes. - Alm do mais, ela no quer falar comigo - concluiu tristemente e Gladdie deu um tapinha em seu ombro como uma me faria.
      - V por mim, ela quer falar com voc, sim. Deve estar pior do que voc. Afinal de contas, o que foi que voc fez a ela? - Gladdie deduziu que a culpa tinha 
sido dele, do contrrio no estaria se sentindo to arrasado.
      - Voc no gostaria de saber - respondeu, envergonhado.
      - Provavelmente no - admitiu Gladdie. - Por que no passa na casa dela?
      - Ela no me deixaria entrar. Por que deveria deixar? Eu a deixei sozinha no momento em que ela mais precisava de mim... Eu a deixei acuada, Glad... Fui um 
completo imbecil.
      - Ela ainda deve am-lo mesmo assim. As mulheres so desse jeito. Tm um alto grau de tolerncia com imbecis. Na verdade, algumas at amam homens assim. V 
v-la.
      - No posso. - Ele parecia uma criana, e Gladdie balanou a cabea com impacincia.
      - Eu levo voc. Mas v.
      - T bem, t bem. Vou amanh.
      - Agora - disse ela, fechando a agenda dele. - Voc no tem mais nenhum compromisso e ningum aqui consegue aguentar sua presena. Faa um favor a todos. V 
v-la. Ou ento vou iniciar um abaixo-assinado.
      - Voc  uma chata. - Deu um sorriso enviesado para ela e se levantou. J parecia melhor. - Mas amo voc. - E olhou para Gladdie com ternura. - Obrigado. Se 
ela bater com a porta na minha cara, ou no me deixar entrar, estarei de volta em dez minutos.
      - Vou acender umas velas - disse ela enquanto j saa pela porta, ansioso por chegar l, por v-la, por dizer o que andava pensando e rezando para que ela 
o recebesse. Jack chegou  casa de Amanda em menos de cinco minutos com sua Ferrari. Tocou a campainha durante um bom tempo, mas ela no veio abrir a porta. No 
tinha certeza se estava em casa. A garagem estava trancada, de modo que ele no podia ver se seu carro estava l dentro. Ento contornou a casa e comeou a bater 
na janela de seu quarto.
      E Amanda, deitada em sua cama, assistindo a um programa de entrevistas, ouviu um barulho.
      De incio, pensou que fosse um passarinho, ou um gato, e depois comeou a entrar em pnico. Pensou que poderia ser um ladro, checando se havia algum em casa. 
Ela j ia chamar a polcia quando decidiu ir at a janela do banheiro e afastar um pouco as cortinas para ver se conseguia avistar algum. Andou na ponta dos ps 
at o outro quarto, com a mo no boto do alarme, at que o viu. Ele estava horrvel, e ainda batia na janela do quarto.
      Amanda abriu a janela do banheiro e ps a cabea do lado de fora.
      - O que est fazendo? - Ela estava to mal quanto ele. Tambm no penteava o cabelo h dias, e o mantinha preso com um elstico. No usava maquiagem desde 
a ltima vez em que o vira. - Pare com isso! - gritou com ele. - Voc vai acabar quebrando minha janela.
      - Ento me deixe entrar - disse ele, sorrindo. Era to bom v-la. Mas Amanda balanou a cabea negativamente. Ela estava pssima e ele reparou que seu rosto 
parecia mais cheio. Ainda assim, continuava muito bonita.
      - No quero ver voc - disse ela, fechando com violncia a janela. Ento Jack resolveu ir at a janela do banheiro, e os dois se olharam atravs do vidro. 
Ela no podia acreditar no quanto ainda o amava, e como estava feliz em v-lo. Odiava a si mesma por isso. - V embora! - falou aos berros, fazendo gestos de quem 
est tentando enxotar algum. Mas Jack pressionou o rosto contra o vidro e fez caretas horrveis. Sem querer, Amanda comeou a rir.
      - Vamos, Amanda, por favor - implorou ele. Ela pensou por um instante, e depois desapareceu. Jack no tinha a mnima idia do que ela estava fazendo. Mas, 
um minuto depois, Amanda veio pela porta dos fundos, descala e vestindo uma camisola. O corao dele comeou a saltar ao v-la.
      - A que horas voc anda dormindo? - Eram quatro da tarde. Ele se lembrava daquela camisola, ainda que Amanda no a tivesse usado com frequncia quando estava 
com ele.
      - Fui para a cama para dormir h duas semanas. E fiquei l desde ento, comendo sorvete e vendo televiso. Vou ficar gorda e feia e no dou a mnima - disse 
ela, entrando em casa, enquanto Jack a seguia para a cozinha. Ento ela se virou e olhou para ele. Havia algo to vulnervel nos olhos de Amanda que tocou Jack no 
fundo de sua alma, e ele se perguntou mais uma vez como pde ter sido to estpido a ponto de abandon-la. - Por que veio me ver? - perguntou, com um olhar triste 
que partiu o corao dele.
      - Porque amo voc, e porque sou um idiota... e porque Gladdie me obrigou. - Ele sorriu envergonhado ao dizer aquilo. - Ela disse que ningum est me aguentando 
mais. Tenho estado pssimo. Por que no retornou as minhas ligaes? - Ele demonstrou estar magoado ao perguntar isso a Amanda, mas ela deu de ombros e abriu o freezer.
      - Voc quer sorvete? - perguntou. Aquilo j estava se tornando uma obsesso e Jack se divertiu com a cena. Ele se lembrou de quando os dois comiam sorvete 
juntos na cama. O sabor favorito deles era caf. - Tudo o que ainda tenho aqui  baunilha.
      - Isso  pattico. Voc comeu alguma outra coisa nas duas ltimas semanas? - perguntou com um olhar de preocupao, e ela sacudiu a cabea enquanto servia 
dois potes de sorvete de baunilha. - Isso no  bom para o beb.
      - O que  que voc tem com isso? - Ela olhou directamente nos olhos dele ao fazer a pergunta. -  um pouco hipcrita de sua parte, voc no acha? J que queria 
que eu matasse o beb. - Ela entregou o pote de sorvete e ambos sentaram-se  mesa da cozinha.
      - Eu no queria que voc o matasse. S estava tentando preservar minha sanidade, e nossa vida... sem pensar em voc... - finalizou, tristemente. - Fui um canalha. 
Sinto muito, Amanda. - Ele empurrou o pote de sorvete para longe, e foi se sentar na frente dela, do outro lado da mesa, enquanto ela o observava. - Eu estava em 
estado de choque. Eu no esperava por isso. - Aquela era a declarao mais incoerente que ela j vira na vida, o que a fez sorrir.
      - Nem eu. - De um s golpe, ela perdera o homem e ganhara um beb, e no quisera ou esperara que nenhuma das duas coisas acontecesse. - Sinto muito, Jack. 
- Ele pegou as mos de Amanda por cima da mesa.
      - No  culpa sua... no inteiramente... - Ele sabia que ela no o havia enganado. Nunca passara pela cabea deles, pelo menos no com a seriedade com que 
deveria passar, que ela poderia engravidar. Eles simplesmente deixaram para l. - Como est se sentindo?
      - Gorda - ela riu. - Devo ter ganhado uns trs quilos por causa do sorvete.
      - No parece. - Mas havia uma suavidade em seu rosto, um brilho diferente nos olhos. Ele se lembrava desse tipo de modificao facial em sua ex-mulher quando 
estava grvida de seus filhos. Ela emanava um brilho intenso. - Voc est linda.
      - Deve ser o penteado. - Ela sorriu com tristeza. Ao olhar para ele, Amanda se lembrou do quanto sentiu sua falta. Ainda no sabia por que tinha vindo v-la 
e deduziu que era para terminar a relao de modo que no restasse Qualquer tipo de ressentimento entre eles. Pelo menos era uma maneira mais distinta de se fazer 
isso. E talvez um dia mesmo sem querer, ele viesse ver o beb.
      - No creio que v querer sair comigo para jantar... e se ns fssemos a uma sorveteria? - perguntou ele, com um olhar maroto.
      - Para qu? - O que ele estava querendo agora?
      - Porque sinto falta de voc. Fiquei completamente maluco nas duas ltimas semanas.  um milagre Gladdie no ter pedido demisso.
      - Tambm no agi de maneira exemplar. Dormi e comi sorvete o dia todo. E chorei vendo televiso com a programao da tarde.
      - Eu queria poder ter estado aqui com voc.
      - Eu tambm - disse ela, num sussurro, e desviou os olhos para outro lado. Era muito doloroso olhar para ele. Ento, Jack se levantou e contornou a mesa.
      - Eu amo voc, Amanda... Quero voltar, se  que me aceita de volta. Prometo que no vou agir mais como um canalha. Farei o que quiser. Voc pode ter o beb. 
Comprarei uns sapatinhos para ele. E mais sorvete para voc. S no quero perd-la. - Havia lgrimas em seus olhos enquanto ele falava. Amanda olhou para Jack, sem 
poder acreditar no que estava ouvindo.
      - Isso  srio?
      - O qu? Sobre eu comprar o sorvete? Eu juro...  srio. No vou deixar voc enfrentar esta situao sozinha. Acho que  loucura, mas amo voc e este  meu 
beb tambm, Deus me ajude. S no ria quando eu me confundir e empurrar o carrinho do beb na direco do trfego quando estiver numa crise de Alzheimer. Contrate 
uma enfermeira para mim, se eu precisar.
      - Fao qualquer coisa por voc - disse ela e se levantou, indo aninhar-se nos braos de Jack, abraando-o com afecto. - Amo tanto voc. Achei que ia morrer.
      - Eu tambm - disse ele e abraou-a com mais fora.
      - Deus, Amanda... Eu no quero perder voc. - E ento, com uma expresso preocupada, perguntou se ela achava que deveriam se casar.
      - Voc no tem de fazer isso - disse ela, enquanto se dirigiam vagarosamente para o quarto. - No acho necessrio.
      - No, mas talvez o garoto queira. Talvez devssemos perguntar a ele.
      - Pode ser uma garota.
      - No vamos falar sobre isso. Voc est me deixando nervoso. Vamos casar ou no? - Ele estava preparado para acertar os ponteiros com ela, a qualquer preo, 
mas Amanda acabou surpreendendo-o.
      - No. No temos que casar. No h lei que diga que somos obrigados a isso. Talvez mais tarde. Vamos deixar as coisas acontecerem.
      - A senhora  muito moderna, Sra. Kingston.
      - No, eu s amo voc. - Eles j estavam no quarto a essa altura, e Jack a tinha nos braos e a beijava com ardor. Ele estava de volta, e Amanda nunca mais 
deixaria que fosse embora. E, antes que percebessem, a camisola dela estava no cho, junto com as roupas dele, e j estavam na cama onde fizeram amor pela primeira 
vez e onde, provavelmente, conceberam a criana. Aquela era a cama dele agora, a cama deles, no de Matthew ou de ningum mais. E enquanto fazia amor com ela, Jack 
soube com uma certeza absoluta o quanto a amava.
      E quando ficaram deitados, abraados, naquela noite, falaram no que iriam fazer, e em como contariam para os filhos. - Mal posso esperar - riu ele. - Se voc 
achou que o ltimo jantar foi ruim, espere por este. - Ela teve que rir tambm. Era tudo o que se podia fazer naquelas circunstncias. Ento Amanda se virou para 
Jack e perguntou o quanto ele a amava. - Mais do que voc pode imaginar, mais do que a vida em si. Por qu? O que voc tinha em mente?
      - Eu s estava me perguntando se voc me amava o suficiente para pegar um pote de sorvete e trazer para mim. - Ele olhou para ela e riu, apoiando-se em um 
cotovelo.
      - Talvez devssemos trazer o freezer para o quarto.
      - ptima idia. - Amanda riu dele, que a beijou de novo, um pouco antes de ambos se lembrarem do sorvete.
      

      
      
      
     Captulo Dez
      
      Desta vez decidiram no se iludir, fingindo acreditar que os filhos ficariam felizes por eles. E Amanda decidiu, ao planejar o encontro com Jack, no fazer 
um jantar. Eles iriam convid-los para tomar um drinque. Tudo seria muito rpido e direto, e provavelmente um desastre. Mas diriam a todos que ela estava grvida. 
E o teto cairia sobre suas cabeas. Pelo menos desta vez sabiam com antecedncia o que iria acontecer.
      Todos chegaram s seis e quinze. Julie foi amvel com eles, mas Jan e Louise estavam tensas. Paul foi mais cordial com o pai do que o normal. Conversaram antes 
entre si e estavam preparados para o que estava por vir. Concluram que Jack e Amanda iriam comunicar que decidiram se casar. Eles no concordavam muito com aquilo, 
e Louise j deixara claro que tentaria tirar essa idia da cabea da me. Mas pelo menos eles j sabiam o que ia acontecer. 
      Todos se sentaram na sala de estar. Jack serviu os drinques. Preparou um copo de usque para si, e os outros preferiram vinho. Amanda no tomou nada. E Louise 
quis gua. E resolveu, como se diz, pegar o touro  unha, enquanto os outros esperavam educadamente.
      - Tudo bem - disse ela, parecendo  vontade -, Quando  o casamento?
      - No  - disse Amanda, calmamente. - Ns no vamos nos casar. Pelo menos no por enquanto. Decidimos esperar. Mas queramos que vocs soubessem que estou 
grvida. - Teria sido possvel ouvir um alfinete cair no cho. Louise ficou branca enquanto olhava estarrecida para a me.
      - Diga que voc est brincando.  primeiro de abril e esqueci de olhar o calendrio. Diga que no falou isso.
      - Falei. Tambm foi um choque para ns. Mas  isso. No h por que fugir da verdade. O nascimento do beb est previsto para outubro. - Ela deu uma olhada 
em Jack, que levantou os dois polegares num gesto de apoio. Ela estava indo bem, e demorou alguns minutos para que todos se dessem conta do que estava acontecendo.
      - Ento posso deduzir que voc no vai fazer um aborto. - Como sempre, Louise era a porta-voz das irms. Jan reagiu ao choque ficando em silncio. E, desta 
vez, at Julie ficou quieta. Paul fulminava o pai com os olhos.
      - No. Eu no vou fazer um aborto. Ns conversamos sobre isso - disse ela, distorcendo um pouco a verdade -, mas no quero. Na minha idade, esse tipo de coisa 
 como se fosse um presente, e quero esse presente. Sei como isso vai ser difcil para vocs. No incio at eu fiquei meio atordoada. Mas  isso, gente... Eu sou 
humana. - Havia lgrimas em seus olhos. Jack atravessou a sala e sentou-se ao seu lado, colocando o brao em seu ombro.
      - Acho que a me de vocs tem muita coragem. Muitas mulheres da idade dela jamais fariam isso.
      - Acho que minha me tem um parafuso solto - disse Louise ao se levantar e fazer um sinal para o marido, Que ficou de p com uma expresso meio distrada. 
- Voc  louca, me. Acho que vocs dois esto senis. Vocs faro o possvel para nos constranger. No quero nem pensar o que papai diria. Essa situao transcende 
qualquer pensamento.
      - Bem, Louise, ele no est aqui para poder pensar. Esta  a minha vida - disse Amanda, calmamente.
      - E a nossa, pela qual voc no d a mnima. - Mas, antes que ela terminasse a frase, todos ouviram Jan soluando, j de p, e olhando para a me com dio.
      - No acredito que tenha feito isso comigo, me. Eu no posso ter filhos, ento voc prova para todo mundo que ainda pode ter um. Que crueldade. Que golpe 
baixo. Como voc pde fazer isso conosco? - Era bvio pelo olhar de Paul que ele concordava cem por cento com a mulher. As filhas de Amanda e seus maridos comearam 
a ir embora sem dizer mais uma palavra, e Jan estava transtornada e se apoiando no marido. Amanda tentou alcan-la, mas Paul a impediu.
      - Por que no nos deixa em paz pelo menos uma vez, e mantm toda e qualquer boa notcia entre vocs para variar? O que querem de ns? Sangue? Parabns? Bem, 
vo para o inferno. Como acham que Jan est se sentindo?
      - Posso ver como Jan est se sentindo, Paul - disse Amanda com lgrimas descendo pelo rosto. - A ltima coisa que eu queria na face da terra era mago-la. 
Mas simplesmente aconteceu. Essa  a nossa vida, o nosso problema, e nosso beb.
      - Bem, boa sorte com ele. E no nos convidem para o batizado, pai. - Ele olhou para Jack com uma fria enorme nos olhos. - Ns no iremos. - A porta bateu 
com violncia atrs deles. Amanda chorou nos braos de Jack, enquanto Julie olhava para eles. Ela estava quieta desta vez, e quando Amanda se acalmou, ela falou 
para os dois. Mas era bvio que ainda estava chocada.
      - Sinto muito, pai. Sinto muito por vocs dois. Isso no deve estar sendo fcil para vocs. Mas  difcil para ns tambm. Aparentemente,  uma transio muito 
brusca para todos ns. Mas quem sabe, talvez no fim acabe sendo uma bno. Pelo menos  o que espero.
      - Eu tambm - disse Jack, suavemente, olhando para Amanda. Ela escolhera o caminho mais difcil ao se decidir por ter o beb, mas sabia o que estava fazendo. 
E eles tinham previsto que seria difcil na hora de contar para as crianas. Julie e o marido foram embora calmamente. E Jack e Amanda ficaram sentados, olhando 
um para o outro em silncio.
      - Voc sabia que seria assim - disse ele, educadamente.
      - Eu sei - fungou ela. - Mas a gente sempre espera que seja diferente. Que elas vo pular no seu pescoo e dar um abrao enorme, como faziam quando eram crianas, 
bem pequenas, e dizer o quanto amam voc e que est tudo bem, que acham voc maravilhosa. Em vez disso, elas esto sempre julgando, e com raiva, e pensando que o 
que quer que se esteja fazendo  para mago-las.  como se sua nica funo na vida, como pais, fosse existir da forma que elas querem que voc exista. Qualquer 
coisa diferente, ou fora do comum, ou qualquer inconveniente, faz com que fiquem com raiva. Por que ser que os filhos, de todas as idades, nunca sentem compaixo 
plos pais?
      - Talvez ns no mereamos - disse ele, parecendo cansado. - Talvez eles pensem que somos egostas. E s vezes somos. Mas temos o direito a isso. Ns damos 
muito a eles quando so pequenos, e quando pensamos que finalmente os papis vo se inverter, eles se viram para ns e dizem que no. Ns no temos vez. Na cabea 
deles, estamos vivendo o momento deles. Acho que voc deve fazer o que est fazendo, e construir sua prpria vida. Se elas conseguirem conviver com isso, tudo bem. 
Se no, deixe que se resolvam por l. No podemos desistir do resto da nossa vida por causa de nossos filhos. A nica coisa que me angustia  saber que estamos prestes 
a comear tudo de novo. Vou chegar ao fim da vida com um merdinha me dizendo que canalha eu sou, e como arruinei sua vida porque ainda durmo com a me dele. E, acredite, 
ainda estarei dormindo com voc. Planejo fazer amor com voc at que me coloquem debaixo da terra. E se ficar grvida de novo, da prxima vez, juro que nunca mais 
durmo com voc. Quero que tome plulas anticoncepcionais at os oitenta anos. - Ela no pde conter o riso ao ouvir tudo aquilo. Grande parte era verdade. Alguns 
filhos pensam que voc deve tudo a eles, e que eles no devem nada a voc. Era um conceito interessante.
      - Estou me sentindo to mal por Jan - disse ela. O que a filha tinha dito foi torturante e doloroso.
      - Eu tambm. Paul me olhou como se quisesse me matar.  como se tivssemos feito isso para que eu pudesse provar minha virilidade e fazer com que ele parecesse 
incapaz. Cristo, eu faria qualquer coisa para v-los tendo um filho.
      - Sinto a mesma coisa - disse ela.
      Ento, para tirar esses pensamentos da cabea, ele a levou para jantar. Por ora, desistiram da comida tailandesa. Amanda no conseguia nem pensar nessa comida 
que j sentia azia.
      E, naquela noite, eles se deitaram na cama e conversaram por longo tempo. Jack acabou dormindo, mas Amanda no. Ela se levantou e preparou um copo de leite 
quente e um ch de camomila, mas sua mente parecia dar voltas. Ela continuava a pensar em Jan e no que ela dissera. Amanda dormiu mal aquela noite, acordando a toda 
hora, e no dia seguinte, olhou para Jack tristemente na hora do caf da manh.
      - Tenho algo a dizer para voc - declarou e ele levantou a cabea para olh-la. Ela parecia cansada.
      -- Tudo bem com voc? - Jack estava sempre preocupado com Amanda, e agora se preocupava tambm como ele. Isso era tudo o que ele no queria.
      - Estou bem - tranquilizou-o. Mas no parecia. Ela estava com a aparncia horrvel. - Tive uma idia a noite passada.
      - No seu estado, deve ser algo perigoso. Voc provavelmente quer que eu compre uma fbrica de sorvete ou coisa assim.
      - Estou falando srio.
      - Eu tambm. Estou comprando aes de uma empresa fabricante de sorvetes. Voc  a maior consumidora individual de sorvete das montanhas Rochosas. - Ela j 
engordara quatro quilos e s estava grvida de trs meses incompletos,
      - T bem, t bem, eu falo srio. O que ?
      Ela comeou a chorar antes mesmo de falar, e ele pde perceber instantaneamente que a coisa era sria mesmo. Mas ela falou sobre Jan e Paul e no que eles disseram 
na noite passada, e em como aquilo a magoara.
      - Querida, isso me chateou tambm. Mas no h nada que possamos fazer. Eles simplesmente devem ver o que acontece, e continuar tentando.
      - No necessariamente. Esta  a minha idia. Voc no queria mesmo esse beb, Jack. E talvez estejamos muito velhos. Talvez este seja o maior presente que 
poderamos dar para eles. Quem sabe isso no aconteceu para que pudssemos ajud-los? Quero dar o beb para eles.
      Ele ficou boquiaberto ao ouvir aquilo.
      - Est falando srio? Voc quer dar o beb para eles? - Ela balanou a cabea afirmativamente, e ele a abraou.
      - No acho que voc deva fazer isso. Esse beb  seu.  nosso. Seria muito difcil para voc desistir dele depois de t-lo.
      - No me importo. Quero fazer isso pela Jan, e por Paul. Voc deixa?
      - Voc pode fazer o que quiser. Seria um gesto extraordinrio, e as pessoas falariam a respeito. Mas quem se importa? Se for o que voc quer, e se eles concordarem, 
ento faa.
      - Eu quis perguntar a voc primeiro.
      Ele balanou a cabea.
      - Acho que este  o maior presente que voc poderia dar a eles, e j que Paul  to contra a adoo, isto certamente resolveria o problema gentico. S quero 
que tenha certeza do que est fazendo.
      - Tenho certeza. E quero fazer isto. Se voc concorda, quero falar com ela ainda hoje pela manh. Voc liga para o Paul?
      - Ligo. Vou combinar de almoar com ele. Se ele ainda quiser me ver.
      - Farei com que Jan ligue para Paul depois que eu falar com ela, avisando-o que o assunto  importante.
      - Voc  uma mulher maravilhosa, querida. Cheia de desprendimento e virtudes. - Ele ainda estava surpreso com a atitude dela quando foi para a loja naquela 
manh. Ela no se deu ao trabalho de ligar para Jan. Resolveu passar em sua casa antes que sasse para a galeria. Jan ficou to surpresa que, apesar da resistncia, 
abriu a porta para a me. E quando Amanda falou o que tinha em mente, as duas sentaram e choraram. No incio, Jan ficou chocada e no aceitou, mas depois de Amanda 
conversar com ela por um tempo, passou a querer o beb desesperadamente.
      - Voc faria isso por mim, me?
      - Lgico que faria - disse Amanda, categoricamente, secando as lgrimas e sorrindo para a filha. - No h nada que me fizesse mais feliz.
      - E se voc mudar de idia? E Jack?
      -- Ns no mudaremos de idia. Se dermos nossa palavra, iremos at o fim. Isto  algo que ns dois queremos fazer. Muito. Espero que concordem.
      - Falarei com Paul. - Jan parecia animada ao correr para o telefone e ficou surpresa ao saber que Jack j ligara para ele. Paul j tinha uma vaga idia do 
motivo pelo qual queria v-lo. Jan explicou o resto para ele, e havia lgrimas nos seus olhos enquanto ouvia.
      - No acredito que faro isso - sussurrou ele. - Por qu?
      - Porque eles nos amam - disse Jan, comeando a chorar de novo enquanto a me ficava em p ao seu lado. - Mame disse que ns dois podemos ficar junto dela 
na hora que o beb nascer, e que ele ser nosso a partir deste momento.
      - E se eles mudarem de idia?
      - No acho que eles mudaro, Paul. Ela realmente quer que ns fiquemos com o beb.
      - Depois ns falaremos mais a respeito - disse ele, temendo aumentar demais suas expectativas. Mas ele encontrou o pai na hora do almoo e conversou com Jan 
naquela noite e, na manh seguinte, ligaram para Jack e Amanda dizendo que aceitavam. Eles estavam exultantes, e Amanda sentiu-se bem por ter feito algo to gratificante 
e maravilhoso, e ela sabia que nunca iria se arrepender.
      - Voc no existe - disse Jack, em admirao. - S espero que depois voc no venha a ficar com pena de ter feito isso.
      - No vou. Tenho certeza absoluta. No quero saber o quanto amarei este beb depois que ele nascer, ele  da Jan e do Paul. Provavelmente voc est certo. 
Talvez eu seja muito velha para andar com o carro cheio de crianas, dando carona para os amiguinhos dele, aos sessenta anos.
      - Voc continuar uma gracinha em qualquer idade. E pelo menos voc pode ver o beb quando quiser. - Isso j era algo. Ele sabia que no seria fcil para ela. 
E ento teve uma idia. - Por que ns no vamos a algum lugar? S ns dois, de frias. O que voc acha de Paris?
      - Uau! Adorei a idia. - As garotas tinham sugerido esta viagem para a me no vero anterior, mas ela no estava bem naquela poca. Agora, ela no poderia 
pensar em nada mais adorvel do que viajar para Paris com Jack Watson.
      Foram em junho, quando ela j estava com cinco meses e meio de gravidez. Ficaram hospedados no Ritz e viveram dias maravilhosos. Saram para jantar todas as 
noites, fizeram compras, foram ao Louvre, ao bal e andaram a p por toda Paris. Ela nunca se sentira melhor. Apesar do sorvete, no ganhara muito peso, e Jack achava 
que ela estava linda. Tudo o que diziam sobre a beleza da mulher grvida parecia se encaixar direitinho com ela. A nica coisa de que Amanda se ressentia era no 
poder comprar roupas chiques por causa da barriga.
      - Voltaremos em novembro, prometo. - Ele estava preocupado com o facto de que ela talvez ficasse deprimida nesta poca. Jack ainda achava que dar o beb seria 
difcil para ela, mas Amanda no hesitou um s instante em sua deciso de dar o beb para seus filhos.
      Eles aproveitaram muito a viagem e pararam em Londres por alguns dias antes de voltar para casa. E em julho ele levou-a para Lake Tahoe. Mas em agosto o mdico 
disse que ela no poderia mais viajar. Estava com sete meses e meio de gravidez, e j no era to nova para ficar fazendo extravagncias. O beb era grande, e o 
mdico temia que nascesse prematuramente.
      - Minhas outras filhas nasceram depois de completados os nove meses - disse ela, confiante, e o obstetra riu abertamente.
      - E quantos anos voc tinha na poca?
      - Tudo bem, tudo bem. Vou me comportar. Prometo.
      Eles sabiam que o beb era saudvel, e que era um menino. Ela fez a amniocentese antes de ir para a Europa. E Jan e Paul estavam loucos  procura de nomes 
para a criana. Louise, por outro lado, continuava ausente e mal falou com a me desde ento.
      - Ela vai superar - consolou-a Jack. Ele s queria que Amanda ficasse feliz. E fazia tudo para distra-la. Mas tudo em que ela pensava agora era no beb. Queria 
comprar roupas para ele, ursos de pelcia, bero e cuecas mnimas, e montes e montes de fraldas. Ela saa para fazer compras todos os dias e, sempre que possvel, 
insistia para que ele fosse com ela.
      - Pelo amor de Deus, o que as pessoas vo pensar? Eu pareo o av do beb. - Ele ainda ficava mortificado toda vez que saa com ela para fazer compras, tanto 
que quando todos perguntavam, ele dizia que o que eles estavam comprando ali era para o neto deles.
      - O que isso me faz de voc? Sua filha?
      - O que voc acha de minha esposa? Voc sabe, poderamos providenciar isso. - Eles j estavam juntos h oito meses, mas sempre que ele trazia o assunto  tona, 
ela o ignorava. Amanda no queria pensar em mais nada no momento, s no beb. Ela at fez Jack ir ao mdico com ela.
      A primeira vez em que ele a acompanhou foi horrvel, e a nica coisa que quis foi sair rastejando pela porta com uma mscara na cara. Em vez disso, ele segurou 
o jornal na frente do rosto e tentou fingir que no a conhecia.
      - Eu no vou entrar - sussurrou por detrs do Los Angeles Times. Todos os que estavam na sala de espera pareciam ter catorze anos. Parecia o encontro mundial 
das mes solteiras. Eram todas meninas bonitas de Beverly Hills, com cabelos loiros e shorts mnimos. Os dois ali pareciam estar roubando doce da boca de criana.
      - No seja ridculo. Tudo o que eles fazem l dentro  ouvir o batimento cardaco da criana.  emocionante - sussurrou ela em contrapartida, e ento Jack 
deu uma olhada atravs do jornal. Havia um garoto de cala jeans na frente dele. Parecia um actor mirim.
      - Voc me conta depois. Vou ficar esperando no carro - disse ele, com firmeza. Mas ela deixou transparecer um olhar to decepcionado quando ele ameaou sair, 
que Jack teve de se sentar de novo, e o fez com uma expresso contrariada no rosto. O rapaz de jeans perguntou se aquele era seu primeiro filho. - Meus filhos so 
mais velhos que voc - Jack, meio grosseiramente. O garoto disse que tinha 23 anos, e que aquele era o seu segundo filho. Mas que seu pai e sua madrasta tiveram 
outro filho no ano anterior.
      - Papai tem sessenta e cinco anos - disse o garoto, com um sorriso largo nos lbios. 
      - Ele sobreviveu?
      - Lgico. Eles tiveram gmeos. In vitro. Tentaram por dois anos. Minha madrasta tem quarenta.
      - Sortudos esses diabinhos - disse Jack, de esguelha, e comentou com Amanda, j na sala dos exames, que as pessoas so loucas. - Por que um homem de sessenta 
e cinco anos quer ter um filho? Imagine fazer um filho in vitro. Pelo menos ns nos divertimos enquanto fabricvamos o nosso.
      - Quer tentar de novo? - ela provocou e ele revirou os olhos. Mas quando o mdico entregou-lhe o estetoscpio, e ele ouviu a batida do corao do beb, acabou 
ficando emocionado. Tudo pareceu repentinamente to real que lgrimas brotaram de seus olhos.
      - Este  meu neto! - disse ele, alto demais, porque o estetoscpio em seus ouvidos fazia com que ele achasse que estava falando baixo, o que no era verdade.
      - Este  seu pai? - perguntou o mdico, um pouco confuso. - Pensei que era seu marido.
      - Na verdade, meu marido morreu h um ano e meio - explicou ela e o mdico sorriu para ela, benignamente. Como todas as pessoas em Beverly Hills, essas eram 
claramente mais do que um pouco excntricas.
      Mas estava tudo bem com o beb e Jack no conseguiu parar de falar nisso no caminho de volta para a Julie's.
      - Da prxima vez, deveramos trazer Jan e Paul - disse ele e Amanda concordou, satisfeita pelo facto de ele estar animado com o beb. Ela tinha que ir ao mdico 
quase toda a semana agora. Ele queria acompanhar a gravidez de perto. Ainda estava preocupado com a possibilidade de o beb nascer prematuramente. Pelo menos para 
Jack, sua barriga parecia enorme. Ele no conseguia se lembrar de seus filhos daquele tamanho no tero, mas Amanda era magra, o que fazia com que a barriga sobressasse 
ainda mais.
      Mas a pior experincia para ele foi ter que frequentar as aulas de Lamaze que comearam no dia 15 de agosto. Eram doze casais, a maioria de shorts, barbas, 
deitados no cho de uma sala de conferncias no Cedars Sinai. Jack tinha vindo de uma reunio no escritrio vestido com um terno Brioni, camisa e gravata, e olharam-no 
como se fosse um visitante de outro planeta. Amanda j estava l, esperando por ele, e parecia bastante  vontade em seus shorts brancos, em uma blusa pink enorme 
e sandlias. Ela acabara de fazer as unhas, e parecia uma modelo. As pessoas que estavam ali eram jovens demais para saber que ela fora uma actriz de sucesso. L 
fora, a temperatura estava altssima, e Jack estava suado e em frangalhos ao chegar.
      - Desculpe-me pelo atraso, querida. No consegui me livrar dos caras dos tecidos de Paris. Eles no queriam parar de bater papo.
      - Tudo bem - sussurrou ela com um sorriso -, eles comearam agora mesmo. - Havia quadros na parede mostrando os vrios estgios de dilatao da mulher em trabalho 
de parto. E Jack olhou para eles com horror.
      - O que  isso?
      - O colo do tero. Dilatado. No se preocupe com isso.
      - Parece horrvel. - Ele estivera em um bar na hora do nascimento de seus filhos, se embebedando com um amigo. Naquela poca, os pais no tinham que fazer 
nada mais do que aparecer na maternidade depois, com um buqu de rosas para a mulher.
      Ele olhou de novo pela sala e percebeu, como sempre que todos eles eram da idade de seus filhos. Mas Jack j estava quase acostumado. As coisas com que ele 
no conseguia se acostumar eram as fotos, os diagramas e os filmes que mostravam ao final da sesso. Isso o deixava apavorado. A nica parte que ele achava um tanto 
remotamente suportvel, ainda que constrangedora, eram os exerccios que tinha que fazer com Amanda, segurando suas pernas ou ajudando-a a respirar. E a instrutora 
falava constantemente dos momentos aflitivos de algo chamado "transio".
      - O que  uso? - perguntou ele para sua "esposa" depois da sexta vez em que a mulher mencionou o termo. Mas ele perguntou muito alto, e a instrutora ouviu.
      -  a parte mais dolorosa do trabalho de parto - disse ela com um sorriso sdico. -  quando vocs passam disso... - e apontou para o quadro - ...para isso. 
 mais ou menos como pegar o seu lbio superior e pux-lo at a parte de cima da cabea. - Ela passou para a prxima pergunta.
      - Isso no assusta voc? - sussurrou ele, muito mais baixo desta vez, para Amanda.
      - No - sussurrou ela de volta. - J passei por isso antes.
      - Vocs fazem isso sem anestesia? - A instrutora ficava sempre alertando para os perigos da anestesia, e deixara claro que mulheres "de verdade" no pediam 
remdios.
      -  claro que no. - Amanda fez um esgar de dor para Jack durante os exerccios de respirao em que ficava ofegante. - Eles podem me dar todos os remdios 
que possuem. De preferncia, quando eu chegar no estacionamento. No sou nenhuma herona.
      - Fico feliz em saber. E quanto a mim? Eles vo me dar algum medicamento? - Ele comeava a achar que ia Precisar tambm. Odiava as pessoas desta aula, odiava 
sua aparncia, as coisas que diziam e as perguntas estpidas que formulavam. Era um milagre que tivessem conseguido engravidar. Aparentemente, at dbeis mentais 
conseguiam. Mas quem ele odiava mais era a instrutora.
      E quando ela anunciou que o filme de hoje era uma cesariana, Jack comeou a olhar ansiosamente para a sada.
      - Voc no quer algo para beber, querida? - perguntou ele, casualmente. - Est to quente aqui. Na verdade, o ar-condicionado estava ligado e estava gelando 
o ambiente.
      - Fique de olhos fechados. Eu no conto o que est acontecendo. - O propsito do filme era preparar os maridos para o caso de uma emergncia durante a cirurgia. 
Se eles assistissem ao filme, e mostrassem o certificado emitido pelo curso para provar que o viram, poderiam ficar na sala de operao e assistir ao parto. Se no, 
teriam de esperar do lado de fora, com os covardes. Mas Jack sabia que no havia jeito de ele participar disto pessoalmente, no sem anestesia geral.
      - Volto j - sussurrou ele, alto demais de novo.
      - Aonde voc vai? - perguntou Amanda.
      - Ao banheiro - sussurrou ele em resposta.
      - Ns esperaremos por voc, Sr. Kingston! - A voz que veio da frente da sala proclamou em alto e bom som. - Voc no vai querer perder isso. - Ele lanou um 
olhar abrandado para a "esposa", e estava de volta em menos de cinco minutos.
      Ento comearam a passar o filme que quase o matou. Ele esteve no exrcito por dois anos, mas nenhum filme de treinamento que mostraram l chegava a ser um 
adversrio  altura deste. At o filme que mostrava uma gonorria era uma lembrana agradvel comparado ao que parecia serrar uma pobre mulher ao meio. A mulher 
chorava quase o tempo todo, parecendo estar sentindo uma dor profunda, e antes que as luzes se acendessem, Jack sussurrou para Amanda que ele estava com nuseas.
      - Eu disse para voc. No olhe. - Ela apertou as dele nas suas e se inclinou para beij-lo.
      - Kingstons! - A voz do inferno se propagou pela sala. - Vocs esto prestando ateno? Vou fazer um pequeno questionrio a respeito do assunto.
      - Merda. Por que ns no podemos assistir a uma operao de hemorridas?
      - Shhh... - Amanda estava rindo dele. No havia esperanas para Jack. Nunca mais eles voltaram para o curso. Ela no queria tentar o parto normal mesmo. Ela 
tentara o normal por uma hora com Louise, mas desistira.
      Mas as ltimas semanas de gravidez pareceram bastante fceis para ela. No feriado do Dia do Trabalho, ela estava com oito meses, e suficientemente entediada. 
Eles foram ao cinema, comeram comida chinesa e andaram na praia de Malibu, o que no foi to fcil quanto era antes. Ela se sentia bem, mas estava lenta e enorme.
      Eles estavam sentados no deque da casa dele, tomando ch gelado, quando Paul ligou. Ele queria saber como Amanda estava passando e perguntou se os dois poderiam 
passar l  noite. E Jack contou, ao desligar o telefone, que Paul parecia um pouco nervoso.
      - Voc acha que h algo de errado? - perguntou Amanda, ficando preocupada.
      - Acho que no. Talvez eles estejam apenas ficando ansiosos por causa do beb.
      - . De repente  isso - disse ela, sem estar convencida. Ela esteve admiravelmente calma desde o incio. - Se minha barriga aumentar mais um centmetro no 
vou conseguir entrar no elevador do Cedars Sinai.
      -- Homens so assim - disse Jack com um sorriso. - Paul tambm foi um beb grande. A me dele ficou com raiva de mim durante seis meses. Ela era to amvel.
      - Ela lhe deu filhos maravilhosos - lembrou Amanda, benevolamente, e ele revirou os olhos.
      - No seja to condescendente. Ela era uma bruxa, acredite.
      Paul e Jan chegaram no final da tarde, e Jack preparou os drinques enquanto estavam no deque com Amanda, vendo o pr-do-sol. Era uma tarde linda, e Amanda 
estava pensando em ir nadar.
      - O beb est bem? - perguntou Jan, olhando para a me com um ar de preocupao. Ela estava to enorme que dava medo, mas Amanda parecia no se incomodar. 
Estava surpreendentemente calma.
      - Ele est bem. Esperando por voc, querida - disse Amanda com um sorriso. Jack voltou e serviu sangria para todos. Ele notou que os dois tomaram longos goles 
antes de voltarem a falar. E ficou imaginando o que seria que teriam para dizer.
      - Algo errado? - Jack decidiu quebrar o gelo, e o jovem casal balanou a cabea ao mesmo tempo, com ares de adolescentes culpados. Depois riram nervosamente, 
ao olharem para a me dela e para o pai dele.
      - No - falou Paul. Jan estava muito nervosa para falar. - Mas h algo que queremos contar para vocs... ou pelo menos achamos que deveramos falar. Vocs 
devem ser os primeiros a saber...
      Jan interveio, com lgrimas nos olhos ao olhar para a me.
      - Me, eu estou grvida.
      - Jura? Oh, querida, isto  maravilhoso. Quando aconteceu?
      - H seis semanas mais ou menos. Eu quis ter certeza absoluta antes de contar para vocs. Mas o mdico confirmou e disse que est tudo bem. Fiz uma ultra esta 
semana e tudo est normal. Eles at nos deram uma foto.
      - Eu me lembro disso - disse Jack, olhando para eles. Mas sabia que havia mais do que isso. A histria no acabara por ali, ele sabia, e esperou.
      Jan e Paul suspiraram profundamente, se entreolharam e olharam para os pais.
      - Sei que isso provavelmente vai arruinar seus planos, mas ns no sabemos... no achamos... no estou certo se deveramos...
      Jack completou a frase para ajud-los.
      - Vocs no querem o nosso beb.
      Amanda olhou surpresa ao ver os dois balanando afirmativamente a cabea e depois suavizando a situao.
      - A menos que vocs no queiram mesmo ficar com ele. Se no quiserem, ento,  claro... - Paul estava tentando ser justo com eles, mas era bvio que agora 
que estavam para ter seu prprio filho, no queriam mais o da me dela. - Sentimos muito. De verdade.
      - Tudo bem, filho - disse Jack, calmamente. - s vezes as coisas mudam para melhor. Agora, por que vocs dois no vo embora? - Ele olhou para sua nora e a 
parabenizou com um beijo e um abrao. - Quero falar com sua me.
      - Ns entendemos. Sei que isto deve ser um pouco difcil para voc, pai. - Eles soavam jovens e insensveis e alheios a tudo e, ao mesmo tempo, Jack no os 
culpava. E ele no estava chateado tambm.
      - Est tudo bem, filho.
      Eles foram embora dez minutos depois, e Amanda sentia como se algum tivesse esvaziado seus pneus. Aquilo definitivamente iria exigir uma reorganizao em 
sua vida. Ela fizera tudo para no se apegar a essa criana, e agora, de repente, voltava a ser sua. Tudo teria de ser repensado.
      - Uau, houve uma rpida mudana de rumo aqui. Mesmo assim estou feliz por eles. - Olhou para Jack de onde estava sentada, esperando para ver se ele demonstrava 
qualquer reao negativa, mas isso no aconteceu. Ele parecia estar aceitando bem. Mas do jeito que as coisas eram, ele tambm no tinha nenhuma obrigao real. 
- Acho que isso nos leva de volta ao incio.
      - Talvez - disse ele, evasivamente. - Por que no deixamos a poeira baixar por um dia ou dois e falamos nisso mais tarde? - sugeriu ele, o que pareceu uma 
boa idia para Amanda. Os dois precisavam de um tempo para rir aquilo, ainda que fosse do temperamento dela resolver os problemas de imediato. Mas isto era diferente. 
Envolvia tomadas de deciso mais importantes. Ou no. O nascimento do beb estava previsto para dali a quatro semanas. No havia mais o que decidir agora. E ela 
comprara tudo de que o nenm iria precisar, para dar a sua filha. Tudo o que tinha a fazer agora era ficar com tudo para si. - Vamos andar um pouco na praia. - Ela 
no disse nada, mas eles acabaram no indo muito longe. Voltaram logo depois, e Amanda foi direto para a cama dele.
      Ela fora to feliz aqui. Eles passaram timos momentos na companhia um do outro. E seu amor cresceu demais da conta nos nove meses que estavam juntos.
      - Quer tirar uma soneca? - ele ofereceu, casualmente, ao entrar no quarto atrs dela.
      - Quero. Estou exausta. - O choque emocional de ter o beb "devolvido" deixou Amanda extenuada, por um lado entusiasmada, e por outro assustada e preocupada. 
E, mais do que tudo, ansiosa pela reao de Jack. Aquela soluo tinha sido to perfeita, e os dois se sentiram  vontade com ela. - Voc vai me abandonar de novo? 
- perguntou ela, com a voz baixa, tentando no parecer to assustada quanto realmente estava, enquanto o sol poente se refletia na janela panormica do quarto dele.
      -  claro que no. Eu amo voc... e eu amo este garoto... pobre garoto, ele est sendo jogado de um lado para o outro como uma bola numa partida de futebol.
      - De onde estou, parece que  ele quem est dando todos os chutes. - Jack adorava sentir a criana se mexendo, chutando e danando dentro da barriga. s vezes, 
quando ela se deitava encostada nele e dormia, Jack comeava a sorrir s de sentir o filho. Ele sabia o quanto ela devia estar preocupada agora. Ela no merecia 
aquilo. E ele percebeu o tolo que tinha sido desde o incio.
      Ele se deitou ao lado dela e comeou a beij-la vagarosamente.
      - Quais so as minhas chances de fazer amor com voc a essa altura do campeonato? - Eles j no tentavam h duas semanas, quando j tinha sido um desafio. 
Ela sorriu diante da proposta.
      - O mdico disse que podemos fazer amor at mesmo a caminho do hospital, se voc quiser.
      - Eu quero. - E ele parecia estar dizendo a verdade.
      - Voc  um homem corajoso - sussurrou ela com um sorriso, e ele tirou sua roupa de banho e passou a mo na barriga. Naquele exacto momento, o beb deu um 
chute enorme e ambos riram.
      - Acho que ele ouviu o que propus a voc, e no tenho certeza se gostou muito da idia. - Ficaram deitados por um tempo e Jack a abraou. De repente, a paixo 
tomou conta. Eles fizeram os movimentos vagarosamente e com cuidado, e foi melhor do que ambos esperavam. E ento Amanda caiu no sono ao seu lado. Jack colocou seu 
calo de volta e saiu para andar de novo na praia. Havia muito em que pensar, muitas coisas para decidir. E ele sorriu, ao olhar para ela da porta da frente.
      

      
      
      
      Captulo Onze
      
      Jack fez o jantar para ela naquela noite, e Amanda o achou muito quieto. Temia que estivesse chateado com o que Jan e Paul tinham dito. Mas quando perguntou, 
Jack negou que estivesse chateado. Ele parecia muito  vontade, e em paz consigo mesmo, e quando sentaram no deque mais tarde e olharam para as estrelas, Jack pegou 
a mo de Amanda e se inclinou para beij-la. Era uma noite perfeita.
      - H algo que quero pedir a voc - disse ele, finalmente. Ela no podia imaginar o que estava por vir. Virou-se para olh-lo, franzindo a testa. - Hoje  tarde 
pensei bastante. Na verdade, venho pensando muito ultimamente. Parecia to fcil deixar que Jan e Paul ficassem com o beb. Foi mais fcil deixar voc tomar essa 
deciso.
      - Achei que era uma coisa boa a fazer por eles. - Ela Parecia decepcionada. Ainda no tinha certeza do que estava sentindo.
      - E era. Voc foi incrvel ao tomar aquela deciso. Mas no era certo. Talvez os cus soubessem disso e fizeram com que ela engravidasse. - Ele fez uma pausa, 
mas apenas por um instante. - Quero que fiquemos com o beb. Ele  nosso filho... eu o quero muito. - Havia lgrimas em seus olhos, mas como estava escuro, Amanda 
no podia v-las.
      - Voc quer? - Pela segunda vez naquele dia ela se sentia como se algum pudesse derrub-la ao toque de uma pluma. - Tem certeza?
      -  claro que tenho certeza. E estou cansado deste papo moderno e estpido. Quero casar com voc. Agora. Amanh. Imediatamente. No quero que nosso filho seja 
considerado ilegtimo.
      - Ainda temos quatro semanas. - Amanda sorriu para ele, tentando descobrir se realmente dizia a verdade ou se estava apenas tentando tomar uma atitude nobre. 
- Voc no precisa fazer isso. Eu amo voc tanto quanto amaria se fssemos casados.
      - Eu tambm. Ento, por que no? Essa  uma maneira idiota de viver. Eu moro em Malibu, voc mora em Bel Air e dormimos juntos nos fins de semana? Quero estar 
por perto para a mamada da noite e para o nariz escorrendo. Quero assistir ao primeiro passo, ao primeiro dente, e ao seu primeiro cabelo branco, e... - Ele estava 
sorrindo para Amanda, que dava gargalhadas.
      - Odeio ter que dizer isso, mas esta parte voc j perdeu. H uns dez anos mais ou menos.
      - Ento no quero perder o resto. No sei onde estava com a cabea. Estive to ocupado protegendo a mim mesmo nos ltimos vinte anos que acabei esquecendo 
de proteger voc. E, mais importante ainda, esqueci como isso pode ser bom. Eu no quero viver pela metade, ou aproveitar s os momentos bons. Quero tudo a que tenho 
direito. Quero estar por perto se voc ficar doente, ou feliz, ou triste, ou se precisar de mim. E quero que voc esteja por perto se eu tambm precisar. Principalmente 
se eu comear a babar ao mesmo tempo que ele. - Jack tocou delicadamente na barriga de Amanda, que levou o dedo dele at os lbios e beijou-o. 
      - Estarei sempre ao seu lado - disse, com ternura. - E voc est sempre presente. - E ento, de repente, ela pareceu ficar mais uma vez preocupada. - Voc 
no acha que  muito cedo? - Ento, neste momento, Jack deu uma gargalhada to alta que os vizinhos poderiam ter ouvido.
      - Amanda, eu amo voc. Voc j deu uma olhada no espelho? Isso  que  silhueta. No, no  cedo demais. Nem um minuto. Vamos nos casar na semana que vem. 
Ligarei para as crianas, e se um deles fizer algum comentrio desagradvel, vou deserd-los, e vou dizer isso a eles. E isso inclui Louise!  hora de essas crianas 
darem algum apoio a voc para variar um pouco, em vez de s exigirem, ou esperarem que voc as aceite, vamos deixar que elas digam alguma coisa que lhe agrade. Quero 
ver sorrisos desta vez, e ouvir parabns! Eles nos devem uma. - E ela podia ver no fogo que seus olhos estavam emitindo que ele no estava brincando, e adorou aquilo.
      No dia seguinte, ele fez exactamente o que disse que faria. Ligou para os trs filhos e contou que iriam se casar. O casamento estava marcado para o prximo 
sbado. Jack pedira a um amigo de longa data, um juiz, para cas-los. Ele celebraria o casamento na loja e depois dariam uma recepo para duzentas pessoas. E Jack 
e Gladdie cuidaram de tudo. Apesar de Amanda odiar ter que admitir, ela estava finalmente muito cansada para fazer alguma coisa. Ela se sentia com catorze meses 
de gravidez, e parecia mesmo.
      Ele encontrou um vestido para ela, um Gazar creme que caia sobre seu corpo avantajado como ptalas. Era perfeito. Ela iria usar flores no cabelo e carregar 
um buqu de anglicas, orqudeas e frsia. Ambas as filhas concordaram em comparecer  cerimnia, e Jack props que as duas passassem na loja para pegar seus vestidos. 
Jan foi de bom grado,  claro que Louise no. Mesmo assim prometeu a Jack pelo telefone que no dia do casamento seria cordial. Ficou furiosa por Jack ter ligado. 
Ela achava que a me  que deveria ter feito isso. Louise estava sempre furiosa com alguma coisa.
      E quando o dia do casamento chegou, Jack e Amanda saram para uma curta caminhada pela praia de Malibu, Ento ela voltou em sua casa para se vestir com suas 
filhas. Ambas concordaram em ajud-la. Estava nervosa como qualquer outra noiva, e suas mos tremiam quando colocou o vestido. O cabeleireiro veio fazer seu penteado, 
um coque fofo que tinha sido sua marca registrada, e estava espetacular, mesmo com oito meses e meio de gravidez.
      - Voc est tima, me. - Louise se postou atrs dela e falou para a imagem refletida no espelho, quando Jan desceu as escadas para ver se as flores estavam 
prontas.
      - Obrigada - disse Amanda e ento se virou vagarosamente para olhar a filha. - Voc no est com raiva de mim? - Mas mesmo que estivesse, Amanda fazia exactamente 
o que queria.
      - No estou com raiva. Ainda sinto falta de papai. Mesmo que s vezes ele fosse um p no saco. - Seus olhos se encheram de lgrimas enquanto falava. Ela no 
s perdoara a me, finalmente, como tambm ao pai.
      - Sinto falta dele tambm, Lou. - Amanda abraou a filha mais velha por um momento e depois se afastou para olh-la. Ele era difcil, mas no fundo era uma 
pessoa decente. - Mas tambm amo Jack.
      - Ele  um cara legal - admitiu Louise, e ento seus olhos se anuviaram novamente. Havia algo que tinha de perguntar  me. - Voc teria feito isso por mim, 
me? Quero dizer, me dar o beb, se eu no pudesse ter um filho? - Esta dvida a havia atormentado desde o incio.
      -  claro que sim. Faria isso por qualquer uma de vocs.
      - Sempre achei que voc a amava mais. Ela sempre foi to especial para voc. - A voz de Louise foi abafada por soluos, e a me ficou chocada com o que ela 
estava dizendo.
      - Voc tambm. Vocs duas so especiais. Amo as duas da mesma forma.  claro que eu teria feito isso por voc. Como voc pde pensar o contrrio?
      - Estupidez minha, acho. Jerry disse que voc o faria quando conversei com ele a respeito.
      - Ento ele  mais esperto do que voc.
      Neste momento, Louise a surpreendeu ainda mais.
      - Estou feliz que voc tenha ficado com o beb. Vai ser bom para vocs. Trar sua juventude de volta... ou ento os levar  loucura.
      - Provavelmente as duas coisas ao mesmo tempo. - Amanda riu por entre suas prprias lgrimas. Jan entrou no quarto e Amanda abraou Louise mais uma vez e lanou-lhe 
um olhar de cumplicidade. Nada assim jamais acontecera antes. E ento ela virou para as duas e perguntou se elas estariam ao seu lado quando o beb nascesse. - No 
acho que Jack v conseguir. Ele quase saiu correndo da aula de Lamaze.
      Louise riu do que a me disse, e pareceu lisonjeada.
      - Jerry tambm. Mas ele se comportou quando chegou a hora. Talvez Jack tambm se comporte.
      - No creio que a gerao dele saiba lidar com partos.
      - Bem, estaremos l. - Jan colocou o brao no ombro da irm e ambas sorriram para a me.
      - Ainda vai demorar umas duas ou trs semanas. Estejam por perto nesse perodo para que eu possa encontr-las quando chegar a hora.
      - No se preocupe, me - disseram as duas em coro, e com isso a limusine chegou, trazendo o fotgrafo. Quase aqueceram o buqu. Amanda estava to nervosa que 
o flego se esvaa, mas estava linda. E as filhas ajudaram-na a entrar no carro, rindo da dificuldade que era fazer isso. A me mal podia se mover agora.
      Quando chegaram  loja, as trs estavam deslumbrantes. As flores estavam espetaculares e havia literalmente um forro de flores acima delas. Havia orqudeas, 
rosas e lrios-do-campo. Era a coisa mais linda que Amanda j vira, e quando parou ao lado de Jack  frente do juiz, e com as filhas por perto, foi acometida por 
sbita emoo. Aquilo significava tanto para ela, ou talvez mais ainda, do que seu primeiro casamento. Ela era mais experiente agora, e sabia o quanto tinha sorte 
por t-lo. E nesta poca de suas vidas, eles se completavam perfeitamente.
      O juiz declarou-os marido e mulher, e nesta hora, como Jack havia exigido, os filhos sorriram e os parabenizaram s que espontaneamente. A famlia inteira 
fez pose para fotos, bebendo champanhe, exceto Amanda, que bebeu cerveja sem lcool. E vinte minutos depois, os convidados chegaram. Parecia um megacasamento.
      Todos os convidados ainda estavam l  meia-noite, e Amanda se achava to cansada que Jack no ousou fazer com que ela ficasse l por mais um momento sequer. 
Ela jogou o buqu do alto da escada, e Gladdie foi quem o pegou, enquanto George Christy anotava os nomes. Ele era o nico membro da imprensa convidado por Jack. 
E quando eles correram para o carro, as pessoas jogaram ptalas de rosas neles. Eles no iriam longe. Passariam dois dias no Hotel Bel Air, dois quarteires de distncia 
da casa de Amanda, mas ela mal podia esperar para chegar logo e tirar as roupas. Aquele fora o dia mais feliz de sua vida, mas j estava mais do que exausta, e sua 
aparncia denunciava seu cansao. Jack abraou-a ainda dentro do carro. Ele insistira em lev-la para o Bel Air em sua Ferrari vermelha, que estava coberta de bolas 
e fitas de cetim brancas, e onde algum escrevera com creme de barbear "recm-casados".
      - Sinto-me como um adolescente de novo - Jack sorriu exultante para ela. Ele adorara o casamento.
      - E eu me sinto como uma av - riu -, uma av muito gorda. Voc e Gladdie fizeram um trabalho maravilhoso. Estava tudo perfeito. Mal posso esperar para ver 
as fotos.
      Ele pediu champanhe no quarto, e mais cerveja sem lcool para ela. Havia uma grande quantidade de vdeos no quarto. Assim que o mensageiro foi embora, Jack 
ajudou Amanda a tirar a roupa. Ela mal pde se mover ao deitar na cama ainda de meia-cala e corpete. Estava com dor nas costas h horas, mas no quis estragar o 
momento dizendo isso a ele. Ela se recostou na cama suspirando de felicidade, e se deixou afundar numa montanha de travesseiros.
      - Oh, meu Deus... Eu morri e fui para o paraso... - disse ela com um sorriso, ao que ele olhou para ela, sentindo-se um homem feliz. Isso era tudo o que ele 
desejara. O passado ficara para trs.
      - Voc quer alguma coisa? - perguntou ele, ao tirar a gravata.
      - Um guindaste - respondeu, sorrindo. - Eu no vou conseguir levantar se tiver que ir ao banheiro.
      - Eu carrego voc - disse ele, galantemente.
      - Isso iria mat-lo.
      Ele jogou o terno numa cadeira e foi se deitar ao lado dela, bebendo champanhe e comendo os morangos e as trufas que o hotel deixara ao lado de sua cama.
      - Experimente um desses - disse ele, colocando um chocolate na boca de Amanda. Ela suspirou de satisfao. Ento, ele comeou a manusear os vdeos. - O que 
voc acha de um porn?
      - No sei se estou com muita disposio - riu ela.
      - Na nossa noite de npcias? - Ele pareceu ficar desapontado.
      - Eu ajudo voc - disse, esperanoso, mas ela pde notar que ele tomara muito vinho e no o levou a srio. Amanda se arrastou para fora da cama e foi ao banheiro. 
J tinha ido ao banheiro milhares de vezes naquela noite e por incrvel que parea, o facto de se deitar fez com que sua dor nas costas piorasse, em vez de melhorar.
      - Acho que vou tomar um banho - disse, a caminho do banheiro.
      - Agora? - J era uma hora da manh, mas, de alguma forma, ela achou que aquilo iria fazer com que se sentisse melhor. Estava para l de exausta. Odiava se 
sentir assim na noite de npcias, mas o dia e a noite foram bastante longos. E ela ficara de p durante horas.
      E, de fato, o banho provocou uma melhora. Quando voltou para a cama, a TV ainda estava passando o porn, mas Jack j estava roncando. Sentou-se na cama por 
alguns instantes e olhou para ele, pensando em como a vida era estranha. Ela rene pessoas diferentes em momentos diversos. A essa altura, Amanda no conseguia se 
imaginar com qualquer outra pessoa que no Jack.
      Ele se mexeu ligeiramente quando ela deslizou para a cama ao seu lado e, um minuto depois, desligou a luz e a TV. Mas, assim que deitou, o beb comeou a chutar. 
Essa noite estava prometendo ser longa, pensou ela. Ficou deitada pelo que pareceram sculos, mas no conseguiu dormir. Ainda estava com a dor nas costas e agora, 
alm disso, comeava a sentir uma presso estranha, como se o beb estivesse empurrando a cabea para baixo. E ento, de repente, uma pontada na parte baixa de seu 
ventre fez tocar um acorde em sua memria. Estava em trabalho de parto. E as pontadas eram as contraes.
      As contraes comearam a se manifestar suaves. E Amanda reparou que se passaram dez minutos de uma para outra. Eram lentas, firmes e regulares. s trs da 
manh ainda deitada no escuro ao lado de Jack, comeou a senti-lo de cinco em cinco minutos. No sabia se o acordava. Poderia ser uma atitude tola se ainda fosse 
cedo demais. Mas ele ouviu quando ela foi novamente ao banheiro.
      - Voc est bem? - murmurou Jack, sonolento, quando ela voltou para a cama e se aconchegou nele.
      - Acho que o beb est querendo nascer - sussurrou ela.
      Ele se sentou num pulo.
      - Agora? Aqui? Vou ligar para o mdico. - Ele acendeu a luz de imediato e ambos semicerraram os olhos.
      - Acho que ainda no  a hora. - Mas, ao dizer isso, Amanda sentiu uma dor terrvel que a fez trincar os dentes e se contorcer ao lado dele. Felizmente, a 
dor desapareceu em menos de um minuto.
      - Voc est maluca? Quer ter o beb aqui? - Ele pulou da cama e colocou as calas, e Amanda estava rindo dele quando a dor voltou. De repente, estava voltando 
a cada dois minutos.
      - Eu nem fiz minha mala - disse ela entre uma contrao e outra. - Queria passar pelo menos uma noite aqui.
      - Trago voc de volta, prometo, depois que tivermos o beb. A qualquer hora que voc quiser. Agora, veja se levanta dessa cama para que possamos ir ao mdico 
antes que a criana nasa.
      - O que eu quero dizer  que eu no tenho nada para vestir.
      - O que h de errado com o que voc estava vestindo?
      - No posso ir de vestido de noiva para o hospital. Eu iria parecer uma tola.
      - Prometo que eu no conto para ningum que  um vestido de noiva. Vista-se logo, Amanda, pelo amor de Deus... O que voc est fazendo?...
      - Tendo uma contrao - disse ela, por entre os dentes trincados de novo. Neste instante, Jack sentiu o estmago embrulhar.
      - Acho que o champanhe estava envenenado.
      - Talvez voc tambm esteja em trabalho de parto - disse ela, quando a dor parou. - Ligue para Jan e para Louise - pediu, rastejando para fora da cama. Agora 
Amanda estava tendo uma certa dificuldade em se levantar.
      - Vou chamar uma ambulncia.
      - No quero uma ambulncia. - Ela estava entre lgrimas e risos quando a contrao seguinte aconteceu. - Voc vai me levar de carro.
      - No posso. Estou bbado. No d para perceber?
      - No. Voc parece timo na minha opinio. Ento eu dirijo. Apenas ligue para Jan e Louise.
      - No sei o nmero do telefone delas, e se voc no colocar esse vestido de noiva agora mesmo, vou chamar a polcia e levar voc presa.
      - Isso seria bom - disse ela, num tom abafado, enquanto colocava o vestido de noiva pela cabea e segurava a barriga. Mas quando tentou calar os sapatos, 
seus ps estavam inchados demais e ela no conseguiu. - Vou ter que ir descala - disse, j pensando sob um aspecto prtico.
      - Pelo amor de Deus... Amanda... por favor... - Ele atirou a mala dela na cama e comeou a remex-la. E, como que por milagre, ele achou um par de chinelos. 
- Calce isto.
      - Qual  o problema de vocs do varejo? Por que no posso ir descala, simplesmente?
      - Voc ficaria ridcula. - Eles j estavam na porta do quarto a essa altura, e j passava um pouco de quatro horas da manh, mas a contrao seguinte foi to 
forte que ela teve de se recostar na porta. S de olhar para ela, Jack comeou a gemer. Ela colocou o brao no ombro dele ao deixarem o quarto e andarem vagarosamente 
at a frente do hotel, onde ele estacionara o carro. O tempo que eles levaram at l pareceu uma eternidade. Na verdade, levou mais do que dez minutos, e ela estava 
comeando a se preocupar, receando ter o beb antes at de conseguirem chegar na Ferrari.
      Ela sentou-se no assento do motorista e esticou a mo para Jack, rezando para que ele tivesse lembrado de trazer as chaves. No queria ter de esperar nem mais 
um minuto. Mas, felizmente, as chaves estavam no bolso das calas dele. Jack as entregou para ela e entrou no carro a seu lado. Enquanto eles saam do estacionamento 
e atravessavam Bel Air, ela deu-lhe o nmero do telefone de Jan e mandou-o ligar.
      - Diga a ela para ligar para Louise. Apenas diga para elas se encontrarem comigo na maternidade. Estaremos l em cinco minutos.
      - Eles provavelmente vo me mandar para a geriatria.
      - Relaxe, voc vai ficar bem - disse, rindo dele. Esta era uma maneira e tanto de passar uma lua-de-mel. A qualquer minuto estariam tendo um beb. A iminncia 
era tal que ela teve que parar no acostamento para aguentar a contrao seguinte.
      - Oh, meu Deus - gritou ele -, o que voc est fazendo?
      - Estou tentando no destruir sua Ferrari enquanto estou tendo uma contrao - disse ela, parecendo mais a garota em O Exorcista do que a mulher com quem acabara 
de casar. Ele olhou para ela com uma expresso de medo.
      - Merda! Acho que voc est na transio!
      - No me diga o que est acontecendo comigo, apenas cale a boca e ligue para minha filha.
      -  isso...  isso... Foi exactamente isso que a bruxa l do hospital disse que iria acontecer... ela disse que voc comearia a agir como algum que nunca 
vi na vida. Isto  a transio! - Ela no estava certa se queria rir ou mat-lo. Mas pelo menos ele ligou para Jan, e avisou que a me estava na transio.
      - Isso  algum tipo de piada? - perguntou Jan. Ela estava sonolenta e no tinha idia do que ele estava falando. Era bvio que Jack abusara da bebida durante 
a festa de casamento.
      -  claro que no  uma piada - gritou ele no telefone, ficando histrico. - Ela est tendo o beb e ns estamos a caminho do hospital, e ela est na transio. 
Est agindo como uma completa estranha.
      - Tem certeza de que  a mame? - Jan riu. Ele estava se comportando de uma forma ainda mais histrica do que a me previra.
      - Bem, pelo menos ela est com o vestido de casamento de sua me. E quer que voc ligue para Louise. Mas se apresse!
      - Estaremos l em dez minutos! - disse ela e desligou ao mesmo tempo em que Amanda cantava os pneus ao entrar no estacionamento do hospital, abrindo a porta 
da Ferrari e lanando um olhar exasperado para o recm-declarado marido.
      - Voc estaciona. Estou ocupada. E no arranhe o carro, ou meu marido vai matar voc.
      - Muito engraado, madame. Muito engraado, quem quer que voc seja. E ainda se parece com a minha esposa - disse ele para o guarda da noite, que balanou 
a cabea e apontou para o lugar onde Jack poderia deixar o carro. Ele deduziu que os dois deveriam estar drogados, assim como o resto de Los Angeles.
      Amanda j estava no lobby a esta altura, e sentada numa cadeira de rodas. Ela informou a eles o nome do mdico que a atendia e, assim como lhe fora ensinado 
no curso de Lamaze, ela estava ofegante e fazia a respirao de cachorrinho. As contraes estavam piorando.
      - O que voc est fazendo? - perguntou Jack ao olhar para ela, e ento se lembrou. - Esqueci meu cronmetro. - Mas uma enfermeira j estava levando-a para 
o elevador, enquanto Amanda se agarrava  cadeira de rodas. Ela estava fazendo com que Jack ficasse nervoso. - Querida, voc est bem?... Quero dizer, de verdade...
      - O que voc acha? - Sua voz mal podia ser ouvida por causa da contrao, mas ela parecia um pouco mais consigo mesma agora. Talvez no estivesse mais na transio.
      - Acho que voc est desconfortvel - disse ele, honestamente -, pior do que isso.
      - Estou pior do que isso. Sinto como se algum estivesse arrancando minhas tripas com uma serra.
      - O que aconteceu com a coisa do lbio superior?
      - Isso vem depois.
      - Mal posso esperar.
      Eles a levaram at uma sala no terceiro andar e a fizeram trocar de roupa e colocar um avental do hospital. Deram a Jack uma touca e um tipo de pijama verde.
      - Para que isso? - Ele entrou em pnico.
      - Para voc, caso queira assistir ao nascimento do beb - disse a enfermeira, sem-cerimnia, e ento chamou um residente para checar Amanda.
      Ele apareceu na sala de parto dois minutos depois, enquanto Jack estava trocando de roupa, e anunciou que Amanda estava com oito centmetros de dilatao e 
crescendo rapidamente. Ela j estava indo para os nove centmetros quando ele acabou de chec-la.
      - Quero uma peridural - disse ela, agarrando as barras da lateral da cama durante a contrao seguinte... - Morfina... Demerol... qualquer coisa... quero algum 
remdio...
      - J  tarde, Sra. Kingston - disse a enfermeira, delicadamente. - Voc deveria ter chegado aqui com sete centmetros.
      - Eu estava ocupada. Eu estava dirigindo at o hospital na Ferrari do meu marido. - Ela j comeara a chorar. Aquilo no era engraado. E ela virou para olhar 
para o residente e para a enfermeira com raiva. - Vocs esto me dizendo que se eu tivesse chegado aqui h meia hora poderia ser anestesiada com uma peridural?  
culpa sua - disse ela para Jack, no momento em que ele saiu do banheiro parecendo uma enfermeira novata.
      - O que  minha culpa? Disso... - ele olhou para a enorme barriga -, acho que  sim. E a propsito - ele se virou para o mdico, imperiosamente -, ela no 
 a Sra. Kingston.
      - No? - Ele pareceu ficar confuso e pegou a prancheta. Estava claro ali. - Aqui diz que ela  a Sra. Kingston.
      - Ela  a Sra. Watson - corrigiu Jack, ainda bbado por causa da quantidade incontvel de champanhe que ingerira no casamento.
      Seriam preciso horas, at dias, at que ele ficasse sbrio, e Amanda sabia disso.
      - No importa quem eu sou. Apenas chame o meu mdico. Onde est ele?
      - Estou aqui, Amanda - disse uma voz da porta.
      - Bom. Eu quero algum tipo de anestsico, e eles no esto querendo me dar. - Ele conversou durante um minuto com o residente e ento balanou a cabea.
      - O que voc acha de um pouco de morfina?
      - Parece timo. - Eles a conectaram a um monitor, deram a injeo e administraram um intravenoso nela, tudo em menos de cinco minutos. S de olhar os mdicos 
fazendo aquilo tudo fez Jack sentir uma nusea violenta. Ele estava sentado numa cadeira no canto, com os olhos fechados, e a sala rodava ao seu redor.
      - Vamos pegar uma xcara de caf amargo, vamos? - disse o mdico e a enfermeira levantou uma sobrancelha.
      - Na veia?
      - Boa idia. - A equipe mdica deu risadinhas. Jack abriu um olho e olhou para eles enquanto Amanda passava pelo sofrimento de mais uma contrao, mas pelo 
menos a morfina a aliviara um pouco.
      - Por que todos esto falando to alto por aqui? - reclamou Jack no momento em que Jan e Louise entravam e iam direto para a me.
      - Voc no deveria estar aqui - Amanda falou para Jan, meio grogue. A morfina estava fazendo com que ela ficasse meio sonolenta.
      - Por que no, me? - Ela tocou no seu rosto gentilmente e passou a mo plos cabelos, enquanto Louise saa para buscar gelo modo para ela. Quando estava 
em trabalho de parto, isso tinha sido tudo o que mais desejara.
      - Pode ser traumatizante e voc nunca vai querer ter filhos. Isso  horrvel. - E ento acrescentou, como um complemento ao que acabara de dizer, tendo fechado 
os olhos por um instante - Mas vale a pena. Eu amo voc, querida - sussurrou para a filha e ento recomeou a se acalmar, na hora em que Louise voltou com as raspas 
de gelo. - Eu amo voc tambm, Louise - disse ela, e aceitou agradecida o gelo. Jack ainda estava sentado no canto, bebendo o caf.
      E s cinco horas da manh, quando o doutor foi verificar novamente sua dilatao, decidiram que j era hora de ela ir para a sala de parto. A essa altura, 
a morfina j estava perdendo o efeito e Amanda comeou a reclamar.
      - Eu me sinto pssima... por que me sinto to mal assim...?
      - Porque est tendo um beb - disse Louise. Jack andou at ela e ficou a seu lado. Ele parecia estar um pouco mais sbrio.
      - Como est indo, querida? - perguntou ele, tentando ser solidrio.
      - Estou pssima.
      - Aposto que sim. - E ento ele olhou para a enfermeira, contrariado. - No pode dar algo para ela? Por que voc no d uma anestesia geral, pelo amor de Deus?
      - Por que ela est tendo um beb, no uma cirurgia no crebro, e precisa ajudar fazendo fora.
      - No quero fazer fora. Odeio fazer fora. Odeio tudo. Odeio isso. - Toda a morfina aplicada fez com que ela se sentisse grogue e ausente, mas ainda sentia 
muita dor.
      - Tudo vai acabar logo - disse ele ao seguir a maca at a sala de parto, tentando entender como fora parar ali. Ele no queria ver aquilo, mas ao mesmo tempo 
no queria deix-la sozinha. E as meninas o seguiam de perto. O equipamento naquela sala j o fez ficar tonto. Eles ofereceram a cada um deles um banco perto da 
cabea de Amanda. Colocaram-na numa posio quase sentada, colocando seus ps em um apoio. E no canto da sala havia um pequeno bero de plstico, com uma luz quente 
nele, para mant-lo aquecido para o beb. Tudo fez sentido para ele naquele instante. Eles estavam l por uma razo. Algo maravilhoso estava acontecendo: Eles no 
estavam ali s para v-la sofrendo.
      Mas depois de algum tempo, parecia mesmo que este era o nico motivo. Ela fez fora durante duas horas e nada acontecia. O beb era enorme. Havia sussurros 
entre a equipe mdica. O mdico olhou para o relgio e balanou a cabea.
      - Vamos dar a ela mais dez minutos. - Jack j estava alerta e ouviu o que ele disse.
      - O que significa isso?
      - O beb no est se mexendo muito, Jack - disse o mdico, controladamente. - E Amanda j est cansada.  possvel que tenhamos que dar uma ajuda aqui.
      - Que tipo de ajuda? - Ele parecia estar entrando em pnico. Ele j sabia o que o mdico ia dizer. O filme de treinamento. A cesariana. Aquele que parecia 
que tinham serrado a mulher ao meio. Ento ele olhou para o mdico horrorizado. -  preciso?
      - Vamos ver. Talvez no, se ela nos ajudar. - Amanda estava cada vez pior. Estava chorando e fechando as mos com fora. Suas filhas pareciam preocupadas. 
Mas Jack estava mais histrico do que elas. E cinco minutos depois, no houve qualquer melhora. Eles estavam parados esperando pela prxima contrao quando soou 
um alarme, e a sala inteira pareceu se encher de barulhos, com todo mundo entrando rapidamente em aco em volta dela.
      - O que  isso? O que aconteceu? - Jack voltou a ficar em pnico, e totalmente sbrio.
      - Este  o monitor fetal, Jack. O beb est com problemas - explicou o mdico, mas estava muito ocupado para se alongar na explicao. Havia instrues sendo 
dadas por todos os lados, e o anestesista estava dizendo algo para Amanda, que chorava.
      - Que tipo de problemas? - Jack estava desesperado para saber o que estava acontecendo e ningum lhe dizia nada.
      - Vocs vo ter que deixar a sala agora. Todos vocs - disse o mdico em voz alta e ento se virou para falar com o anestesista. - Ns temos tempo para uma 
peridural?
      - Vou tentar - respondeu ele. Mais correria, mais instrues, barulhos por todo lado, e Amanda tentando alcanar a mo de Jack como um animal ferido, deitada 
ali. As meninas j tinham sado da sala, mas Jack sabia que no poderia abandon-la. No podia fazer isso com ela.
      - Eu assisti  aula - disse ele, para quem quisesse ouvir. - Assisti  aula de Lamaze com o filme de cesarianas... - Mas ningum estava ouvindo, seus olhos 
estavam grudados no monitor, e ainda estavam tentando sem sucesso tirar seu filho de dentro de Amanda.
      A peridural fez efeito e o mdico olhou para Jack severamente.
      - Sente-se e converse com ela.
      Colocaram uma tela na frente dela, de modo que ele no pudesse ver a cirurgia, apenas o rosto de Amanda, e o anestesista parecia estar fazendo um milho de 
coisas ao mesmo tempo. Havia bandejas de instrumentos sendo movimentadas de um lado para outro e Jack procurava no olhar para elas. Tudo o que podia ver agora eram 
seus olhos, seu rosto, e o terror evidente de Amanda.
      - Est tudo bem, querida. Estou aqui. Tudo vai dar certo. Eles vo tirar o beb em um minuto. - Ele percebeu que estava rezando em silncio para que no estivesse 
mentindo para ela. 
      - Ele est bem? O beb est bem, Jack? - Ela estava chorando e falando um monte de coisas ao mesmo tempo, mas pelo menos no sentia mais dores, apenas vrios 
puxes e empurres. E Jack mantinha os olhos nela, dizendo-lhe o quanto a amava.
      - O beb est bem - dizia o tempo todo, esperando que isso fosse verdade, rezando para que nada tivesse acontecido com o beb. Ele no queria que isso acontecesse 
com ela. Amanda j passara por muito sofrimento. O beb tinha que sobreviver. Mas a cirurgia parecia durar uma eternidade. Havia suor caindo do rosto de Jack no 
pano que havia a seu lado, e suas lgrimas se misturavam s dela enquanto eles esperavam. O som de uma pulsao constante preenchia a sala e, de repente, um silncio 
sbito fez com que ela comeasse a chorar desesperadamente. Era como se soubesse, como se sentisse que algo terrvel estava para acontecer, e tudo o que ele pde 
fazer foi beij-la e dizer o quanto a amava. Como ele poderia fazer com que ela o perdoasse se o beb morresse? Ele sabia que, no importa o que fizesse, jamais 
conseguiria. E ao olhar para ela, torcendo para que o filho vivesse, escutaram um choro ao fundo que encheu a sala, e os olhos de Amanda se abriram, e ela ficou 
maravilhada.
      - Ele  normal? - Ela estava completamente exausta, mas era tudo o que precisava saber agora, e o mdico tratou de tranquiliz-lo rapidamente.
      - Ele  perfeito. - Cortaram o cordo umbilical e o colocaram numa balana para pes-lo. Neste momento, Jack foi ver seu garoto, seu filho. Quatro quilos e 
oitocentos gramas. Quase cinco. Ele tivera que lutar para chegar ali. Tinha os olhos azuis da me, e uma expresso de espanto em seu rosto como se tivesse chegado 
antes do que previra. E tinha. Ele estava quase trs semanas adiantado.
      Eles o limparam e o enrolaram num cueiro, deitando-o ao lado da me, mas seus braos ainda estavam amarrados  cama e ela no pde abra-lo. Jack o segurou 
para ela e seus olhos se encheram de lgrimas ao ver Amanda olhando para seu filho pela primeira vez, acariciando-o com o rosto. Nada o comovera mais do que essa 
mulher que ele aprendera a amar tanto e o beb que nenhum dos dois esperava. Ele era um pequeno sonho nascendo, uma grande esperana para o futuro, uma entrega especial 
dos cus. E de repente Jack no se sentiu velho, mas jovem, ao olhar para eles. Era um presente de magia para o futuro. Como uma janela aberta para a luz do sol.
      - Ele  to lindo - sussurrou ela, ao olhar para Jack. - Parece com voc.
      - Espero que no - disse ele, com lgrimas rolando por sua face enquanto se inclinava para beij-la. - Obrigado - disse Jack para Amanda - ...por no ter desistido 
dele... por querer ficar com ele quando eu no o quis.
      - Amo voc - disse ela, sonolenta. J eram oito horas da manh, e seu filho j tinha dez minutos de idade.
      - Amo voc tambm - disse ele, observando-a enquanto Amanda caa no sono e eles levavam o beb para o berrio e terminavam de atender  me. Jack ficou sentado 
por um longo tempo, olhando para a mulher, e quando finalmente a levaram de volta a seu quarto, Amanda ainda estava dormindo. Jack continuou com ela.
      Os outros estavam esperando por eles e j sabiam que tudo tinha ido bem. Paul tambm estava presente, e todos estavam sorrindo.
      - Parabns! - Louise foi a primeira a dar os parabns e, pela primeira vez, estava sendo sincera.
      
      Fim
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      

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